Uma reflexão sobre jumentos
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Uma reflexão sobre jumentos

Paula Braga

25 de julho de 2022 | 11h32

“Nossa, dona, a senhora poderia estar rica hoje”, disse o bugueiro para minha amiga.

Ele estava se referindo ao fato de que quando minha amiga tinha visitado a Praia do Preá há 15 anos, havia apenas uma pousadinho no meio de um monte de areia e vento.  E agora, uma pulsante vila tinha se formado, inclusive com um open mall a ser construído.

“Pois é, perdi minha chance…”, suspirou ela.

Prosseguimos a conversa sobre a valorização dos terrenos na região de Jericoacora.  Quanto custa hoje um terreno aqui? Nossa, tudo isso?

“Sim, dona. Para a senhora ter noção, o Luciano Huck comprou esse terreno por 1 milhão. Dez anos antes ele valia 30 mil”.

Fiquei levemente me julgando por minha falta de espírito empreendedor.  Por que eu não tinha capacidade de encontrar esses “achados”?  Mais do que isso: mesmo se eu achasse um terreno numa praia remota linda no meio do lado, eu teria a coragem de investir meu suado dinheirinho em algo que mal tem um posto médico próximo? Acho que não…e assim, continuo pirando na realização de que viver de renda não está nas minhas cartas. Ainda bem que amo o faço, se não seria complicado…

Foi quando Matheus, o bugueiro, interrompeu minha viagem interna com um causo de sua família.

“Pior foi o que ocorreu com meu tio.  Sabe aquele terreno do estacionamento bem no centro de Jeri? Então, era dele.  Mas meu tio estava passando perrengue e não tinha o que fazer com o tal terreno.  Então sabe o que ele fez? Trocou por um jumento.”

Oi??? – falei incrédula.

“Sim, ele trocou por um jumento. Desses aí que agora são praticamente uma praga na região.  O terreno não servia para nada. O jumento ele podia colocar para trabalhar. Ajudava ele com o serviço do dia-a-dia”.

“E assim, você perdeu sua chance de ser herdeiro”, brinquei com ele.

“Eu nunca ia ser herdeiro, dona. Mas meus primos seriam kkk”

Fiquei pensando sobre essa história por um bom tempo.

Trocar um terreno (hoje multimilionário) por um jumento  – que, inclusive, morreu poucos anos depois –  parece uma insanidade.  Mas fiquei pensando que, no lugar do tio, talvez tenha sido a decisão mais acertada com o contexto e com as informações/necessidades que ele tinha.

Poderia ter havido um caminho do meio? Talvez. Ele poderia ter arrendado o terreno, plantado cajá, alugado lotes ou feito qualquer coisa que gerasse renda em vez de se desfazer do bem? Talvez sim.  Ou talvez não. Quando a fome (ou uma emergência) bate, o que é certo?

O ponto que fiquei pensando é como é fácil julgar as decisões dos outros, quando você mesmo não está lá no jogo. Tomar decisões, assumir riscos, lidar com críticas, sacrificar os resultados de hoje por um possível ganho futuro são todas habilidades requeridas para um excelente líder.

Por isso, após meu passeio pelas belas dunas do Ceará, passei a apreciar ainda mais a coragem dos líderes, empreendedores e gente como a gente que todos os dias, estão aí, se esforçando para tomar as decisões certas com informações incompletas num contexto muito louco.

“O que importa não é o homem que critica, nem aquele que aponta como o forte tropeça ou quando o empreendedor poderia ter feito algo de maneira melhor.

O crédito é merecido ao homem que está na arena, com a face coberta de poeira, suor e sangue; que luta bravamente, erra, e continua tentando…

…Que na melhor das hipóteses vai conhecer a vitória e na, pior, mesmo que falhe, falhará enquanto ousando corajosamente”

(texto de Theodore Roosevelt livremente adaptado/editado por mim)

Então, amigo, é sobre isso. Se você alguma vez trocou um terreno por um jumento, saiba que não está sozinho. Tamo junto.  Mas, na próxima vez que a vida te apresentar uma encruzilhada dessas, quem sabe valha a pena trocar uma ideia com outras pessoas? Afinal, a melhor maneira para ampliar nosso campo de visão é acessando a inteligência coletiva.

E assim, me despeço de minhas férias.

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