UNIFAL burla cotas em Medicina

O Edital da Unifal praticamente inviabiliza que alunos cotistas preencham os 50% por cento, das 60 vagas, destinadas a eles.

Mateus Prado

07 Janeiro 2015 | 16h18

O Edital da Unifal praticamente inviabiliza que alunos cotistas preencham os 50% por cento, das 60 vagas, destinadas a eles.

O Edital da Universidade Federal de Alfenas pede que o aluno tenha a nota minima de 700 em Linguagens para poder concorrer à uma vaga em Medicina no próximo SISU. No ENEM de 2013 fazer nota 700 em Linguagens significou acertar cerca de 40 questões nesta prova (de um total de 45), o que representa quase 90% de acertos. Em Ciências da Natureza a nota minima exigida, para Medicina, é de 750, o que significou, em 2013, cerca de 35 acertos. Em Ciências Humanas a exigência é de nota 700, cerca de 33 acertos comparado com ENEM 2013.

Estes números de acertos, para atingir a nota minima exigida pelo Edital, podem ser ainda maiores. Como a nota das quatro provas objetivas do ENEM é dada por desvio padrão (metade das pessoas ficam com nota acima de 500 e a outra metade com nota abaixo de 500), a metodologia faz com que uma mudança na média de acertos, já considerada a TRI, diminua ou aumente a nota de um aluno que teve mesmo desempenho na avaliação de anos anteriores. Isto pode acontecer, como exemplos, com a mudança da dificuldade de alguma das provas e/ou com uma mudança significativa na representatividade dos vários grupos socieconômicos que realizam o Exame.

Para piorar o Edital diz que ” se esgotada a lista de estudantes que fizeram opção pela reserva de vagas, estas voltarão para a ampla concorrência”. Ora, com regras impossíveis de serem cumpridas pelos alunos cotistas (como a de acertar 90% da prova de Linguagens), é obvio que a lista  de espera de cotistas irá se esgotar rapidamente, isto se ela se formar.

O Edital da UNIFAL, e o seu Termo de Adesão ao SISU 2015.1, ferem a Lei de Cotas e precisam ser avaliadas, imediatamente, pelo Ministério Público, pela defensoria Pública e pelas demais autoridades competentes.

O hilário disto, se é que possa ter algo de engraçado nesta situação, é que o mesmo Edital exige somente 650 de nota minima em Matemática, o que, em geral, no ENEM 2013, foi um número de acertos muito pequeno (cerca de 20 acertos).

O Edital todo demonstra que a Universidade não conhece bem como é feita a avaliação pelo ENEM. Em Medicina exige nota minima de 750 na Redação, mas as notas de Redação são sempre múltiplos de 20. Em alguns cursos exige nota minima de 0, de 50, de 100 e de 200, que são notas impossíveis do aluno receber no ENEM. Só fica com nota zero quem não marcou a cor do caderno e, ao mesmo tempo, não transcreveu a frase que a prova pede, ou quem faltou a um dos dias da prova.

Mesmo quem não acerta nenhuma questão fica com nota superior a 200. No ano de 2013 as menores notas do ENEM (possivelmente quem não acertou nenhuma questão em cada prova) foram 322,4 em Matemática, 261,5 em Linguagens, 299,5 em Ciências Humanas e 311,5 em Ciências da Natureza.

É pessoal, não é só os alunos, escolas de ensino médio e os cursinhos que não entendem bem como é o TRI e como é avaliada a Redação do ENEM. A maior parte das Universidades também não fazem a menor ideia do significado das notas do ENEM. E, neste caso, da UNIFAL, serão prejudicados os alunos cotistas e todos os demais alunos que não foram abençoados com tantos acertos em Linguagens. Tenho dúvidas, e muitas, se a UNIFAL conseguirá encontrar 60 alunos que, ao mesmo tempo, tenha o perfil exigido pelo Edital e que estejam dispostos a estudar nesta Universidade. Mesmo alunos não cotistas.