MBA em tempos de pandemia
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MBA em tempos de pandemia

Paula Braga

15 de maio de 2020 | 16h50

Que a vida de cada um nós mudou, todo mundo sabe. O escritório virou home office, o restaurante/bar/padaria virou comida caseira ou delivery. Só o lazer que continua sendo Netflix 🙂

Mas e os MBAs internacionais? Como eles estão sendo impactados? Ainda vale a pena perseguir esse sonho?

Para ajudar a responder essa pergunta, pedi para estudantes de alguns dos principais MBAs do mundo contarem um pouco sobre como sua rotina foi alterada e como eles acreditam que a situação atual impacta ou não planos futuros.

Como vocês poderão ver, em linhas gerais, as aulas online estão tendo boa qualidade, mas a saudades da interação presencial é generalizada. Em suas entrevistas, os alunos discorrem sobre variados tópicos desde adaptações feitas a seu dia-a-dia, networking, visto, ofertas de trabalho, etc. Se eles acham que ainda vale a pena fazer um MBA? A resposta unânime é sim. Se eles acham que vale fazer agora, nestas atuais condições? Aí a resposta varia…

Um super obrigado a todos que contribuíram para essa matéria (em ordem alfabética):

• Fernanda Pedreira – Harvard Kennedy School
• Julia Queiroz – Tuck School of Business at Dartmouth
• Luiza Taliberti – NYU
• Marcelo Rozental – Columbia
• Mariana Mattos – Fuqua (Duke)
• Marina Pagano – Kellogg
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Harvard Kennedy School
Fernanda Pedreira
Último semestre

Paula Braga (PB): O que aconteceu com seu curso/escola desde que iniciou a pandemia?

Fernanda Pedreira (FP): Em dois dias fomos notificados que o curso seria todo online. Tivemos alguns dias até que todo o campus fosse fechado e 100% das atividades se mudassem para online, via zoom.

PB: Como a situação está impactando sua experiência atual e planos futuros?

FP: Acho que para quem está se formando, existe um sentimento de que o mundo está pausado e a busca por empregos se torna um enorme desafio. Temos focado muito em conversas com professores, entre os próprios alunos e oportunidades para network, o que é muito mais fácil aqui nos EUA porque as pessoas estão muito dispostas a falar, principalmente se forem da sua rede da universidade.

Ao mesmo tempo, tem surgido muitos projetos com tecnologia e saúde que muitos estão se envolvendo. Eu particularmente estou trabalhando como voluntária em uma iniciativa para ajudar a pequenos e médios munícipios a enfrentarem a pandemia. Meu foco agora é um trabalho ligado a universidade (durante o verão) até que as coisas fiquem menos incertas no Brasil.

PB: Você tem algo que gostaria de falar para pessoas que estejam cogitando fazer um MBA/mestrado?

FP: Apesar de não ser dentro das circunstâncias ideais, fazer um mestrado em uma universidade de ponta que tem uma rede forte pode ser uma bom investimento neste momento. Seria como ganhar tempo até que a situação se estabilize. Ninguém sairá imune então qualquer experiência, seja de trabalho, seja acadêmica, vai ser diferente então não acredito que não valha a pena estudar por ser online. Boas faculdades conseguem preservar muito da experiência.

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Tuck School of Business at Dartmouth
Julia Queiroz
2nd year (last term)

Paula Braga (PB): O que aconteceu com seu MBA desde que iniciou a pandemia?

Julia Queiroz (JQ): Aulas agora são 100% virtuais administradas em real time pelo zoom e teremos uma cerimônia online para celebrar a formatura em algumas semanas mas a formatura presencial foi mantida e será remarcada para ano que vem. A escola manteve todas as aulas no calendário e o currículo não sofreu quase nenhuma alteração. Estou morando perto da faculdade e a cidade está em lockdown com previsão de abertura de alguns comércios semana que vem.

PB: Como a situação está impactando sua experiência atual e planos futuros?

