FIES: Nota 2 no ENEM qualifica o aluno

Mesmo com as novas regras para qualificar os alunos para concorrer ao FIES, nota 2 no ENEM já pode ser suficiente, em alguns casos com folga, para concorrer ao programa e até mesmo para conseguir o Certificado de Ensino Médio

Mateus Prado

13 Abril 2015 | 12h56

A partir da mudança na regra para adesão ao FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), que garante a muitos estudantes o financiamento das mensalidades no Ensino Superior em Universidades Particulares, vieram, por parte dessas instituições, críticas ao modelo.

Está obvio, ou ao menos parece (em época de tentativas de ajustes fiscais), que não foram os mais nobres motivos que levaram o governo a mudar as regras do FIES. Com investimentos na casa dos bilhões, o FIES vem despejando dinheiro fácil em Instituições de Ensino particulares de todo tipo, inclusive – ou talvez principalmente – nas de qualidade um tanto questionáveis.

Para que o debate fique mais claro e transparente, é importante que educadores, estudantes e toda a sociedade saibam o real significado das novas regras. Tais regras definem que, para poder se qualificar para o FIES, é preciso ter uma média de, no mínimo, 450 pontos nas quatro provas objetivas do ENEM e ter a nota mínima de 500 na Redação.

Os dados que apresento estão baseados em pesquisas de cerca de 3000 estudantes, seguidores da minha página no Facebook (https://www.facebook.com/enemsisu?fref=ts) , que fizeram as provas do ENEM 2014 e declaram, para esta coluna, seus números de acertos. Esses alunos me passaram suas quantidade de acertos alguns dias depois da prova e no começo do ano completaram as informações declarando suas notas. A pesquisa, que ainda não finalizada, é coordenada por mim, Mateus Prado e por técnicos do Observatório Social do Cursinho Henfil. Ela foi complementada por uma parceria com o grupo Evolucional – Diagnósticos Pedagógicos, que gerou dados de mais de 20 mil alunos que também fizeram as provas do ENEM 2014.

A Nota do ENEM não é dada de forma decimal, como estamos acostumados a pensar. A maior parte da sociedade acredita que 450 pontos é algo equivalente à nota 4,5 numa escala de 0 a 10. Não, o ENEM não apresenta a nota assim. A nota do ENEM é dada por desvio padrão de média 500 e desvio 100. Metade dos alunos que fazem o ENEM e estão no último ano do Ensino Médio ficam com nota acima de 500 e a outra metade com nota abaixo de 500 (como é uma curva de desvio padrão). A nota do aluno depende das questões que ele acertou e também da comparação entre seus acertos e os acertos de outros milhões de alunos que fizeram a prova. Quem não está no último ano do Ensino Médio tem sua nota calculada por comparação com os alunos que estão.

Na TRI (Teoria de Resposta ao Item), método utilizado para correção do ENEM, só é possível saber a nota do aluno depois de corrigidas a prova de todos. Cada uma das quatro provas do ENEM tem 45 questões. Se, por exemplo na prova de Matemática, um aluno acertar exatamente as 10 questões mais fáceis e outro acertar exatamente as 10 questões mais difíceis, o aluno que acertou as mais fáceis ficará com uma nota muito maior do que quem acertou as mais difíceis. Isso ocorre por que é praticamente impossível que um aluno que “faça a prova a sério” erre as 35 questões mais fáceis e acerte justamente as 10 mais difíceis. Se isto acontecer (de ele acertar somente as 10 questões mais difíceis) ou ele chutou, ou tínhamos ali um gênio da matemática que estava na prova só para “brincar” de acertar, propositalmente, as mais difíceis (a questão é considerada “fácil” ou “difícil” através de um cálculo feito depois de corrigida toda a prova). De forma simplificada, podemos dizer que as questões mais acertadas são mais fáceis e as menos acertadas as mais difíceis.

