Stanford em tempos de COVID-19
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Stanford em tempos de COVID-19

Paula Braga

21 de maio de 2020 | 10h00

Na última semana, publiquei uma coletânea de relatos de estudantes de alguns dos principais MBAs internacionais sobre os impactos do COVID-19 em suas rotinas e planos.

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Resolvi fazer esse post separado especificamente sobre Stanford devido às particularidades relatadas por nosso contribuinte, Erick. Em seu relato, Erick conta como está a vida em campus, como os estudantes internacionais conseguiram uma mudança no visto OPT, e sua visão sobre perspectivas do mercado de trabalho.

Se estudar em Stanford é um sonho seu, vale muito a leitura para acompanhar o que está acontecendo. Aproveitem!
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Stanford GSB
Erick Marquardt de Araujo
Semestre – MSx20

Paula Braga (PB): O que aconteceu com seu curso/escola desde que iniciou a pandemia?

Erick Marquardt de Araujo (EA): As restrições foram aplicadas gradualmente. No início dos casos na Califórnia (meados de Fevereiro), a recomendação do Condado de Santa  Clara (onde a maior parte do campus se encontra) foi de restringir aglomerações e eventos públicos, levando a universidade e associações de estudantes a cancelar todos eventos sociais, palestras, congressos, etc. No início de março, o condado implementou a política de “shelter in place”, que proíbe sair de casa para qualquer atividade não essencial, o que levou Stanford a transferir todas as aulas para o modo virtual (via Zoom). Ao mesmo tempo, alunos de undergrad foram aconselhados a deixar o campus, dada a maior densidade dessas residências estudantis, incompatíveis com o isolamento. Os serviços do campus também foram encerrados gradativamente e atualmente todos os restaurantes, cafeterias, bibliotecas e ginásios estão fechados. A única exceção são os refeitórios, que ainda abrem apenas para retirada de comida – nós comemos do lado de fora (felizmente o tempo está ótimo 🙂 ).

No lado acadêmico, Stanford GSB reduziu o número de créditos necessários para manter o visto de estudante em tempo integral (de 13 para 8, equivalente a duas ou três disciplinas) e extensão do programa para o verão, para conclusão do crédito restantes. A GSB também alterou a denominação do programa para STEM, permitindo os formandos obterem o visto de trabalho temporário (OPT) de até três anos. Nenhuma dessas mudanças veio sem extensas e energéticas negociações com a administração liderada, em grande parte, pelos alunos internacionais. Afinal, são justamente os que se encontram em situação de maior incerteza diante da crise atual. Uma das vozes mais ativas nesse fronte foi de uma amiga do mesmo programa, Anupriya Dwivedi, que conseguiu publicar o tema em jornais como WSJ  e NYT. Inegavelmente, as mudanças foram muito positivas, dando mais tempo para os formandos se organizarem e procurarem trabalho, e o novo visto reduz a fricção nesta busca.

PB: Como a situação está impactando sua experiência atual e planos futuros?​

EA: É impossível dizer que a experiência está sendo sequer parecida com o que esperávamos ou mesmo desejávamos para nosso último trimestre aqui. Ainda mais sendo primavera, um trimestre tipicamente mais leve e repleto de atividades sociais que simplesmente não existem durante tempos de quarentena. O próprio “Admit Weekend” que costuma ser um momento de troca, onde a turma se formando interage com o próximo grupo, este ano foi substituído por uma versão online, com um vídeo gravado por nós. As aulas também infelizmente deixam a desejar em modo online. Os professores fizeram o possível para adaptar seu conteúdo para o novo formato, mas simplesmente não é bom o suficiente. A experiência não é fluída, natural e espontânea como em sala de aula. Como um dos meus colegas bem resumiu, é por isso que pessoas pagam $200 para ver um show que pode ser assistido de graça online.  Os trabalhos em grupo também são menos enriquecedores e engajantes, e  a troca de conhecimento/experiências com outros alunos é muito reduzida. O lugar de maior polinização-cruzada (termo adorado aqui no Silicon Valley) é o Arbuckle – restaurante da GSB, onde alunos de várias escolas, empresários, investidores, e outros agentes do meio se encontravam frequentemente e que está fechado desde março.

O futuro para alunos internacionais infelizmente não é dos mais promissores. A princípio, eu estava mirando em vagas em três geografias: EUA, Singapura e Canadá. Entretanto, diante da pandemia e restrições a viagens, vagas em outros países para estrangeiros são reduzidas. Em solo americano, a empregabilidade para estudantes internacionais, principalmente em áreas não-técnicas, já não era trivial e agora é ainda mais desafiadora diante do nível de desemprego. Do lado da moeda, nós brasileiros ainda estamos em uma situação mais dramática que outros países, tendo vista que nossa moeda perdeu 50% de valor desde que vim para cá,  e eu, assim como outros colegas compatriotas, contrai dívida em dólar. O lado positivo, e acredite há um lado positivo, é que a crise obviamente também criou oportunidades. Mudança cria vácuo, e uma infinidade de serviços, produtos e modelos de negócios são necessários para preencher essa lacunas. Além disso, as pessoas estão com agendas mais livres para conversas informais (já que a questão logística não mais um problema), start-ups sofrem menos com a escassez de talentos e nascem enxutas, a liquidez injetada na economia americana é sem precedentes e deve ser refletida em uma retomada mais rápida que em muitos outros países. Então eu sinceramente vejo o prognóstico como de recuperação no horizonte de alguns meses.

PB: Você tem algo que gostaria de falar para pessoas que estejam cogitando fazer um MBA/mestrado?

EA: O que mais escutamos aqui neste momento de crise é “play your strengths”, o que significa que pode não ser o melhor momento para pivotar. Evidentemente, ninguém viria para um programa que custa agora mais de R$1m se não estivesse buscando uma mudança. Penso que é um bom momento de avaliar a dimensão e tempo dessa mudança, ou seja, é provável que passos mais distantes da sua carreira atual sejam mais raros e levem mais tempo que antes da crise. Ao mesmo tempo, estar na escola no momento em que o mundo está mudando é impar. Ainda mais em um lugar como Stanford, onde alguns dos maiores nomes em diferentes áreas estão se fazendo as mesmas perguntas que todos nós e profundamente engajados em encontrar as respostas.

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