USP e Enem: a mudança chegou

USP e Enem: a mudança chegou

Paulo Saldaña

26 Maio 2015 | 14h14

* POR GILBERTO ALVAREZ

No ano em que avançou 30 posições no ranking das 100 universidades com melhor reputação acadêmica no mundo, a USP anuncia outra boa notícia à sociedade e aos alunos que prestarão vestibular este ano. A melhor universidade do país decidiu usar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como complemento à Fuvest. A proposta inicial da reitoria é usar o exame para a disputa de 15% das vagas este ano. Esse percentual será reservado por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma digital do MEC que reúne vagas no ensino superior público.

Das 42 unidades da USP, 28 já disseram sim ao Enem. O uso do exame é uma das principais apostas da reitoria para elevar os índices de inclusão. Entre as unidades favoráveis estão Medicina, Direito, Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Há informações de que nos campus do interior, a maioria também aprovou a ideia. Já outras, como a Escola de Comunicação e Artes (ECA) e a Engenharia de São Carlos, resolveram não aderir. Também há os que não se manifestaram, como o caso da Escola Politécnica e o da USP Leste.

ENEM NA UFMG

A decisão sobre mudanças no ingresso de alunos na vestibular da USP, com adesão em parte ao Enem, acontece em um momento especial, quando a universidade passa por problemas financeiros e vive uma crise de credibilidade, deixando, pela primeira vez, de ser preferência entre os vestibulandos brasileiros.

A USP nasceu com o propósito de formar os melhores profissionais e cientistas do mercado e ao longo de sua história tem cumprido essa missão com maestria. Mas as circunstâncias históricas mudaram e não é mais possível manter velhas fórmulas e métodos como se nada estivesse acontecendo.

A chegada do Enem ampliou as possibilidades de acesso ao ensino superior. Nos últimos quatro anos, o número de vagas presenciais saltou de 169,5 mil para 283,4 mil e, em 2014, como já se esperava, o número de inscritos bateu o recorde e encerrou o sistema com mais de nove milhões e meio de estudantes buscando a oportunidade de conquistar uma vaga nas principais universidades do país. Entre universidades federais e estaduais, somam-se 124 instituições.

O Enem pode não ser ainda o mecanismo ideal de avaliação, mas o fato é que ele é hoje a mais competente ferramenta de democratização do acesso ao ensino superior.

E não há dúvida de que é preciso pensar em um modelo que possa tirar a USP de seu isolamento e ampliar sua capacidade de descobrir e acolher talentos. A adesão ao Enem é o primeiro passo nesse sentido e deve ser aplaudido, mas não é suficiente e não deve se encerrar por aí.

No exterior, por exemplo, há anos o processo seletivo não se restringe a uma prova; são considerados o desempenho escolar, a entrevista pessoal, além, é claro, dos exames de capacitação. Se adotasse essas ferramentas, a instituição teria condições de identificar talentos que não prestam a Fuvest, por exemplo, simplesmente por ser um exame caro que habilita apenas a uma universidade.

Reconheço que a medida adotada agora é um passo importante. A decisão da melhor universidade do país fortalece o Enem. Além disso, permite aos estudantes brasileiros uma grande oportunidade. Pena que faltou mais ousadia à USP. Abonar o tradicional vestibular da Fuvest e aderir totalmente ao Enem seria a transformação ideal esperada pela sociedade brasileira.

* Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli e presidente da Fundação PoliSaber de São Paulo.

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