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Gay Talese em palestra no Masp

Redação

08 Julho 2009 | 09h15

Por Elida Oliveira

Centenas de estudantes e profissionais de Jornalismo e admiradores de Gay Talese foram ontem ao Masp para assistir à última palestra no Brasil do jornalista e escritor americano, de 77 anos. Consagrado como um dos precursores do New Journalism, estilo que mescla técnicas literárias à apuração e redação de reportagens, Talese disse ter como preocupação central as pessoas, geralmente anônimas, que estão por trás dos fatos.

Não faltaram conselhos: desistir de uma entrevista quando a outra pessoa mostrar-se impaciente; tentar conquistar a confiança de todos os entrevistados; reler notas; descrever cenas; ver os fatos “do lado de fora”; repetir a mesma pergunta várias vezes para verificar se o entrevistado conta o mesmo fato de outra maneira ou se dá mais informações; ser cortês – sempre. Conselhos que muitos estudantes e profissionais presentes já ouviram ou na universidade ou de colegas experientes, mas raramente postos em prática nas redações.

O jornalista disse que ainda começa a pensar suas reportagens consultando pacientemente o bloquinho de anotações. Gosta de começar os textos descrevendo cenas. “Escrever simples é difícil”, disse.

Talese afirmou que um bom jornalista deve averiguar cada informação e estar disposto a gastar tempo com as pessoas, deixando que elas ganhem confiança para relatar suas histórias de vida, como a do funcionário responsável por manter a grama aparada em um estádio de beisebol, por exemplo, ou a do homem que digita pacientemente notícias que entrarão em enormes letreiros de prédios. Este último, aliás, foi tema de sua primeira reportagem, aos 21 anos, quando contou a história do funcionário do ‘New York Times’ que havia 25 anos digitava chamadas para o letreiro luminoso do jornal em Times Square.

A imagem do jornalista como um eterno curioso permeou a fala de Talese. Embora ele se assuma como um “antiquado”, por não usar internet, e-mail ou celular, alguns de seus textos foram recentemente publicados em sites e blogs. Seria a adaptação às novas mídias? Talese disse que não. Ressaltou que o importante para ele é que o impulso inicial do trabalho, em qualquer meio, foi a curiosidade. “O jornalista deve ser curioso e isso não se aprende em faculdades.”

Dalmo Luis Borba, de 22 anos, já formado em Jornalismo, ficou impressionado com a perfomance do americano. “Ele fala como escreve, consegue pegar um fato singular e colocar em uma contextualização abrangente.” Inspirado no autor, do qual já leu quatro livros, Borba também arriscou um ensaio literário no trabalho de conclusão de curso da faculdade. “Fiz um livro reportagem com uma comunidade em Alto Paraíso, em Goiás. Eram pessoas que acreditavam em discos voadores e usavam drogas, então, como fazê-las se sentirem à vontade para me contarem estas histórias?” disse. A obra de Borba está sendo reescrita. “Quero tentar uma publicação”, contou.

Daniella Cornachione, de 21 anos, aluna de Jornalismo da Cásper Líbero, incomodou-se com as críticas de Talese às novas tecnologias. O americano havia dito que atualmente muitos profissionais se acomodam ao uso do laptop e às buscas na internet. Daniella contou que o dia-a-dia dela no estágio é sempre em frente do computador, mas não por iniciativa própria, mas porque a empresa não permite que estudantes saiam da redação para apurar reportagens. “Eu não posso colocar o pé na rua”, lamentou.

Debora de Andrade, de 19 anos, também aluna de Jornalismo da Cásper Líbero, destacou a preocupação de Talese com as pessoas que compõem as histórias. “Esta dica não é nova, mas ter uma visão mais humana é interessante.” Para Debora, mesmo sendo conhecida, a dica nem sempre é aplicada. “Talvez nem em revistas mensais seja possível ficar dias e dias em uma matéria. Mas seria bom se pudéssemos apurar melhor e ter intimidade com o entrevistado.”

“Talese conseguiu construir uma carreira, mostrando que é possível fazer o que todos queremos (passar mais tempo apurando, dedicar tempo aos entrevistados)”, disse Guilherme Soares Dias, 24 anos, já graduado em Jornalismo e cursando pós em Jornalismo Literário. Dias afirmou que não desiste de tentar tornar até o texto mais burocrático um pouco mais interessante para o leitor. Para ele, a maior dificuldade é conciliar qualidade com prazo. “Temos que tentar driblar as dificuldades. O bom repórter é aquele que consegue fazer um bom texto dentro de um tempo razoável.”