Ensaio sobre a cegueira… #AgoraÉQueSãoElas

Ensaio sobre a cegueira… #AgoraÉQueSãoElas

Mateus Prado

10 Novembro 2015 | 00h32

“(…)“brincadeiras” terríveis que sempre culminavam com um toque no seu corpo (um tapa ou um beliscãozinho na bunda, um simples abraço que tocava seus seios, que mal haviam despontado (…)”

                                                              Rosane Santiago – #AgoraÉQueSãoElas

De antemão digo que não sou ativista de movimentos de mulheres, mas me formei politicamente em seu meio durante minha juventude e por elas tenho todo o respeito.

É mais do que apropriado iniciar dialogando com Saramago e sua obra, que nos leva a fechar os olhos para poder ver, recuperar a lucidez e resgatar o afeto frente às pressões dos tempos e daquilo que se perdeu: “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Quisera que o senso de orgulho masculino não fosse somente conceito nos livros de história ao invés de atitudes cotidianas que perpassam todas as classes ou seguimentos sociais. Fato é que se trata de um traço cultural dos mais arraigados e que extrapola em muito este ser: homem-heterossexual.

Apesar de não ser adepta à perspectiva que coloca a todas nós em uma categoria única, especialmente quando nos pedem para escrever durante uma semana sobre “a dor e a delícia de ser mulher”, admito que muitas das situações vivenciadas por nós ao longo da vida são de assustadora semelhança.

Aquele familiar (ou amigo da família) que na sua adolescência fazia “brincadeiras” terríveis que sempre culminavam com um toque no seu corpo (um tapa ou um beliscãozinho na bunda, um simples abraço que tocava seus seios, que mal haviam despontado). Aquele ginecologista que mais parecia um tarado e que ao te examinar te tocava de uma forma diferente, mas mesmo assim você permanecia calada. Afinal, ele era o doutor e você uma adolescente pobre, parda e mulher. E sim, aqui estou falando das minhas experiências que nada tem de novidade. E esta é a parte realmente assustadora, naturalizamos por muito tempo estas situações.

Não preciso ir longe para saber o que é a covardia e a violência contra uma mulher. E, neste ponto, o homem tem seu perverso protagonismo. Sou fruto de uma mulher que está entre as mais guerreiras e íntegras que conheci em minha vida. Uma mulher que ora sofria violência física por que seu marido bebia muito ou ora porque ele recebeu um “chamado de Deus” para purificar seu lar. Cresci assistindo esta realidade até que ela decidiu por um fim nesta saga e se separou. Seria este o fim do machismo que imperava no meu lar? Não.

Fomos – e ainda somos – uma sociedade forjada em um “sistema hierárquico” de gêneros, onde o masculino está sempre em posição superior ao que é feminino. Mentalidade e cultura não se muda com um divórcio. Já dizia o filósofo Allan Watts que “acordar para quem você é requer desapego de quem você imagina ser”.

Precisamos fortalecer nosso olhar sistêmico sobre o que significa o direito das mulheres, perpassando pelas dimensões política, econômica e social. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que, apesar dos inegáveis avanços no caso brasileiro nestes últimos 15 anos, estamos caminhando com passos lentos nessa transformação. Segundo a ONU, “a taxa de desemprego das mulheres é cerca de duas vezes a dos homens, uma diferença que aumenta quando se comparam homens brancos (5,3%) com mulheres afrodescendentes (12,5%). Apenas um quarto das mulheres empregadas está no setor formal. O salário médio para os homens é 30% maior do que o de mulheres. Um terço das famílias brasileiras é chefiada por mulheres, e metade delas é monoparental. As mulheres dedicam mais do que o dobro de seu tempo para as tarefas domésticas do que os homens. A taxa de feminicídio para as mulheres dobrou entre 1980 e 2011, e hoje uma mulher é assassinada a cada duas horas, a maioria por homens com os quais têm relações íntimas, colocando o Brasil como o sétimo país do mundo com maiores taxas de feminicídio. Em 2012, o número de estupros foi superior a 50.000”.

Enfrentar estas discussões na base são de suma importância para a mudança deste cenário. O papel do sistema educacional na formação de cidadão críticos não se traduz apenas com o ensino formal da língua portuguesa e da matemática (prerrogativa do processo de ensino-aprendizagem). Não podemos sucumbir ao discurso vazio que atribui a estes temas a pecha de doutrinação esquerdista, entender a organização histórica de uma sociedade em suas diferentes facetas é também papel do ensino. É pena que, apesar de todas as possibilidades legais que as normativas educacionais dão para a reorganização e inovação curricular, não tenhamos ainda encontrado lideranças nos estados e municípios capazes de empreendê-las com sucesso.

De outro lado, nós mulheres, precisamos nos reconhecer melhor como pares e aliadas nesta luta, ao invés de nos colocarmos em um lugar homogêneo em que a diversidade de identidade e a pluralidade de opiniões existente entre nós não se traduza, em hipótese alguma, em atitudes segregacionistas e, até mesmo, revanchistas em alguns casos, nos afastando e nos enfraquecendo por vezes.

Tentando dizer em outros termos, podemos nos voltar para Simone de Beauvoir. Que dizia “as mulheres não nascem mulheres, mas se tornam mulheres”. Ou seja, a condição feminina deriva menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura. Devemos fugir de todos os tipos de cegueira. Devemos colocar em xeque a maneira como os homens olham as mulheres, mas também como nós, mulheres, nos enxergamos.

Nesse sentido, não posso deixar de me referir ao artigo da Carta Capital que ainda ontem eu lia. Ele trata da falta de maturidade do jornalismo brasileiro para uma campanha como a do #AgoraÉQueSãoElas. Não tenho dúvida de que estes espaços e construções podem ser muito mais fortes, inclusivas e com papel de maior protagonismo das mulheres. Entretanto, maturidade não é algo que se decide ter, e sim algo que desenvolvemos. Jornalismo não é um ser, um ente etéreo. Ele é composto por pessoas que estão inseridas neste grande retrato da nossa sociedade. Como diria uma mulher de fibra que conheço: “se olharmos para a foto ela pode parecer ruim, mas se olharmos o filme, ele é bem mais otimista”. Que cada dia surjam mais e novas formas de voz e garantia de direitos para as mulheres, pois assim caminharemos para uma maturidade social e democrática.
rosaneRosane Santiago, uma mulher de 34 anos de idade, independente, que trabalha desde os 11 anos e milita na política desde os 13 anos. Formada em Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo, desde 2008 já atuou no Instituto Pólis nos temas de participação social na América Latina e avaliação de Políticas Públicas. Foi Gerente de Projetos na D’Accord e no INGAP, e vem atuando na área de consultoria junto ao Instituto Synergos e outras instituições em projetos de impacto coletivo para transformações sistêmicas.