Nessa escala de desvio padrão não existe nota zero e nem nota mil. Quem entregou a prova de 2014, marcada a cor da prova e transcrita a frase de seu caderno, sem marcar nenhuma questão de matemática, levou nota 318,5. Esse é foi o zero, em Matemática, do ENEM 2014. Quem acertou todas as 45 questões levou nota 973,70. Este foi o 10, em Matemática, no ENEM 2014.

A nota do ENEM, portanto, é uma combinação entre o número de acertos do aluno e a coerência entre estes acertos. Então, utilizando os dados de 2014, qual seria a nota, transformada para uma escala decimal (que estamos mais acostumados a pensar), necessária para o aluno atingir a média de 450 e poder concorrer ao FIES?

Para facilitar a compreensão irei separar o que foi, mais ou menos, tirar 450 em cada uma das 4 provas propostas pelo ENEM no ano de 2014:

2,00 (de 0 a 10) em Matemática resultou na nota 450
Em matemática, alunos com 8 a 13 acertos (dentre 45 questões) tiveram notas entre 450 e 500 pontos. Dois alunos com 8 acertos, de 45 questões, tiveram notas de 499,2 e 499,7. Isto, em uma escala decimal, daria uma nota entre 1,78 e 2,88. Sim, tivemos alunos com 10, 11 e 12 acertos que chegaram perto, mas não fizeram 450 pontos. Mas isso aconteceu por que a coerência da prova do aluno com 13 acertos era quase nula, enquanto a coerência da prova dos dois alunos citados com 8 acertos e de nota quase 500 era muito grande (acertaram principalmente as questões de menor dificuldade).

2,88 (de 0 a 10) em Ciências Humanas resultou em nota 500
Entre os cerca de 3000 alunos pesquisados, o que teve menor quantidade de acertos marcou 13 de 45, atingindo a nota 501,2, a menor na área de Ciências Humanas. Isso é natural por que, em matemática, os alunos acertam menos questões que nas outras 4 áreas, e sempre um acerto em matemática, “de coerência similar em outra prova”, gera uma nota maior. Por isso, em toda edição do ENEM, a maior nota (na escala de desvio padrão) sempre aparece em Matemática, mesmo que a maior nota em cada uma das quatro áreas do conhecimento sempre corresponda a 45 acertos.
2,00 e 3,8 (de 0 a 10) em Ciências da Natureza gerou nota entre 450 e 500
Alunos que tiveram entre 9 e 17 acertos, de 45 questões, chegaram a alcançar notas maiores que 450 a até a atingir 500 pontos. Um aluno com 11 acertos (nota 2,5) chegou a ter 518,1 pontos. Eis um exemplo bem claro: um aluno com nota 2,5, na escala que estamos acostumados a pensar, teve nota maior que 500. Ou seja, acertando 25% da prova, já é possível obter uma nota maior que 500, que é a nota atribuída à média dos concluintes do Ensino Médio, como já foi colocado.

2,9 (de 0 a 10) em Linguagens já pôde resultar em nota 450
Em todas as provas do ENEM os alunos acertam mais questões de Linguagens do que de qualquer outra área. Isso faz, em uma escala de desvio padrão, que seja necessário um número maior de acertos, considerando uma coerência “similar”, em Linguagens para ter a mesma pontuação obtida em outras áreas. Como é a área que os alunos acertam, em média, mais questões, quem acerta todas as 45 fica com uma nota bem menor do quem acerta, por exemplo, as 45 de Matemática. Isso ocorre por que a escala compara cada aluno que fez a prova com o aluno que teve o caminho mediano na prova (como a pontuação no ENEM é dada pela sua coerência de acertos, é como se a nota estivesse sendo dada ao caminho que você percorreu). Quem percorre o caminho com menos atalhos – o mais coerente – fica com a nota melhor, mesmo que tenha o mesmo número de acertos ou até um número inferior de acertos em relação a outro aluno.
Alunos que tiveram entre 13 e 18 acertos (nota entre 2,9 e 4) tiveram pontuação entre 450 e 500 pontos, mas tivemos casos de alunos com 13 acertos que não obtiveram 450 pontos (assim como tivemos alunos com 18 acertos e nota próxima de 550).

Certificação para o Ensino Médio
Todos os exemplos acima, onde demonstrei com quantos acertos o aluno fez nota acima de 450, são mais válidos para quem faz o ENEM para obter o Certificado do Ensino Médio do que para quem quer se qualificar para as novas regras do FIES.
Para a Certificação do Ensino Médio, o aluno precisa ter nota mínima de 450 em cada uma da quatro provas objetivas. Nesse caso, considerando os exemplos dados aqui, um aluno com 43 acertos, se entre esses acertos estivessem algumas das questões mais fáceis do ENEM 2014, conseguiria seu Certificado de Ensino Médio. 43 acertos em 180 questões significa, em escala decimal, uma nota 2,4. É uma nota muito baixa, principalmente considerando que as questões mais fáceis geram pontuação maior e que existe, sempre, em uma prova de alternativas, a possibilidade de acerto ao acaso. No ENEM, a possibilidade de acerto ao acaso em uma questão é de 20%. Quem confere seu gabarito e descobre que acertou 43 questões, na realidade, não acertou as 43. Parte delas foi acertada ao acaso (quanto menor seu número de acertos, pela probabilidade, maior foi a sua proporção de acertos ao acaso).

No FIES é mais fácil
É muito mais fácil conseguir a qualificação para o FIES do que obter a Certificação do Ensino Médio. Isso pelo seguinte motivo: o FIES exige nota média de 450 nas quatro provas, e não nota mínima de 450 em cada uma delas (como na Certificação).
Na qualificação para o FIES ele pode até tirar zero em algumas das quatro provas e obter sucesso (não acertar nenhuma das 45 questões de uma prova alternativa é quase impossível). Por exemplo, no ENEM 2014, quem entregou a prova de Ciências da Natureza em branco ficou com a pontuação 300,6 (foi o zero da prova em uma escala de desvio padrão). Com uma pontuação próxima a 500 em cada uma das outras três provas, esse aluno conseguiria uma nota média superior à 450 e sua chance de conseguir o tão procurado financiamento.

450 de média no ENEM não indica que o aluno tem condições de seguir em qualquer curso superior que tenha o mínimo de seriedade.
Já deu pra perceber que conseguir a pontuação 450 no ENEM é muito fácil. Se um aluno tem o mínimo de condições de interpretar textos, localizar-se geograficamente, resolver alguns problemas da sua vida cotidiana, acertar algumas das várias questões de comparação visual de grandeza e de regra de três, terá nota média muito maior que 450.
Em uma situação hipotética, um aluno que acerta somente as 15% questões (27 questões) mais fáceis e responde todas as outras sem o conhecimento do que é pedido (acerta pouco mais ou pouco menos de 31 questões ao acaso) acaba a prova com cerca de 58 acertos e média muito maior que 450. Em escala decimal, o aluno que sabe 15% da prova, considerando que ele acerte justamente as 15% mais fáceis, fica com uma nota de 3,2. Isso mesmo, a nota 3,2 é o,8 maior do que hoje é pedido para a Certificação do Ensino Médio e bem mais que 1 ponto a mais do que é necessário para conseguir a qualificação para o FIES.
Sinceramente, ter nota 2,00 no ENEM não indica que o aluno tem condições mínimas nem para cumprir um Ensino Médio razoável. Colocar essas pessoas de pontuação tão baixa na Universidade, sem fazer as reformas necessárias no Ensino Básico (inclusive aumentar o orçamento e o salário dos professores) é desperdício de dinheiro público e distribuição fácil, e imoral, deste dinheiro para algumas universidades que, além de não possuírem nenhuma qualidade, ainda têm a cara de pau de tentar convencer a sociedade de que conseguem ensinar algo para alunos que não têm as ferramentas (o domínio básico das linguagens) mínimas necessárias para cursar o Ensino Superior.

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