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Barulho do Maracanã prejudica alunos no Rio

Redação

06 Dezembro 2009 | 19h50

Quando o relógio marcava 14h55, o estudante Cherubin Cunha, de 18 anos, já tinha sua prova do Enem prontinha para entregar ao examinador. Vestido com a camisa do Flamengo, ele só esperava a autorização para sair correndo do câmpus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)em direção ao vizinho estádio do Maracanã, onde seu time ganharia horas depois o título do Campeonato Brasileiro. Dividido entre o almejado futuro na Engenharia e o presente do Flamengo, acelerou na prova de matemática, driblou as questões mais longas de português e terminou a redação pouco antes das duas horas regulamentares para poder deixar a sala e ser o primeiro a deixar o câmpus.
“Fiz tudo rapidinho, mas não deu tempo de revisar. Posso ter comprometido a prova, mas vale pelo Flamengo. Nem sei o que senti quando vi que o jogo seria na mesma hora da prova. Mas acho que vou passar”, afirmou Cherubin. Ele estava impaciente. “Ainda tenho que encontrar um cambista.”
Como Cherubin, grande parte dos estudantes foi fazer a prova com a camisa do Rubro-Negro. No entanto, a maioria sofreu com o barulho da torcida, que usava o estacionamento da universidade. Muitos paravam os carros com alto-falantes no último volume, gritavam e soltavam foguetes que chegaram a provocar crise nervosa em alguns candidatos nas salas. Seguranças pediram silêncio, mas não foram atendidos.
“Importante não é o dia da prova, mas o dia do Flamengo”, gritou um torcedor. O barulho só diminuiu por volta de 15 horas, mas os ruídos dos torcedores foram substituídos pelos helicópteros de redes de TV.
“Foi muito difícil a concentração, principalmente para escrever a redação. Toda hora eu levava um susto com os foguetes”, queixou-se a torcedora do Fluminense Adrízia Muniz, de 17, que ainda não se decidiu entre Engenharia ou Pedagogia.
“Quem fez a prova na Uerj ficou em desvantagem porque o barulho atrapalhou muito”, concordou a flamenguista Ana Cláudia Lira, de 21 anos. Ela também fez a prova uniformizada e saiu correndo para o estádio com ingresso no bolso, mas disse ter usado o tempo de que precisava.
A movimentação no estádio também deu um nó no trânsito da região, mas a maioria saiu mais cedo de casa, e poucos candidatos chegaram atrasados. Benício Júnior, de 17 anos, chegou correndo menos de um minuto após o fechamento do portão. Perdeu a hora ao deixar a namorada na porta do estádio.
Cláudia Pereira de Araújo, de 42 anos, ficou num ônibus preso num congestionamento e encarou o portão fechado aos prantos. Perdeu a chance de voltar a estudar, cursando Pedagogia.
“Deviam abrir uma exceção aqui por causa desse jogo. Depois daquele vazamento, eles tinham a obrigação de pensar em nós. Poderiam ter mudado a prova para o horário da manhã”, reclamou.
André Fagundes, de 19 anos, deixou a Uerj confiante na conquista de uma vaga na Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele gostou do tema da redação. “Falava sobre a relação do brasileiro com a ética, a corrupção, um tema bem atual. Também gostei da primeira questão de português, sobre a influência africana.”
André concorda que os candidatos da Uerj foram prejudicados, mas contou que adotou como estratégia priorizar a prova de matemática e usar o período mais calmo para redigir. Entre os entrevistados, o único que não reclamou do barulho foi Cherubin. “Em mim deu mais emoção.”