Qual é o bullshit job para chamar de seu?
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Qual é o bullshit job para chamar de seu?

Paula Braga

24 de maio de 2021 | 16h35

Nesta semana, convidei a querida Fernanda Henriques (consultora, palestrante, escritora) para falar de um assunto que tenho certeza que muitos se identificarão: bullshit jobs.

Se você nunca sentiu que seu trabalho era sentido, parabéns, você faz parte de uma feliz exceção.  Mas se você já sentiu isso (ou ainda sente hoje), não tema, você não está só.  E, mais do que isso: tem muita coisa que você pode fazer para melhorar essa situação.  O primeiro passo: reconhecer se você considera que está trabalhando em um bullshit job.

Se interessou? A Fernanda mostrará como.


 

Você já teve a impressão de que o seu trabalho era simplesmente uma perda de tempo e de recursos? Algo sem sentido? Desnecessário? Sem nenhum valor para o mundo ou para você?

 

Um certo dia, eu descobri que isso acontecia com mais gente do que eu pensava.

 

Em uma ensolarada (e rara) tarde de Domingo na quase sempre nebulosa Londres, eu estava caminhando na região do Convent Garden, tentando esquecer o quão tenebrosa estava a minha vida. Eu sei que “achar que a vida está péssima caminhando em Londres” parece um daqueles problemas de primeiro mundo – e realmente é.

 

Mas, naquele momento, eu estava pensando que no dia seguinte eu teria que voltar ao meu trabalho, que consistia em fazer apresentações, preencher templates, puxar vários dados, imputá-los em um excel para que fossem vistos por… ninguém.

 

Foi quando eu entrei em uma livraria – a maior rede de livrarias de Londres, diga-se de passagem – e vi que, em uma parede da seção business, havia uma prateleira de “destaques”.

 

Eu achei que ali estariam mais daqueles livros sobre como se tornar um líder fabuloso, ou como vender mais coisa em um planeta que precisa de menos coisa, mas eu estava errada.

 

Aquela era uma prateleira repleta de livros sobre estar pê da vida com o trabalho.

 

Eu comprei 3 títulos naquela tarde e um deles se chamava Bullshit Jobs do grande – e saudoso – antropólogo americano David Graeber.

 

Mas o que é um bullshit job? E será que você tem um?

 

O leitor vai me desculpar pelo uso da palavra em inglês, mas eu não achei nenhuma outra que traduzisse tão bem o que bullshit significa. Eu pensei em usar “trabalho de mer*”, mas segundo o livro há uma clara distinção entre um “bullshit” e um “shit” job.

 

Comecemos pelo bullshit, que é o nosso tema de hoje.

 

Segundo o Graeber, “bullshit jobs” são aqueles trabalhos tão sem sentido, desnecessários ou danosos para o mundo, que nem mesmo o funcionário que desempenha essa função consegue justificar a existência dele, embora se sinta obrigado a fingir que esse não é o caso.

 

Quando falamos de empregos sem sentido ou desnecessários estamos, em geral, falando dos que pagam bem e tendem a oferecer ótimas condições de trabalho.

 

Sim, porque ao contrário de faxineiros, motoristas de ônibus, enfermeiros e professores, cujas profissões são tão importantes a ponto da ausência deles colocar cidades inteiras em situações devastadoras, outros empregos em que o sujeito fica o dia na frente do computador podem não ser assim tão vitais.

 

Acredito que o leitor irá se identificar visto que, no meio de uma pandemia, o que teria sido de nós sem as enfermeiras que salvaram vidas, sem a professora do seu filho que foi uma verdadeira heroína ou sem o gari que continuou limpando a rua?

 

Porém, Graeber aponta como curiosidade e revolta que, em geral, os trabalhos com grande significados e importância, como professores e profissionais de limpeza, são os que ganham menos.

 

E é nesse ponto que entra a diferença entre “shit” e “bullshit”. Graeber diz que aqueles que trabalham em shit jobs tendem a ser alvos de injustiças, afinal eles não apenas trabalham duro, mas também são tidos como inferiores e são mal pagos.

 

Agora, já que falamos que shit e bullshit não são a mesma coisa, vale voltar para a definição de bullshit jobs e dizer algo importante: não há (ainda) uma lista de trabalhos que sejam ou não bullshit, porque o Graeber fala que a definição de um bullshit job é dada pela própria pessoa que desempenha aquele papel. Ou seja, parte daquele indivíduo dizer se seu trabalho é bullshit ou não.

 

E, aparentemente, há muita gente que entra nessa lista

 

Segundo uma pesquisa feita pelo Instituto YouGov e mencionada no livro, 37% dos Britânicos acreditam que seus trabalhos são totalmente sem sentido. Outra pesquisa feita na Holanda revelou que 40% das pessoas acreditam que seus empregos não precisariam existir.

 

O que pode influenciar esses números é que segundo a pesquisa da Adobe “The State of Work Report” de 2019, os americanos gastam a maior parte de seu tempo respondendo a emails e participando de reuniões sem sentido. Só 40% do tempo é dedicado às suas funções reais.

 

O tema é tão complexo que Graeber ainda disse que há 5 categorias diferentes de bullshit. Nessa hora, leitor, pegue a sua caneta e o seu caderno para anotar em qual categoria você possivelmente se enquadra – e pode ser mais de uma.

