Especialista em controle de barragens, professor do Liceu fala aos alunos

Especialista em controle de barragens, professor do Liceu fala aos alunos

Liceu Escola

15 de abril de 2019 | 14h42

No mês de março o Liceu promoveu para seus alunos um bate papo com o engenheiro Fernando César Dias Ribeiro. Especialista em controle de barragens, o engenheiro é professor do Liceu e na ocasião tirou dúvida dos alunos sobre o desastre ambiental em Brumadinho (MG).

Confira também, abaixo, entrevista dada pelo professor para o Jornal Valor Econômico

Controle de barragens dispõe de tecnologia de ponta

Fonte: Jornal Valor econômico, nº 4705 , dias 9,10 e 11 de março de 2019 (por Tatiana Schnoor)

Uma analogia com o sistema de controle de tráfego aéreo usado em aeroportos seria a situação mais próxima para se exemplificar o tipo de precisão tecnológica necessária em estruturas de barragens como a de Brumadinho para minimizar tragédias humanas e ambientais.

Estudo da Universidade de São Paulo (USP) sobre a confiabilidade de dados no monitoramento de barragens mostra como a adoção de tecnologias de ponta pode aprimorar a gestão de risco de estruturas das empresas do setor de mineração. “Já existem tecnologias disponíveis e, economicamente viáveis para empresas de grande porte, que reduzem os riscos para as companhias e para as comunidades”, diz o engenheiro civil Fernando Ribeiro.

Há mais de 20 anos atuando em monitoramento de barragens, Ribeiro é professor da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e autor do estudo pela USP.

Para o especialista, o sistema ideal de gestão de estruturas prevê o uso intensivo de diferentes instrumentos automatizados, como sensores internos e externos, que fazem a medição em tempo real e constante de variados parâmetros. As informações geradas a partir disso são enviadas de forma remota para uma sala de controle, localizada a quilômetros de distância, onde computadores cruzam os dados para verificar a origem de possíveis anormalidades.

“A precisão dos cálculos possibilita verificar o comportamento da estrutura ao longo do tempo e a identificar, com antecedência, quando surge uma anomalia. Isso aumenta a capacidade de reação das empresas”, diz Ribeiro. Normalmente, as mineradoras fazem leituras quinzenais ou em até trinta dias, como está previsto na lei. “O problema disso é que alguma ocorrência pode ocorrer e não ser identificada. Até o técnico ir ao local, fazer a leitura dos sensores manualmente e passar para uma planilha, um desastre pode acontecer”, diz Ribeiro.

A automação é relevante por causa do aspecto de instabilidade do comportamento dos rejeitos, ora mais denso, ora mais líquido de acordo com o processo químico usado para retirar o minério. “Essa inconstância na reação dos rejeitos é o que justifica a adoção de sensores diferentes, de grandezas variadas, posicionados dentro e fora da estrutura para elevar a precisão e confiabilidade dos dados coletados”, afirma Ribeiro.

Segundo o especialista, a adoção de um conjunto de equipamentos e a instalação de infraestrutura custam em torno de US$2 milhões – o valor inclui três tipos de sensores, estrutura de comunicação e a instalação de um centro de processamento de dados. Seria o aparato necessário para a barragem da Mina do Córrego do Feijão, que tem 86 metros de altura e 720 metros de comprimento da crista.

Para Roberto Kochen, diretor do Departamento de infraestrutura e Habitat do Instituto de Engenharia, uma estrutura do porte de Brumadinho justifica um sistema automatizado, mas as barragens com menos de 50 metros de altura não. “As inspeções humanas são suficientes”, diz Kochen. Na avaliação do especialista, os sistemas automatizados são um complemento desejável, “mas não substituem as inspeções periódicas dos engenheiros, que podem ser feitas quinzenalmente ou mensalmente. “ A periódica deve ser diária a partir da identificação de problemas como trincas, surgência de água, entupimento do fluxo de água ou até mesmo uma toca de animal no lugar errado”, diz.

Para Kochen, os sensores ajudam, mas são questionáveis senão estiverem nos locais certos. “No caso de Brumadinho, a estrutura deveria ter sido reforçada há tempos, pois a barragem já estava em situação de risco eminente. Eu tenho a impressão de que houve falha de manutenção e de engenharia”, afirma Kochen.

Procurada, a Vale informou, por nota, que adota as tecnologias mais modernas de segurança e monitoramento disponíveis. A empresa não detalhou quais processos de medições e leitura de dados usa, nem o quanto investe em equipamentos tecnológicos. Com relação às inspeções, a Vale informou que realiza quinzenalmente monitoramento e inspeções em todas as estruturas que se enquadram na Política Nacional de Segurança de Barragens: “ao todo são mais de 2mil inspeções por ano, reportadas e analisadas em um sistema integrado de gestão. Além disso, possui o vídeo-monitoramento e radar interferométrico em algumas estruturas”.

Com relação ao acionamento do sistema de alerta sonoro, a empresa informou que ocorre de forma manual, a partir do centro de controle de Emergência e Comunicação, com funcionamento 24 horas por dia, localizado fora da área da mina. A vale informou que “pelas informações iniciais, que estão sendo apuradas pelas autoridades, devido à violência com que ocorreu o evento, não foi possível acionar as sirenes relativas à Barragem 1”.

A mineradora de ouro Kinross informou, por nota, que utiliza tecnologias de última ponta no monitoramento de suas duas barragens (Eustáquio e Santo Antonio) em Paracatu, Minas Gerais. A de Santo Antonio tem 104 metros de altura e 400 milhões de m3   de rejeitos contendo arsênio e cianeto. É considerada de alto potencial de dano pela Agência Nacional de Mineração (ANM). Tanto as inspeções como as leituras dos instrumentos são feitas por equipes e as informações são repassadas periodicamente para uma empresa de consultoria.

Entre as tecnologias utilizadas pela Kinross para o monitoramento de suas barragens, “estão sistemas online e medição de pressão da água na estrutura, da temperatura do ar e do volume de precipitação de chuvas, implantados desde 2017. A transmissão de dados dos instrumentos de medição é feita por sensores elétricos de automação com transmissão para um software de supervisão via cabos, wireless e via rádio. Eles oferecem leitura em tempo real – por minuto ou hora. Em 2018, a Kinross investiu cerca de US$ 2 milhões em novos equipamentos e tecnologias. Para 2019 estão previstos outros US$2,5 milhões. ”

No caso da Anglo American, mineradora que tem uma barragem de rejeitos localizada em Conceição do Mato Dentro, também em Minas Gerais, a empresa informou, por nota, que “conta com completo programa de gestão de segurança, o que inclui inspeções diárias, leitura semanal dos instrumentos e inspeções geotécnicas com frequência quinzenal, além de revisões trimestrais realizadas por empresas independentes”.

A empresa também informou que “ a sua barragem foi construída com aterro compactado e seu alteamento é feito pelo método a jusante, considerado mais seguro e conservador”. Com relação aos equipamentos utilizados na barragem, a Anglo American disse “adotar sistemas de fibra ótica, unidades de estação total para medição de deformações do corpo da barragem, piezômetros e indicadores de nível de água. Além disso, usa drones para fazer o levantamento topográfico e obter fotos aéreas. Conjugadas, essas tecnologias permitem o conhecimento total do comportamento do rejeito”.

Já a CSN Mineração informou, por nota, que a “Barragem Casa de Pedra, em Congonhas, Minas Gerais, construída pelo método jusante, é segura. A população de Congonhas pode ficar tranquila.