Meu ano do “não”
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Meu ano do “não”

Paula Braga

22 de setembro de 2020 | 11h33

Ontem foi um dia um tanto quanto inusitado de minha vida.  Com certo peso no coração, resolvi negar o inesperado – porém divertido – convite para participar de um casting para modelos comerciais.  Modelo comercial, para quem não é do meio (assim como eu), são aquelas pessoas de aparência “gente a como gente” que fazem comercial de margarina, pneus, etc.  Nunca sonhei em ter o título de modelo do catálogo do Shopping de Pampulha no meu currículo mas, aquariana que sou, não resisto a uma novidade.  Afinal, você só vive uma vez, certo? Porém, ontem, resisti.

 

O meu não de ontem, foi só a cereja de uma sequencia de “nãos” (esses sim, mais complicados) que venho dando nos últimos meses.  “Não, infelizmente, não vou poder aceitar esse curso maravilhoso que vocês querem me pagar”.  “Não, não consigo pegar mais esse cliente”.  “Não, não vou poder sair com vocês nesse fim de semana”.

 

Só para ficar claro: eu o-dei-o negar oportunidades.  Se tem uma pessoa que sofre de FOMO (o famoso “fear of missing out”), essa sou eu.  Isso dificulta eu dizer não para as coisas.

 

Um segundo fator que me dificulta dizer nãos é que, em essência, sou uma people pleaser (não existe uma expressão tão perfeitinha quanto essa em português mas, o que isso quer dizer, é que, em geral, gosto de agradar às pessoas).  E dizer não, geralmente, desagrada.

 

Adicionalmente, com o advento da pandemia, a demanda pelo meu trabalho acabou aumentando exponencialmente.

 

Então, juntando minha natureza curiosa, com minha vontade de agradar aos outros com um aumento de demanda pelo meu trabalho, de repente a minha agenda estava explodindo.  E eu comecei a sofrer com isso.  Isso sem falar na redução de estrutura de apoio e no aumento de trabalho doméstico causado pela quarentena que, obviamente, geraram uma pressão adicional na minha disponibilidade de tempo. Com tudo isso, em 2020,  tive que aprender a colocar limites na marra.

 

Dizer não para coisas que não gostamos é fácil.  Difícil é dizer não para oportunidades atraentes. E isso é o que venho tendo que exercitar nos últimos tempos. 

 

Apesar de ter falado até o momento sobre mim, sei que não estou sozinha nessa sobrecarga de compromissos.  Toda semana tenho clientes compartilhando suas telas do zoom para me mostrar o quão lotadas estão suas agendas.  E me dizendo o quão difícil é dizer não, especialmente quando estamos falando de reuniões marcadas por seus chefes.  Por isso considero que falar de estratégias sobre como dizer não seja algo benéfico para todos.

 

Sendo assim, sem mais delongas, seguem algumas dicas para ajudar no processo de dizer não:

 

  • Ganhe tempo para dizer não

Às vezes, quando uma pessoa te pede algo (uma reunião, por exemplo), o impulso da pessoa que goxxxta de agradar é dizer siiiiim!  Espere! Fuja! Brincadeiras à parte, diga que você está aguardando a confirmação de alguns compromissos pendentes e que responderá em seguida.  Permita-se refletir sobre se essa reunião está alinhada com suas prioridades ou se você só a estaria aceitando para agradar à pessoa ou por inércia.  Depois, responda por whatsapp/email educadamente.  Para pessoas que tem o impulso de dizer sim, ganhar esse tempo de “checar a agenda” ajuda no processo de dizer não, caso esse seja o desejo.

 

  • Não se justifique

“Olha eu adoraria participar dessa reunião sobre a definição da festa de Natal, mas estou super atarefada essa semana, então não vai dar”.  “Sem problemas, Paula, marcamos na semana que vem”.  Ao dar explicações de por que você não pode, você acaba dando a entender que existe um espaço para negociação, vulgo, um “agora não, depois sim”.  Se essa é sua intenção, ótimo. Se não, melhor fazer a negação de uma maneira mais definitiva.  “Obrigada, mas daqui até o final do ano não estou podendo aceitar mais nenhum compromisso adicional” ou “Obrigada, mas a partir de agora, quem participará das reuniões de calendário promocional será o fulano”.   Fim de conversa.

 

  • Mostre como esse “não” pontual é na verdade bom para a pessoa

No caso de dizer não para reunião com um gestor, mostre como na verdade a atividade com o qual você já se comprometeu está mais alinhada com o objetivo maior dele.  É o que sempre digo para meus clientes: sempre que você quiser convencer alguém de algo, mostre porque isso será bom para ele.  Por que você não participar da reunião x será positivo para seu gestor? Você vai conseguir se dedicar para fazer aquela apresentação para o board ficar perfeita? Seja claro e confiante que ele vai entender.

 

  • Faça trocas inteligentes

Que tal dar uma de Bela Gil e trocar esse sanduíche de bacon por uma deliciosa melancia? Ou, trazendo para nosso mundo, trocar esse call de 3h por um email bem escrito e, caso haja dúvidas, você entra em contato com a pessoa?

 

Há uma série de outras estratégias que podem ser usadas, então o importante é testar algumas e ver o que funciona para você.  Eu particularmente ando tentando praticar tomar uma decisão que elimina a necessidade de tomar várias decisões. Por exemplo, não faço mais nenhum curso nesse ano.  Dessa forma, sempre quando aparece uma nova oportunidade, fica mais fácil eu negar pois já tomei essa decisão macro.  Gostoso não é.  Mas 2020 me fez perceber que colocar limites é algo necessário.

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: