A escola tem que ser um local onde todos estejam envolvidos em educar os alunos

A escola tem que ser um local onde todos estejam envolvidos em educar os alunos

Escola Lourenço Castanho

07 Março 2017 | 08h30

“Seja pública ou privada, a escola precisa ter um ótimo sistema de gestão e o respaldo de um mantenedor, consciente de sua importância decisiva na formação das pessoas e na preparação para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”


Capa do Livro “A escola que queremos”, Governo do Estado de São Paulo

Capa do Livro “A escola que queremos”, Governo do Estado de São Paulo

A Escola Básica que queremos é aquela em que todos os alunos possam desenvolver o melhor de si, aprender a viver, aprender a criar e a produzir saberes, a relacionar-se com os diferentes, os iguais e ser feliz.
Todos os professores devem procurar meios de educar seus alunos, de incentivar seus pares para o trabalho coletivo, de unir-se às famílias em processo de colaboração, de buscar ajuda junto a outras categorias profissionais, e, se não conseguirem, devem criar demandas para as autoridades, para a comunidade, para as academias – nunca deixar o aluno “no fundo da classe”, apenas fazendo de conta que ele pertence àquele grupo de estudantes.
De que aluno estamos falando? Podemos dividir a sala de aula, desenhando uma curva de Gaus, separando os melhores, os médios e os piores? Nunca devemos nos conformar com as estatísticas e prever, já no início do ano, quais estudantes terão sucesso e quais não terão.

Todos sabemos que curva normal não pode ser usada para representar o desempenho das pessoas. Visto que a educação pressupõe a crença na transformação e na superação, essa não é uma realidade do mundo com que devemos nos submeter e muito menos a de qualquer sala de aula. Na escola, assim como no mundo, existe a diversidade: o aluno brilhante e muito tímido para construir em equipe; o agitado, que não deixa os outros falarem; o que entende muito rápido e se aborrece por ouvir de novo a explicação; o que troca letras; o que tem uma caligrafia ilegível e, muitas vezes, o que não fala, não ouve ou não enxerga. Há também o que não acompanha o desenvolvimento da programação. Como os alunos irão se desenvolver, isso vai depender de muitos fatores.
Na Faculdade, os mestres afirmam a verdade inquestionável: “toda pessoa é capaz de aprender se lhe forem dadas condições para tal.” Mas como fazer, se os professores formandos estudam muita teoria e pouca prática? Quem aceitaria ser operado por um médico que não fez “residência”?
A escola que queremos tem que ser um local onde todos estejam comprometidos em educar os alunos. Embora as boas condições do prédio, do mobiliário, da iluminação, dos espaços acolhedores e de tantos outros pequenos detalhes materiais sejam necessários, o elemento humano sempre exercerá o papel mais influente, relevante e decisivo. Todas as pessoas que circulam pela escola – diretor, coordenador, orientador – são muito importantes para os alunos. Mas, sem dúvida, os professores são as pessoas mais significativas para a criança e influenciam a forma como ela vê ou se percebe, pois eles, constantemente, lhes fornecem informações sobre suas habilidades, valores, destrezas ou ausência deles. Conforme Vigotski (1933/1996), é justamente nesse período de escolarização que surge a própria valorização de si, e a criança passa da julgar seu desempenho e ter sua própria posição para si e para outro.
A escola que queremos, seja pública ou privada, precisa ter um ótimo sistema de gestão e o respaldo de um mantenedor (Estado ou empresa particular) consciente da sua importância decisiva na formação das pessoas e na preparação para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Cada instância, até chegar ao professor, deve cumprir, da maneira mais eficaz possível, as suas atribuições normativas, de organização e de assistência técnica, pedagógica e educacional. Atenção redobrada, ampla e atenta às mudanças da sociedade, das ciências, das tecnologias, especialmente dirigidas à formação dos professores e à sua preparação para o trabalho.
E assim chegamos aos professores, aqueles que, como falou Platão, vão mostrar aos que permanecem na caverna que existe um mundo para além daquele ao qual eles estão acostumados, muito embora isso, inicialmente, lhes pareça algo doloroso e confuso, pois não estão acostumados com a luz da verdade, a luz do conhecimento.
Ao entrar na sala de aula e fechar a porta, o professor está sozinho, mas junto com sua solidão, ele carrega toda a bagagem que ajudou a construir, para a qual recebeu muitas contribuições. Ele pertence à única categoria profissional que trabalha em uma simetria invertida, como afirma Guiomar Namo de Melo, pois passou por todas as etapas pelas quais conduzirá seus alunos.
Na escola que queremos, o professor precisa ser ouvido e deve ser ajudado por todos da escola, pelas autoridades, pela sociedade. Quando ele pedir auxílio, quando solicitar mais alguém para junto conduzir a classe, ou mesmo um apoio pedagógico especializado para alguns alunos especiais, ele precisa ser atendido.
Todos os que lerem este texto podem ter a certeza de que, se não tivessem tido professores, não estariam hoje aqui.

por Sylvia Figueiredo Gouvêa – Educadora, fundadora da Escola Lourenço Castanho e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo.