Concurso de Produção Textual 2015

Escola Lourenço Castanho

12 Novembro 2015 | 16h11

O Lutador

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Algumas, tão fortes

como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

poder de encantá-las.

[…]

 

Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhes-ei escravo

de rara humildade.

Guardarei sigilo

de nosso comércio.

Na voz, nenhum travo

de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,

perpassam levíssimas

e viram-me o rosto.

Lutar com palavras

parece sem fruto.

Não têm carne e sangue…

Entretanto, luto.

[…]

ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, p. 84.

 

Impossível discordar das palavras do poeta. Embora difícil e exaustiva, a luta com as palavras se constrói cotidianamente. Lutamos para nos fazer entender, argumentamos para convencer o outro, narramos histórias que comovem e/ou divertem nossos ouvintes. Se a muitas dessas atividades de linguagem nos dedicamos quase que instintivamente, por meio de diálogos, a questão costuma se tornar algo mais desafiadora quando nos deparamos com a folha de papel em branco, à espera de nosso esforço e competência para preenchê-la com ideias, argumentos, mundos.

Na sociedade do conhecimento[1], é fundamental produzir saberes e, ao mesmo tempo, comunicá-los com clareza, eficiência e rapidez. As informações e conhecimentos se disseminam rapidamente e demandam parcerias, posicionamentos, compartilhamentos. É uma sociedade, portanto, em que comunicar-se por escrito é uma obrigação e, ao mesmo tempo, um ganho/um desafio. Nessa perspectiva, a escola possui papel fundamental, pois tem como uma de suas tarefas preparar os alunos para a escrita de textos de diversos discursos.

Na Lourenço Castanho, a produção de texto possui expectativas de ensino-aprendizagem específicas ao longo de cada ciclo e dentro de cada um dos anos/séries, numa espiral de gêneros discursivos que combinam competências de escrita mais ou menos complexas, retomadas e ampliadas ao longo dos anos de estudo. É importante frisar que desde o desenvolvimento das teorias de gêneros discursivos pelo grupo de Genebra, no final dos anos 1990, retomando as teorias de Mikhail Bakhtin, ninguém escreve no vazio, sem gênero/tema/contexto. Somos seres sociais, historicamente situados e, ao escrever, mobilizamos habilidades, competências, repertório, visões de mundo, perspectivas. Esse ato complexo relaciona-se diretamente com a leitura de mundo e com a construção e reconstrução de sentidos que ler e escrever possibilitam a cada um de nós.

Trabalhar a produção de textos hoje significa trabalhar a partir das práticas sociais e dos gêneros em circulação, levando em conta a definição de objetivos para a escrita, veículo, momento histórico e o papel social do autor e do leitor. Por isso não falamos mais em redação, mas sim em produção textual. Não se trata de mera nomenclatura, mas de concepção de escrita. A redação pressupõe técnica, modelo. Como se, a partir exercícios de repetição, fosse possível aprender a escrever qualquer texto, sobre qualquer assunto. Tal premissa se mostrou equivocada ao longo do tempo, especialmente a partir das exigências contemporâneas, que vão muito além de narrar, descrever e dissertar. Surge então uma nova perspectiva, a dos sujeitos inseridos nas situações discursivas.

Escrever considerando os gêneros pressupõe mais que indicar um tema e um número de linhas. Pressupõe um percurso, que vai da leitura e compreensão do gênero em estudo (sua forma composicional, suas marcas temáticas e linguísticas, seu viés) à formação do repertório, passando pela experimentação da escrita antes da produção final do texto. Ainda que este percurso não esteja aqui completamente reproduzido, ao ler o texto dos alunos com atenção, é possível entrever as etapas anteriores que o produto final revela. Como escrever uma reportagem sem pauta e pesquisa prévia? Como compor um poema sem conhecer sua estrutura rítmica e forma composicional? Como escrever uma carta argumentativa sem considerar remetente, destinatário e repertório?

Propor a nossos alunos que escrevam um poema, uma reportagem, um artigo de opinião não tem como objetivo primeiro que eles se tornem poetas, repórteres ou articulistas. A ideia, sim, é que experimentem a escrita e desenvolvam tanto competências linguísticas como a sensibilidade da escrita e o exercício da argumentação, do posicionamento crítico.

Neste ano da 5ª edição do Concurso de Produção Textual da Lourenço Castanho, não foi escolhido um tema que unificasse todos os anos/séries. A opção foi por apresentar um panorama das produções de nossos alunos, do 6º ano à 3ª série do Médio. O leitor poderá, assim, conhecer alguns dos desafios enfrentados por eles no embate com a escrita e, é claro, suas conquistas. Poderá, também, se aproximar de nosso cotidiano de trabalho, no estudo de gêneros tão diversos.

O convite aos leitores é para conhecer não apenas os textos do concurso, mas também um pouco de nossos cursos de produção textual e o que nossos alunos estão aprendendo, discutindo, descobrindo a cada vez que preenchem uma folha em branco com suas ideias, argumentos, perspectivas.

Acessem http://issuu.com/lourencoc/docs/concurso_producao_textual_2015/3?e=0

Roberta Hernandes Alves
Coordenadora de Língua Portuguesa – Fundamental 2 e Ensino Médio
Escola Lourenço Castanho


 [1] A Sociedade do Conhecimento pode ser definida como aquela em que o conhecimento é o principal recurso para produção e o principal recurso para criação de riqueza, prosperidade e bem-estar para a população. Por essa razão, o investimento em capital intangível, humano e social é reconhecido como o mais valioso recurso para criação de riqueza. Isso é determinado não pela força de trabalho em si, mas sim em nível científico pelo progresso tecnológico e pela capacidade de aprendizagem das sociedades. Adaptado de: Acesso em: 22.set.2015