Meu nome é Paula e eu falo como uma adolescente marrenta
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Meu nome é Paula e eu falo como uma adolescente marrenta

Paula Braga

15 de julho de 2020 | 13h54

HOR-RO-RI-ZA-DA.

 

Simplesmente horrorizada.

 

Nada menos do que esse adjetivo traduz a sensação que estou tendo ao escutar as entrevistas que fiz para meu mestrado.

Para o trabalho final  de meu mestrado em Gestão de Pessoas na FGV, resolvi acompanhar semanalmente a rotina de 7 executivas/mães durante a pandemia.  Meu objetivo era identificar que mudanças ocorreriam em suas rotinas devido a esse período tão único.

Quando desenhei a pesquisa, acreditei que 3 meses seriam suficientes para passarmos pela quarentena, retomarmos nossas vidas “normais”, e ver que mudanças de fato aconteceram na vida/trabalho pós esse período.  Não preciso dizer que errei nos meus cálculos.

Porém, por uma questão prática (preciso terminar as entrevistas para fazer a análise a tempo da conclusão do curso), encerrei as entrevistas na data prevista: 30 de junho.  Foram 86 entrevistas no total.

Após falar com minha orientadora, entendi que o próximo passo seria escutar TODAS as entrevistas de novo, para revisar as transcrições.  Pânico.  Se dediquei 7h/semana fazendo entrevistas e usasse essas mesmas 7h para escutá-las, eu levaria 3 meses só escutando áudios, sem começar a analisar nada!  Desespero 1.

Dediquei alguns dias para sofrer a respeito disso e finalmente resolvi colocar a mão na massa ontem, iniciando de fato a escutar meu material.  Daí que veio o Desespero 2, o tal que me deixou horrorizada.

 

EU NÃO SEI FALAR!!!!!

 

Nunca havia percebido a quantidade de vícios de linguagem que eu possuo.  Tendo certa facilidade para escrever, sempre imaginei que a maneira como eu expunha minhas ideias verbalmente seria um reflexo de como as coloco no papel.  Não poderia estar mais distante da realidade.

A frequência que eu uso de expressões como “tipo” “assim” “cara” é altíssima.  Praticamente, pontuam todas minhas frases.  Me senti despreparada, exposta e francamente envergonhada.  Foi como se eu de repente percebesse que a maneira que eu estou me expondo para o mundo é compatível com a comunicação de um adolescente marrento.

Minha vontade imediata é parar tudo que estou fazendo, e entrar em um curso de oratória ou em um Toastmasters agora mesmo.  Porém, sei que para concluir os compromissos que já tenho nesse ano, não posso adicionar outra meta/curso nesse momento.  Resolvi, então, registrar meu extremo desconforto com minha performance oral nesse texto para criar um comprometimento público (e um lembrete para mim mesma) de quão relevante eu considero trabalhar nesse skill.  E quando 2021 chegar, ninguém me segura.

 

Lições que tiro dessa experiência:

1. Muitas vezes uma atividade que pode parecer mundana (como revisar transcrições de entrevistas, lavar uma louça, ir ao supermercado) podem gerar insights relevantes para nosso desenvolvimento e nossas prioridades.

 

2. Como eu acho que me comunico é muito diferente de como de fato me comunico. E isso vale para tudo: no trabalho, podemos achar que fomos extremamente claros em nossas instruções.  Só que a pessoa entregou uma outra coisa, completamente diferente.  Foi ele que entendeu errado ou foi você que se expressou mal?  Não importa.  O ponto é que se você quer se fazer compreendido, precisa garantir que sua linguagem esteja adequada ao entendimento da outra pessoa.  E essa experiência de me escutar falando me colocou nos sapatos de meus ouvintes.

 

3. Frequentemente nós somos nossa pior crítica. Apesar de ter ficado muito chocada escutando minhas gravações, estou certa que outras pessoas não teriam uma reação tão negativa à maneira como me apresento.  Pelo menos, nunca recebi esse feedback.  Então consigo reconhecer que esse ponto de desenvolvimento é mais relevante para mim do que um impeditivo real a meus objetivos.

 

4. Tudo tem jeito. Não faz boas apresentações em público? Olhando rapidamente no google, tem mais de 15 milhões de páginas que aparecem quando busco “curso de oratória”.  Inclusive, aceito sugestões sobre qual escolher ,)

 

5. Dedique um tempo à comiseração e depois faça algo a respeito disso. Esse processo do mestrado tem atiçado meu “botão” de desespero em diversas situações.  E tem horas que dar uma boa surtada faz bem.  O ponto é delimitar um tempo para “sofrencia”, e depois decidir se quer fazer algo a respeito ou se quer ficar ok com a situação atual.

 

6. Caso decida fazer algo a respeito de seu desconforto, torne o comprometimento público e coloque na agenda. Dá vergonha falar para o mundo que vai fazer regime e depois ser pego comendo um delicioso Sundae.  Então criar essas estruturas de apoio (pagar um personal trainer/um curso, contar para todo mundo que vai fazer x) ajudam a gente seguir aquilo que desejamos (mas que muitas vezes acabamos deixando de lado).

 

Espero que meu desabafo de alguma forma contribua para 1) normalizar as suas próprias inseguranças e até  2) ajudar a você fazer algo a respeito delas.

E se você também gostaria de desenvolver sua Comunicação Oral, quem sabe a gente não se encontra em um curso em 2021?

 

 

 

 

 

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