JQ: As aulas online realmente não promovem o mesmo nível de engajamento que as aulas físicas mas de uma certa forma os professores conseguiram se ajustar bem ao formato e tem superando minhas expectativas, tenho conseguido participar de study groups virtuais e palestrantes externos ainda participam nas aulas mesmo que estejam em fusos horários diferentes. Na parte social, tínhamos vários eventos e viagens marcadas e tudo foi cancelado com alguns eventos acontecendo em formato virtual. Essa é a parte mais “dolorosa” de não poder encontrar pessoas que fizeram parte da minha vida diariamente nos últimos 2 anos. O jeito é fazer muito happy hour por zoom e facetime e aproveitar as trilhas e caminhadas do Upper Valley para respirar ar puro. Os planos para o futuro continuam, a empresa que irei trabalhar após a formatura confirmou a minha oferta e por enquanto o inicio será virtual. Enquanto isso, estou participando de uma iniciativa chamada “MBAs Fight COVID-19” oferecendo consultoria pro bono para empresas que estão sendo afetadas pela crise.

PB: Você tem algo que gostaria de falar para pessoas que estejam cogitando fazer um MBA?

JQ: Ao meu ver fazer um MBA ainda tem o mesmo propósito de entregar uma experiência transformadora de vida e te possibilitar uma mudança de carreira seja nos EUA ou no Brasil. As faculdades estão ajustando componentes do programa para se adaptar ao mundo pós COVID. Estamos vivendo um momento único no mundo e acho que parar 2 anos para estudar agora e refletir como isso tudo vai afetar, o futuro tem seu valor.

PB: Algum comentário adicional?

JQ: Fico a disposição para conversar com qualquer pessoa que tenha interesse em fazer MBA ou tiver curiosidade sobre como é viver em tempos de COVID no exterior.

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NYU Stern
Luisa Talibert
MBA 2 (último semestre)

Paula Braga (PB): O que aconteceu com seu curso/escola desde que iniciou a pandemia?

Luisa Talibert (LT): Desde que começou a quarentena as aulas presenciais foram suspensas. Aula agora somente no Zoom. Os professores são dedicados e tem se esforçado para tornar a experiência produtiva, mas definitivamente não é a mesma coisa. A mágica do MBA é e sempre foi o networking, a troca de experiências e é muito difícil replicar isso online.

PB: Como a situação está impactando sua experiência atual e planos futuros?

LT: Muitos alunos tiveram sua oferta adiada para começar a trabalhar em tempo integral para Janeiro (o que na verdade foi melhor do que esperado, os boatos eram de que muitas empresas iriam revogar as ofertas). O Trump suspendeu também a emissão de vistos e muitos alunos internacionais estão voltando para seus respectivos países (alguns já haviam conseguido H1B1 ou OPT). No meu caso, eu também tinha o plano de ficar e decidir voltar para o Brasil.

PB: Você tem algo que gostaria de falar para pessoas que estejam cogitando fazer um MBA/mestrado?

LT: Sinceramente? Não faça no próximo ano! A experiência online de um MBA não é igual. Eu com certeza absoluta adiaria minha matrícula. Para aqueles que não aplicaram é uma boa época para tentar pois as faculdades estão recebendo bem menos candidatos e aumenta muito as chances de ser aceito (inclusive com bolsa).

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DUKE (FUQUA)
Mariana Mattos
2nd year (just graduated)

Paula Braga (PB): O que aconteceu com seu MBA desde que iniciou a pandemia?

Mariana Mattos (MM): O último período que começou no dia 16 de Março já foi todo online. Teve um esforço muito grande da escola e dos alunos de tentar manter a experiência extracurricular do MBA. Para isso, diversos eventos online foram criados, como happy hours virtuais, jogos online, palestras, painéis sobre saúde mental, entre outros. Tivemos até um Masterchef virtual.

Além disso, a outra grande mudança é que tivemos a formatura virtual. Diante do cenário, a escola procurou formas de fazer com que esse momento ainda fosse especial para nós. Enviaram um presente de formatura e planejaram cuidadosamente os detalhes da cerimônia virtual, que foi um sucesso.

PB: Como a situação está impactando sua experiência atual e planos futuros?

MM: Infelizmente, a situação atual impactou muito a experiência no meu último período do MBA. Sou muito grata de ter presenciado o esforço da escola e dos alunos para maximizar nossa experiência, mas o mundo virtual não substitui a dinâmica que existia presencialmente. Em relação aos meus planos futuros, o cenário atual trouxe algumas incertezas. Eu estava com data prevista para começar na American Airlines dia 15 de Julho, o que foi postergado para a primeira semana de Agosto. Com a indústria da aviação sendo uma das mais impactadas diante da pandemia, existe muita incerteza sobre o que vai acontecer.

