Enem: machistas não passarão

Enem: machistas não passarão

Exame conseguiu abordar problema da sociedade, próximo dos jovens e, ao mesmo tempo, sinalizar para a sociedade que precisamos falar sobre isso nas escolas

Paulo Saldaña

25 Outubro 2015 | 18h00

O Enem tem tradição de propor temas relacionados aos Direitos Humanos na redação, mas poucas vezes o Ministério da Educação (MEC), que organiza o exame, teve uma escolha tão pertinente e feliz como a deste ano.

Com a proposta “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, o exame conseguiu abordar um problema relevante da sociedade, com grande presença na mídia, que é próximo dos jovens – o que facilita a reflexão – e, ao mesmo tempo, sinalizar para a sociedade que, sim, precisamos falar sobre isso nas escolas.

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Neste ano, bancadas conservadoras, com apoio de lideranças religiosas, conseguiram influenciar Câmaras municipais e Assembleias Legislativas de todo Brasil a retiraram dos Planos Estaduais e Municipais de Educação metas que indicavam a importância de trabalhar na sala de aula os temas de gênero e sexualidade. Os termos de igualdade de gênero já haviam sido retirado do Plano Nacional de Educação (PNE), no ano passado. Como o Enem se tornou a principal referência para o ensino médio, sendo porta de entrada para quase todas universidades federais (e critério de bolsas do Prouni e Fies), a escolha do MEC tem um peso importante nesse debate.

O tema da redação do Enem não se constrói sobre ideologias, mas traduz uma realidade objetivo. Um drama que atinge todos.

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Casos de bullying e cyberbullying em escolas envolvendo meninas e homossexuais, além de recentes episódios de estupros em universidades, são reflexos de que o Brasil ainda precisa superar uma educação sexista, homofóbica e descriminatória. E os recorrentes casos de violência física contra a mulher, a desigualdade salarial entre homens e mulheres, a representação feminina na publicidade, por exemplo, mostram que abordar esse tema na redação de um vestibular ainda é muito pouco para o tamanho do problema.

Do ponto de vista pedagógico, a proposta é um ótimo convite para a reflexão. Um prato cheio para a argumentação, com um bocado de fatos recentes que poderiam ajudar no texto.

O Enem ainda sinaliza, indiretamente, que uma ideologia machista tem de ficar fora das universidades. Para não zerar na redação, o participante não poderia desrespeitar os Direitos Humanos – como consta no edital do Enem.

Machistas não passarão – muitas vezes, pela falta de oportunidade de refletir sobre o assunto em casa e na escola.

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