Mariana não foi acidente.

Mateus Prado

17 Novembro 2015 | 21h13

Não foi, de forma nenhuma, acidente o que aconteceu em Minas Gerais, na região de Mariana. A regulamentação da mineração no Brasil é extremamente favorável às mineradoras e aos lucros delas. Elas podem tudo e pagam quase nada de royalties, e de compensação ambiental, para as cidade, os Estados e para o país.

Tanto o governo federal como os governadores de Minas Gerais, têm sido, através do tempo, uma espécie de “funcionários” destas mineradoras. Nunca, de fato, tiveram politicas públicas que limitassem a o ímpeto pelo lucro e os mandos e desmandos das Mineradoras. Para termos ideia, o royalty pago pelas mineradoras no Brasil é entre 0,2% e 3% de seu faturamento LÍQUIDO. E a concessão do minério é entregue a quem primeiro solicitar, não existe leilão.

Para comparar, o royalty do petróleo é de até 10% do faturamento BRUTO. E é feito leilão para definir quem vai explorar. Mesmo com o preço em queda (por conta da redução do valor do barril no mercado mundial), o petróleo pagou R$ 18,53 bilhões em royalties em 2014. A mineração pagou somente R$ 1,7 bilhão de royalties em 2014. Está perdendo a atual geração e, principalmente, as próximas gerações com valores tão baixos pagos pela indústria da mineração como compensação ambiental. Também perdem a atual e as futuras gerações com a ganância desenfreada tanto de grandes mineradoras como de grandes empresas de petróleo.

Além disso, sempre esteve óbvio, se são graves as consequências ambientais da exploração do petróleo, é ainda pior as consequências ambientais da exploração das mineradoras. Em um país preocupado com suas condições socioambientais não caberia qualquer mineradora receber as autorizações só por serem as primeiras a pedir e assim, por todos estes motivos,  colocarem em risco o futuro de Minas Gerais e do Brasil.

Primeiro: não foi acidente. Segundo: todos os dias a população de diversas cidades de Minas e de outros estados sofrem consequências gravíssimas da exploração dos minérios. Terceiro: não vai ficar por aí, volta e meia teremos mais notícias de tais “acidentes” (que não são acidentes). Quarto: Minas Gerais vai sofrer muito, mas muito mesmo, se não criar, ou se não for criado, um movimento estadual e federal que tenha força para mudar a regulamentação da mineração. Quinto: as futuras gerações de Minas podem, em várias de suas cidades, sequer terem condições de vida minimamente saudável em um futuro próximo. Sexto: você acredita que a população do Rio de Janeiro aceitaria “acabar” com o Pão de Açúcar para entregá-lo para a mineração? Não, né? Parece absurdo para qualquer um de nós, de qualquer estado, que o Pão de Açúcar seja destruído para exploração de minérios. E por que achamos normal que Minas Gerais tenha seus morros, seus montes, seus rios e sua beleza natural destruída pela mineração?

O risco sempre foi iminente. Se não houver uma mudança real, o que mais pode estar nos esperando? Estamos dispostos a pagar o preço da falta de regulamentação em prol de um Brasil Sustentável Ambientalmente ? Os danos, atuais, e os futuros, já não estão suficientemente evidentes ?