Lições históricas de liderança em tempos de “gripezinha”
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Lições históricas de liderança em tempos de “gripezinha”

Paula Braga

08 de julho de 2020 | 15h53

Image credit: ridvan_celik | Getty Images

O país está dividido.  O país está pegando fogo.  Metade da população acredita não só que está correta, mas que o outro lado é ignorante e/ou tem má índole.  Agressões entre pessoas de pontos de vista diferentes são frequentes.  Dentro de um mesmo governo, políticos lutam para se sobressair como os salvadores da pátria, muitas vezes acusando seus colegas de traidores. Ameaças de golpe começam a ser noticiadas na mídia.  As pessoas estão morrendo em uma velocidade sem precedentes.

 

Não. Esse não é mais um artigo sobre a realidade no Brasil neste exato momento.

 

O relato acima é um resumo do que os EUA estavam passando em 1864, durante sua Guerra Civil, quando Abraham Lincoln era presidente.

 

Para a aula de Liderança Sustentável meu mestrado (lecionada pelo incrível Dr. Umesh Mukhi da FGV), fui desafiada a conhecer melhor as trajetórias de diferentes líderes como Mandela, Gandhi e Lincoln.  Já conhecendo um pouco sobre os dois primeiros, resolvi me aprofundar na história de Lincoln.  E me encantei.

 

Abraham Lincoln nasceu em 1809 e morreu em 1865. Apesar de nunca ter feito faculdade, atuou como advogado, tornou-se estadista e eventualmente se elegeu como o 16º presidente americano.  Lincoln ficou conhecido por ter liderado os EUA durante a maior crise moral, política e constitucional que o país já havia passado.  Em um momento onde o Brasil está passando por uma crise sem dimensões prévias, considerei interessante lembrarmos algumas de suas frases mais instigantes para  refletirmos sobre 4 aspectos da liderança: protagonismo, ação, relacionamentos e comunicação.

 

–> SOBRE PROTAGONISMO

“A melhor maneira para prever o seu futuro é criá-lo”

Muitas vezes temos a tendência em ir levando as coisas…deixa a vida me levar, já diria Zeca Pagodinho.  E tudo bem.  O problema dessa abordagem é que a vida pode te levar ou não para um lado desejável.  Vira uma questão de sorte.  Ao refletir sobre o tipo de legado que quer deixar, o tipo de valor que quer que alicerce suas escolhas, você acaba aumentando suas chances de criar uma trajetória que faça mais sentido para você.  Isso claro, se sua reflexão vier acompanhada de um plano de ação e de uma estrutura consistente para apoiá-lo nessa trajetória.  E como criar esse plano?  A próxima frase de Lincoln dá uma boa dica sobre por onde começar.

 

–> SOBRE AÇÃO

 “Se eu tivesse 6 horas para cortar uma árvore, eu usaria 4 para afiar meu machado”.

Mais até do que uma prescrição sobre tempo a ser dedicado para planejamento e preparação, a frase de Lincoln fala da importância de entender quais são as variáveis de maior impacto numa equação.  Explicando melhor: “Um machado é um multiplicador de forças.  Você pode ser o lenhador mais forte do mundo, mas com um machado cego, você terá problemas”.  Em tempos de crise onde decisões precisam ser tomadas de maneira ágil e certeira, ter clareza de qual fator que causará maior impacto na equação é fundamental.  Na vida pessoal, a reflexão é: qual é UMA coisa que eu posso fazer que impactará positivamente todas as outras variáveis?

 

–> SOBRE RELACIONAMENTOS

“Eu não gosto daquele homem.  Preciso conhecê-lo melhor”

Essa é sem sombra de dúvida uma das minhas frases favoritas do Lincoln.  É muito fácil, ainda mais em tempos de crise, procurarmos o culpado da história.  Quem está certo, quem está errado?  Quem é mau caráter, quem é o mocinho?  Essa maneira binaria de enxergar a realidade provoca cisões em equipes, famílias e nações.  Ao taxar uma pessoa como simplesmente má, você está limitando sua percepção do todo.  Para formar seu governo, Lincoln chamou seus antigos rivais (que haviam concorrido contra ele para a presidência), indo além da antipatia inicial e reconhecendo os pontos fortes de cada um.

 

“Se você buscar o que é ruim nas pessoas esperando encontrá-lo, certamente encontrará.” 

Se eu procuro o que meu colega/marido/gestor está fazendo mal, eu vou encontrar. Se eu procuro o que essas mesmas pessoas estão fazendo bem, também vou encontrar.  O ponto é saber onde você direciona seu foco e que filtro que você está aplicando ao analisar a pessoa.  Sendo mais clara: se você coloca um óculos com lentes verdes, enxergará tudo verde e, portanto, achará que o mundo é verde.  Da mesma forma, se você usar lentes de que “ele não é uma boa pessoa”, vai encontrar milhares de evidencias para isso.  Todos temos lentes.  Porém, para fazer uma avaliação mais imparcial, precisamos reconhecer nossa lente natural e se atentar aos fatos, tomando assim uma decisão mais balanceada.

 

–> SOBRE COMUNICAÇÃO

 “Em momentos como os de hoje, as pessoas não devem falar absolutamente nada pelas quais não estariam dispostas a ser lembradas pela eternidade”

No campo macro, recentemente vimos alguns políticos exporem seus pontos de vista de maneira pouco elegantes em reuniões de teóricas portas fechadas.  No campo micro, estamos vendo várias gafes sendo cometidas em reuniões do zoom que são devidamente gravadas, compartilhadas e viralizadas.  A frase de Abraham Lincoln, portanto, sobre a importância de considerarmos que TUDO o que falamos (e agimos) faz parte de nossa marca, não poderia ser mais atual.  Vale a regra do New York Times: não faça nada que você não gostaria que estivesse na capa do jornal.  Minha intenção não é entrar numa discussão sobre o que é público e o que é privado, e sim trazer a reflexão à tona.  Palavras marcam.  Ainda mais nos dias de hoje.

E, já que estamos falando sobre comunicação, Lincoln nos presenteou com outra pérola:

“É melhor ficar quieto e ser considerado um tonto, do que abrir a boca e remover qualquer dúvida sobre isso”. 

 

Preciso elaborar?

 

A história  de Lincoln é permeada de muitas outras lições de liderança.  Mas, pensando em praticidade, que tal escolher uma só para começar a praticar hoje?

 

Eu já escolhi a minha ,)

 

 

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