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Confusão impede candidatos sabáticos de prestar Enem em SP e no Rio

Redação

05 Dezembro 2009 | 15h54

Uma confusão atribuída pelo Ministério da Educação a erros dos próprios candidatos impediu vestibulandos sabáticos de prestar o Enem. A reportagem do Estadão.edu apurou que mais de dez vestibulandos foram enviados a locais de prova diferentes da escola estadual Rodrigues Alves, na Avenida Paulista, reservada para o exame de 636 sabáticos. Quando os estudantes chegaram à Rodrigues Alves, os portões já tinham sido fechados.
Os sabáticos são candidatos que, por motivos religiosos, se resguardam durante o dia aos sábados. O esquema montado pelo Ministério da Educação para o Enem previa que eles entrassem nos locais de prova com os outros vestibulandos (os portões fecharam às 12h55) e ficassem confinados em salas especiais até o pôr do sol, quando iniciariam o exame.
Não foi isso que ocorreu com o adventista Túlio Luz Canhadas, de 22 anos. Ele fez o processo de inscrição pela internet e clicou no ícone destinado aos sabáticos, mas a informação não consta do seu cartão de inscrição. “Talvez o erro tenha sido meu.” Túlio foi convocado para prestar o Enem na Universidade Anhembi-Morumbi, na Vila Olímpia, e só lá soube que deveria fazer o exame na Rodrigues Alves. Seguiu para a Paulista, mas deu de cara com os portões fechados.
“Poderia ter feito a prova na Anhembi com os outros vestibulandos, mas já passei por outros problemas como este e preferi manter minhas convicções. A gente espera que Deus de alguma forma interceda a nosso favor”, disse Túlio.
Candidato ao curso de Medicina, ele pretendia entrar na Universidade Federal do Espírito Santo ou na de Pernambuco. Na primeira instituição, suas chances de aprovação foram reduzidas a zero, porque o Enem não é usado apenas para compor nota: é a primeira fase do vestibular.
“Já estava com a passagem comprada para o Espírito Santo para fazer a segunda fase”, lamentou.
Como Túlio, a adventista Layse Carla, de 22 anos, só descobriu pouco antes das 14 horas que o câmpus da Uniban da Vila Guilherme, zona norte de São Paulo, não tinha uma sala reservada para os sabáticos. Layse mostrou à reportagem do Estadão.edu o fax enviado ao MEC esclarecendo sua condição de sabática e a ficha confirmando o câmpus da Uniban como seu local de prova. Uma das fiscais do consórcio na Uniban afirmou ao Estadão.edu que o local tinha uma sala reservada para os sabáticos, mas depois voltou atrás. A reportagem apurou que pelo menos mais 15 sabáticos foram convocados a prestar exame num lugar sem sala reservada para eles, a Universidade São Judas, na zona leste.
Consultado pela reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) do MEC afirmou que, no caso de Layse, o erro foi da própria candidata, que perdeu o prazo para confirmar sua condição de sabática.
Fiel da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ana Patrícia Pacheco Passos, de 19, também não conseguiu fazer o Enem, no Rio. Ela compareceu ao local do exame no horário correto, mas foi
informada pela coordenação do câmpus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) que não havia no local previsão para atendimento especial a pessoas com restrições religiosas. Segundo a estudante, ela foi orientada a seguir para outra escola, mas não havia mais tempo
suficiente para o deslocamento.
Com documentos e cópia de e-mails em mãos, Ana Patrícia afirmou que seguiu todas as orientações dadas pelo Inep. Ela enviou um e-mail para o instituto em 7 de julho informando que sua religião não permitia que ela fizesse a prova antes do pôr do sol de sábado e perguntando se deveria selecionar a opção “necessidades especiais” na ficha de inscrição.
A estudante mostrou cópia do e-mail enviado a ela no dia 10 de setembro. No texto, o Inep informa que os candidatos na mesma situação de Ana Patrícia deveriam comparecer aos locais de prova, mas poderiam aguardar “em local próprio, e só começar a responder ao caderno de
questões após o final do dia”. O e-mail ainda informa que a mensagem de Ana Patrícia seria encaminhada à coordenação-geral do Enem, “para análise e providências necessárias”.
Neste sábado, Ana Patrícia tentou obter informações durante uma hora e meia, mas não conseguiu voltar a ter acesso à coordenação do Enem na Uerj. “A coordenadora mandou dizer que não ia falar mais nada, então resolvi voltar para casa. O pior é que ainda liguei para o Inep para confirmar como deveria proceder. Fui prejudicada. Parece até intolerância religiosa”, afirmou Ana Patrícia, que tentava ser aprovada em alguma faculdade pública de Medicina.