Festas, encantados e patrimônio arqueológico da ‘cidade floresta’
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Festas, encantados e patrimônio arqueológico da ‘cidade floresta’

Redação Estadão.edu

13 Novembro 2013 | 16h09

Crédito: Laércio Esteves

Na construção de um itinerário de festas amazônicas, a equipe da Agência Colaborativa Estácio que viajou a Melgaço, no Pará, entrevistou a comissão de foliões de São Miguel Arcanjo que, em setembro, durante as festividades do padroeiro de Melgaço, saem por rios e florestas em peregrinação por comunidades eclesiais de base, vilas e habitações ribeirinhas, levando, por meio de rezas e cantos, as tradições religiosas populares. Os foliões apresentaram suas cantorias para a expedição na igreja matriz da cidade, diante de um altar do século XVII, um verdadeiro patrimônio da arte sacra em estilo barroco. Segundo o historiador Agenor, esse altar revela “muito do imaginário que liga homens e mulheres da Amazônia a devoções e a vida celeste.”

A pajé Maria Vitória, de 77 anos, sábia no conhecimento das ervas medicinais e espirituais foi outra entrevistada. Ela falou sobre correntes de encantarias que existem na região e contou histórias de um repertório de mais de 50 anos dedicado à cura de corpos, mentes e espíritos da população local. Segundo a Professora Viviane Menna, “essas realidades só podem ser representadas e compreendidas quando nos permitimos interagir com o outro respeitando o tempo, crenças, lógicas e códigos da floresta”.

Outro momento da expedição se deu em meio a cajueiros e pastagens, no encontro entre cultura e natureza, onde o rico patrimônio material deixado por antigas populações nômades da Amazônia emerge. Nas terras pretas fertilizadas pelo cálcio podem ser facilmente notados os restos de ostras, uruás, ossos de animais e pedaços de cerâmicas que afloram em decorrência do movimento do gado nas pastagens e ação das águas das chuvas. Esses sítios arqueológicos parecem ser uma metáfora, que sintetiza o encontro de múltiplas temporalidades e nos faz refletir sobre a ancestralidade e a devastação nos processos de ocupação do Marajó e da Amazônia.

Aprendendo in loco sobre história e memória, universitários e professores de comunicação produziram cerca de 500 gigas de material que será posteriormente transformado em documentário, HQ (histórias em quadrinhos), exposição fotográfica e artigos científicos. Segundo o estudante de comunicação Jeferson Cunha, 19, a experiência foi importante, pois possibilitou “despir-se de referências urbanas, do olhar etnocentrista e entender um modo diferente de viver.”

Paralelo a essas ações, a estudante de Engenharia Sanitária Ambiental da UFPA, Luana Vilhena, de 19, tentava vencer a emoção e elaborar um diagnóstico objetivo para desenvolver projetos para a comunidade de Cacoal, em Rondônia, enquanto o poeta e trovador marajoara Juraci Siqueira, autor de mais de 60 livros e detentor de cerca de 200 premiações em concursos literários nacionais e locais, cercado de crianças, realizou várias intervenções e atividades lúdicas nas escolas da cidade e da floresta.

Na despedida da expedição, parte da Banda municipal Pedro Castro Pacheco, ao som de metais e percussão, revelou o talento do saxofonista e trompetista Willian Wagner, de 21, que, junto com os foliões de São Miguel Arcanjo, em 2014, realizarão nos estúdios de áudio da Faculdade Estácio FAP o registro fonográfico de musicalidades do passado e futuro do povo marajoara.

Este texto foi produzido e cedido ao Estado pela Agência Colaborativa Estácio