 

A primeira categoria é o que Graeber chamou de “flunkies”, pessoas cujo trabalho é fazer um indivíduo ou empresas parecerem mais importantes do que são. Sabe aquele diretor que tem 7 gerentes abaixo dele, quando na verdade precisaria de apenas 3, apenas para dizer que ele tem 7 gerentes abaixo dele? Os pobres 4 gerentes a mais podem se enquadrar como flunkies.

 

A segunda categoria se chama “goons”, espécie de “gangsters”, pessoas que são pagas para serem manipuladoras ou vender o que os outros não precisam. Um bom exemplo é a enorme quantidade de times de telemarketing que ligam para a sua casa diariamente para te oferecer um novo plano de celular. O operador sabe que você não precisa. Sabe que é bullhshit. Mas ele tem que ligar mesmo assim. Eu consigo imaginar o desgosto que ele deve sentir ao ter que fazer isso.

 

Já a terceira categoria é chamada de “duct tapers”, ou seja, fita isolante, que são pessoas contratadas para resolver falhas no sistema. Incrivelmente, se vê muito disso em grandes empresas. Sabe aquelas pessoas que são necessárias, mas não deveriam ser, caso a tecnologia funcionasse? Se você pensou no “menino de TI” que trabalha no seu escritório resolvendo bucha todo dia, você acertou.

 

A quarta categoria é a minha favorita: box tickers ou o famoso “para inglês ver”. São aquelas pessoas que são contratadas para que a empresa possa alegar que está fazendo algo quando na verdade não está. Por exemplo, aquele “Gerente de Diversidade” no RH que a empresa sente orgulho em dizer que tem, mas na “hora H” ele não tem nenhum poder de decisão e nenhuma diversidade é aplicada na empresa.

 

A quinta e última categoria na minha visão é a mais curiosa: os “taskmasters” ou os encarregados, que são pessoas contratadas para supervisionar outras pessoas… que não precisariam ser supervisionadas. No melhor dos casos, esses encarregados precisam passar grande parte do seu tempo inventando trabalho para si. Será que seu chefe é um desses infortunados?

 

Depois de ler sobre essas cinco categorias, você talvez esteja pensando: como pode um mundo capitalista que visa o lucro ter tantas posições de tão pouco impacto e produtividade? Pois é, eu também não sei.

 

Bom, descobri que tenho um bullshit job, e agora?

 

Agora, o que eu posso te dizer é que há grandes chances da sua saúde mental estar abalada. Isso porque essa sensação de falta de significado e propósito afeta diretamente a alma humana. 33% das pessoas entrevistadas pelo YouGov também apontaram isso.

 

Ser humano é querer ter um impacto no mundo. E isso foi mostrado pelo psicólogo alemão, Karl Groos, quando em 1901 ele viu que os bebês expressavam grande felicidade ao descobrirem que podiam causar efeitos no mundo, como movimentar coisas.  Observe a alegria de um bebê ao descobrir que ele, sozinho, foi capaz de mover um brinquedo!

 

Agora, quando adultos são vistos em posições de trabalho sem sentido ou sem impacto, é exatamente o oposto dessa alegria que acontece.

 

Sobre a solução: Eu gostaria de te dizer que é “Sai, procura outro emprego! Vá ser feliz”, mas não acho que seja tão simples assim. Primeiro, vivemos em um país que tem mais de 14 milhões de desempregados, então em muitos casos a solução de jogar tudo para o ar não é a mais viável.

 

Depois, eu acredito que muito precisa partir de um autoconhecimento. É preciso entender o que também te levou a esse trabalho, qual foi a sua parte da contribuição e quais deveriam ser os seus próximos passos, baseados na sua história e em seus objetivos.

 

E por último, eu queria pedir uma reflexão de empresas sobre o que elas poderiam fazer. Afinal, são elas as que mais podem identificar onde estão os seus bullshit jobs. Não seria bem bacana se as companhias pegassem essas pessoas tão bem qualificadas e intencionadas e as colocasse para pensar em economias verdes? Economias circulares? Como seus produtos poderiam ter uma pegada de carbono cada vez menor? Como parar de usar plástico? Seria ótimo, não seria?

 

Ou será que é utopia demais e voltemos para a planilha do Excel?


 

FERNANDA HENRIQUES tem como missão ajudar pessoas e empresas a serem agentes de transformação social no mundo, a começar por transformações dentro delas. Fã de carteirinha de sessões de terapia, ela acredita que a inovação mais importante é a do autoconhecimento e aquela que está mais próxima da gente, nas pequenas ações do dia a dia. Marketeira, formada pela segunda turma da USP, trabalhou por 10 anos em multinacionais em São Paulo, Panamá e Londres. Viajou o mundo sozinha por um ano em busca de uma inovação ligada à business: visitou 12 países, fez curso em Singapura e em Harvard, participou de workshops em Pequim, foi ao South by Southwest e a um retiro de meditação com monjas do Budismo Tibetano. Entendeu que muitas vezes inovar está na forma como a gente, na hora da raiva, inspira e expira 3 vezes prestando atenção na expiração.

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