PB: Você tem algo que gostaria de falar para pessoas que estejam cogitando fazer um MBA?

MM: Vai ser muito importante ficar de olho nas datas de application, pois é bem provável que tenha mudanças de calendário. Embora exista muita incerteza diante do cenário atual, focaria no que pode ser feito para se preparar: conversar com alunos, estudar para o GMAT, pesquisar sobre as escolas, etc.

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COLUMBIA
Marcelo Rozental
2 semestre concluído

Paula Braga (PB): O que aconteceu com seu MBA desde que iniciou a pandemia?

Marcelo Rozental (MR): As aula foram adaptadas para formato online e tem sido ministradas de acordo com o cronograma pelo Zoom. O volume de trabalhos e material para leitura foram intensificados. Eventos sociais diminuíram e também foram adaptados para formato online.

PB: Como a situação está impactando sua experiência atual e planos futuros?

MR: Por um lado, perde-se um pouco das oportunidades de networking geradas durante o MBA, por outro é bom estar novamente próximo da família e da namorada.

Planos futuros não foram muito impactados, já havia buscado summer job no Brasil antes do COVID. Porem muitos amigos tiveram seus summer jobs cancelados.

PB: Você tem algo que gostaria de falar para pessoas que estejam cogitando fazer um MBA?

MR: Não deixem de perseguir essa oportunidade é uma experiência única repleta de novos amigos e aprendizados. O processo de recrutamento para summer pode ser brutal, mas é praticamente um curso complementar.

PB: Algum comentário adicional?

MR: MBA’s com acordos de non-disclosure de GPA são muito interessantes pois lhe liberam para perseguir aprendizados que podem ser de fato transformadores.
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Kellogg School of Management – Northwestern University
Marina Reigado
Terceiro quarter do primeiro ano

Paula Braga (PB): O que aconteceu com seu MBA desde que iniciou a pandemia?

Marina Reigado (MR): 1) Todas as aulas viraram online: Nesse quarter (spring): inicialmente, a ideia de ter me inscrito para um MBA presencial e Full Time e receber um quarter inteiro de aulas online parecia péssima. Eu não imaginava que a escola conseguiria entregar a mesma experiência ou até algo parecido.O que aconteceu na prática me surpreendeu. Apesar de a experiência não ser a mesma, a escola se ajustou bem a nova situação. As aulas tem sido muito boas e não sinto que o lado acadêmico tenha sido prejudicado. Os professores estão sempre abertos a feedback e continuam passando uma alta carga de trabalho em grupos. Eles têm usado diversas funções do zoom (pool, chat, breakout rooms), que permitem uma aula mais dinâmica. O fato das aulas serem gravadas também ajuda quando precisamos rever algum conceito.

2) Os clubes reduziram a quantidade de eventos: Muitas pessoas têm apresentado o que chamamos aqui de zoom fatigue. Para tentar evitar/ reduzir esse problema, os clubes têm feito menos eventos do que nos outros quarters. Os alunos também parecem menos interessados nos eventos do que nos quarters anteriores. Eu faço parte do clube de Tecnologia de Kellogg e antes de planejarmos um evento temos nos perguntado o quanto esse evento vai agregar para os alunos ou se será apenas mais um compromisso nas agendas. A maioria dos eventos atualmente (todos online, claro) tem sido speakers (ex-alunos, representantes de empresas, professores) focando em capacitação dos estudantes ou em como lidar com a nova situação do mundo.

3) Contato com as pessoas: O MBA é muito focado em networking e estar um quarter inteiro longe de todo mundo de Kellogg traz uma sensação de distanciamento. Ver as pessoas na tela do Zoom durante as aulas, trabalhos em grupos ou eventos sociais, não é a mesma coisa do que ver as pessoas pessoalmente. Eu estou bem curiosa para saber se na volta das aulas presenciais as pessoas estarão mais próximas ou mais distantes.

