Um ano em Bruxelas

Um ano em Bruxelas

Escola Lourenço Castanho

14 Março 2017 | 20h00

Foto 1: Universidade Livre de Bruxelas - Autor: Victor Sobreira

Foto 1: Universidade Livre de Bruxelas.

Ao entrar pela primeira vez na biblioteca, o meu orientador teve que se reportar ao responsável pela segurança. Apesar de já estar matriculado, eu ainda não tinha um cartão de identificação. Depois de muita conversa, pude entrar no prédio, desde que o meu orientador permanecesse junto a mim durante toda a visita. Em janeiro de 2016, o reino da Bélgica ainda se encontrava no nível máximo de segurança, após os ataques de Paris no final de 2015, e o exército tinha presença ostensiva na capital. Foi nesse clima que meu ano de pesquisa na Bélgica se iniciou, previsto em um acordo entre a Universidade de São Paulo e a Universidade Livre de Bruxelas para um doutorado em História Medieval com dupla titulação.
Além desse primeiro choque, houve todos os desafios de se mudar completamente sozinho para um país estrangeiro. Como alugar um apartamento? Como obter a documentação de residente? Como se locomover pela cidade? Como abrir uma conta no banco? No primeiro mês, a bolsa recebida pelo ICLOC foi de fundamental importância para arcar com os custos iniciais como a garantia do aluguel e a taxa de inscrição no doutorado.
Tive a oportunidade de não apenas ter um contato direto com o meu orientador, Alexis Wilkin, um jovem pesquisador com passagem por Harvard, como também de ter aulas e participar de discussões com outros três grandes pesquisadores da minha área: Jean-Pierre Devroey, Alain Dierkens e Jean-Marie Sansterre, todos com mais de 40 anos de pesquisa na área e centenas de artigos publicados. Também tive a oportunidade, como membro do Laboratório de Estudos Medievais (LEME), de participar do encontro de outros laboratórios de pesquisa, como “Laboratoire de Médiévistique occidentale de Paris” (LaMOP), que ocorreu na Universidade de Reims.

Foto 2: Sala das fontes.

Foto 2: Sala das fontes.

Mesmo sendo um pequeno reino rodeado por grandes potências (Inglaterra, França e Alemanha), os pesquisadores formados na Bélgica construíram uma escola em história medieval independente e respeitada no mundo inteiro desde o início do século XX. Podemos citar nomes como Henri Pirenne, Léopold Genicot, François-Louis Ganshof, Adriaan Verhulst e Georges Despy. Por um longo tempo, a história medieval esteve ligada às histórias nacionais. Assim, pesquisadores franceses, ingleses e alemães buscaram as origens de seus próprios Estados contemporâneos, presos às suas próprias línguas nacionais, e o que não se encaixava nesse recorte era deixado de lado. Dessa forma, cada pesquisador publicava os seus estudos em seu próprio idioma, e eram raros aqueles que se comunicavam com seus vizinhos. Dentro desse quadro, a Bélgica aparece como uma exceção. Inicialmente, é um país onde todos estudam uma língua latina (francês) e uma germânica (holandês), e ainda há uma pequena região que fala alemão. Ainda, por causa da sua pequena extensão territorial, o estudo da língua de seus vizinhos é incentivado. Dessa forma, pouco a pouco, foi se construindo uma tradição de pesquisa original e internacional.

Foto 3: Exército fazendo segurança em frente a uma escola.

Foto 3: Exército fazendo segurança em frente a uma escola.

Especificamente, a Universidade Livre de Bruxelas foi fundada em 1834 em um movimento contra a Igreja católica que, após a independência do reino belga, planejava abrir uma Universidade na cidade de Malinas, o que veio a ser depois a Universidade Católica de Louvain. Os fundadores da ULB defendiam a ideia de que o ensino e a pesquisa deveriam ser livres tanto em relação à Igreja quanto ao Estado. Esse espírito permanece até hoje e, ao longo da formação doutoral, na maior parte do tempo, o estudante pode decidir qual caminho seguir que, no meu caso, significou longas horas na sala das fontes históricas. Essa rotina foi abalada no dia 22 de março, quando a Universidade inteira foi evacuada logo após os atentados no aeroporto internacional e no metrô de Bruxelas. Durante dois dias, a cidade foi fechada, e governo pediu que a população não saísse de casa. Morando sozinho, foram as 48h mais longas da minha vida.
Além da pesquisa diária, uma vez por semana havia um seminário do qual estudantes da graduação, do mestrado e do doutorado participavam. A ideia era que os professores pudessem mostrar aos alunos, a partir de um tema específico, como o conhecimento histórico era construído e no que consiste realmente o trabalho de um pesquisador em história medieval. Nessa exposição, os doutorandos eram incentivados a participar com observações de suas próprias experiências de pesquisa. Por outro lado, os alunos têm que desenvolver, ao longo do ano, um trabalho autoral a partir do tema do seminário. Desde o início, os alunos são acompanhados pelos professores e pelos doutorandos. No semestre seguinte, fui convidado pelo professor Alexis Wilkin para dar uma aula no seminário que ele coordenava. A experiência foi importante não apenas pela obrigação de aprofundar a pesquisa, mas também pelo desafio de realizar a apresentação em língua estrangeira e para um público de não especialistas.
Para além da vivência acadêmica, tive também a oportunidade de conhecer, um pouco, como funcionava o sistema belga de ensino. Em um país fortemente polarizado (franceses e holandeses; católicos e laicos; belgas e estrangeiros), as escolas são organizadas de forma bastante regionalizada. Tive a oportunidade de conhecer o Ensino Médio de uma escola francófona e laica em Bruxelas chamada “Athénée Royal Jean Absil”. Os professores de História têm grande liberdade e são responsáveis pela produção de seu próprio material didático, já que em um país com um pouco mais de 3 milhões de falantes da língua francesa, as editoras não têm interesse em um mercado tão pequeno. Haveria a opção de comprar livros da França, mas, segundo os professores, essa opção não é financeiramente viável. A partir da minha experiência no Brasil, como aluno que fui um dia e professor da Lourenço Castanho, esperava encontrar grandes diferenças. Contudo, a única diferença observável que pude constatar foi que antes de entrar na sala de aula, os alunos precisavam formar uma fila e sentavam em suas cadeiras apenas após a autorização do professor. Foi um dia em que me senti em casa entre colegas de profissão.
Nesse ano, pela primeira vez em minha carreira, me dediquei exclusivamente à pesquisa. Apesar disso, não me senti em nenhum momento longe do ensino. Essa experiência me mostrou que, se quisermos que os nossos alunos não sejam meros reprodutores de informação, mas também produtores, esse também deve ser o nosso objetivo. A academia foi o caminho escolhido por mim, mas as possibilidades são inúmeras. Muitas vezes, vistas como campos antagônicos, a Universidade e o Ensino Básico só têm a ganhar com a troca de informações e experiências. Após um ano, deixo aquela biblioteca que conheci, profundamente transformado. Por outro lado, sem perspectivas de mudança, os soldados continuam ocupando as ruas da capital política da União Europeia.

por Victor Sobreira