4) Os estágios foram impactados: Muitas empresas tiveram que alterar os estágios de verão. A grande maioria transformou o estágio presencial em estágio online, várias reduziram o período do estágio e algumas poucas cancelaram a experiência. No meu caso, minha experiência será online. Nesse verão, eu vou estagiar na Amazon, como Product Manager no produto “Alexa Discovery Personalization”. Meus planos de mudar de Evanston para Seattle já estavam prontos. Quando eu soube que meu estágio virou virtual, eu fiquei bem ansiosa. Ao conversar com a minha manager, ela me tranquilizou, explicou que a equipe inteira está trabalhando de casa e que eles estão estabelecendo um novo paradigma. Apesar da incerteza, minha decisão aqui foi confiar na empresa e acreditar que terei uma experiência incrível, mesmo não estando em Seattle ou fisicamente perto da equipe com que vou trabalhar.

5) Kwest (viagem que fazemos com os alunos recém admitidos em Kellogg): Esse ano eu iria liderar uma viagem com 20 alunos recém admitidos para a Tanzania. A ideia era que eles se conhecessem melhor e conhecessem também pessoas do segundo ano para terem sempre com quem contar em Kellogg. Dadas as restrições impostas pela pandemia, a escola está fazendo várias adaptações no Kwest. Tanzania está fora de cogitação, as datas serão alteradas e a duração da viagem também vai mudar. Apesar das restrições, ainda espero conseguir me conectar com os novos alunos e entregar a eles uma experiência tão boa quanto a que eu tive no ano passado.

PB: Como a situação está impactando sua experiência atual e planos futuros?

MR: 1) Intercâmbio: Eu fui aprovada para fazer um intercâmbio em Insead (campus Fontainebleau) no quarter do inverno. Era uma experiência que eu queria desde o início do MBA e eu estava bem empolgada com a ideia. Atualmente, não tenho mais certeza do quanto quero fazer esse intercâmbio. A sensação de estar um quarter inteiro longe de todo mundo gerou um FOMO – Fear of Missing Out (expressão que usamos muito aqui no MBA) maior do que eu já sentia antes. A ideia de ficar mais um quarter longe me assusta um pouco. Então, por enquanto, a ideia do intercâmbio está on hold.

2) Estágio: Muitas pessoas, inclusive eu, utilizam o estágio como uma experiência para testar outras indústrias ou cargos. Eu trabalhei minha vida inteira no mercado financeiro e quando decidi onde estagiar optei por uma empresa de tecnologia para adquirir novas experiências e até para identificar as minhas preferências. O fato do estágio ser virtual me faz questionar o quão real é a experiência que viverei. Eu imaginava que com o estágio, eu teria respostas sobre o meu futuro profissional, mas agora, a incerteza do quanto vou aproveitar a experiência está no ar. Mas sigo apostando que o estágio será incrível.

3) Pós MBA: Nós sabemos que o mercado pós MBA não será fácil, dado que muitas empresas estarão se recuperando. Isso afeta os planos para o futuro de muitos dos meus colegas. Eu sou patrocinada, então sei que tenho um emprego me esperando quando acabar aqui. Infelizmente, muitos dos meus colegas não estão na mesma situação e estão preocupados sobre como estará a oferta de empregos daqui um ano.

PB: Você tem algo que gostaria de falar para pessoas que estejam cogitando fazer um MBA?

MR: Muitos prospects tem me contatado para tirar dúvidas sobre esse ser o momento certo para fazer MBA. É difícil dar uma opinião generalizada, pois cada caso é um caso. Acho que para quem está em indústrias sofrendo com a pandemia, o momento é ótimo. Faz sentido aproveitar o momento que o bônus não seria alto ou a oportunidade de crescer seria baixa para ficar dois anos investindo em si mesmo e voltar num momento em que o mercado possa estar melhor. Muitas das preocupações que ouço é sobre o valor do dólar, que tomar dívida em dólar agora não é o melhor momento. Acho que não existe momento bom para tomar dívida em outra moeda. Acho bem pior para quem tomou a dívida quando o dólar estava a R$ 3 (e se planejou para pagar algo em torno desse valor) e está tendo que pagar nesse momento. O que costumo falar para as pessoas é que o MBA abre portas para trabalhar aqui fora. Várias escolas oferecem a opção de STEM, o que te possibilita ficar até 3 anos trabalhando aqui. Para quem tem dívida em dólar, isso ajuda muito.

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