“Não falamos mais Dia do Índio, falamos Dia dos Povos Indígenas”; sim, há diferença

“Não falamos mais Dia do Índio, falamos Dia dos Povos Indígenas”; sim, há diferença

Do Colégio

25 Abril 2016 | 16h44

No dia 19 de abril comemora-se o Dia do Índio no continente americano. A data foi oficializada no Brasil em 1943, pelo presidente Getúlio Vargas, por meio do decreto de lei nº 5.540. O dia 19 foi escolhido porque, em 1940, foi realizado o Primeiro Congresso Indígena Interamericano, no México. O evento contou com a presença de diversas autoridades governamentais e líderes indígenas da América.

No entanto, os índios não compareceram aos primeiros dias de reuniões. O motivo foi simples, compreensivo: preocupação e medo do “homem branco” que, há séculos, os perseguiam com agressões e ameaças. Após algumas reuniões, os povos indígenas resolveram participar do evento e este dia, 19 de abril, ficou marcado e posteriormente conhecido na América como o Dia do Índio.

Entretanto, 73 anos depois, esta data continua realmente sendo o Dia do Índio? Na visão da professora Ane Keila Firmo Alves, indígena, a resposta é negativa. “Não se usa mais Dia do Índio, isso nos remete ao singular. Nós falamos ‘Dia dos Povos Indígenas’. Quando se fala de índio, é sempre de uma forma muito genérica. Quando se fala povos indígenas, estamos diferenciando cada cultura”.

A professora Ane Keila é de uma comunidade indígena em São Gabriel da Cachoeira (AM) e sempre lutou pela desconstrução da imagem do índio presente no imaginário popular, aquela em que os índios andam nus pela floresta, de arco e flecha na mão e com um penacho na cabeça. A professora é parceira do colégio Liceu Santa Cruz no Programa Rede, da Associação Vaga Lume. “Dia do Índio é todo dia. Essa data interessa aos outros, mas para nós, não. No nosso dia a dia, valorizamos e vivemos nossa cultura e a diversidade que temos”, afirma a professora.

Nos últimos anos existe um grande crescimento do respeito pelas diferenças. Isso não acontece apenas com os índios, mas também com negros e homossexuais, por exemplo. Porém, segundo a professora, ainda existe muito desconhecimento em relação aos povos indígenas.

“A culpa por esse desconhecimento é do próprio sistema de ensino brasileiro. Ontem, li um artigo do professor Gersem Baniwa, da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), sobre a atual política que a gente vive, com o veto das línguas indígenas dentro das universidades. Ele faz uma crítica sobre o Brasil de hoje , que está retrocedendo em relação ao reconhecimento das diferenças”, afirma Ane Keila.

Mas qual seria a solução para o problema do desconhecimento da questões indígenas? Os avanços da tecnologia e o aumento de ferramentas para conexão de pessoas, em escala mundial, como as redes sociais, por exemplo, não seriam as melhores soluções, já que criam ilhas de isolamento. A professora acredita que a aproximação é o melhor meio para diminuir este problema. “A melhor forma da gente conhecer o outro é estar perto. Para nós, que somos indígenas, o viver comunitário é muito importante. Por mais que eu veja as pessoas por meio da televisão, tenha contato por e-mail ou Facebook, não é a mesma coisa que estar em contato físico com a pessoa. Então, pra conhecer o outro, precisa ter essa proximidade e a gente vive muito isso, esse espírito de comunidade”.

O colégio Liceu Santa Cruz concorda com a posição de Ane Keila e, para comemorar a Semana dos Povos Indígenas, as turmas do Ensino Fundamental II e Ensino Médio trabalharam a questão dos indígenas durante a aula. Além disso, os alunos fizeram oficinas de construção de uma casa indígena, brinquedos e adornos utilizados pelos povos indígenas.

Alunos do Liceu durante a Aula Interdisciplinar sobre os Povos Indígenas. Foto: Divulgação

Alunos do Liceu durante a Aula Interdisciplinar sobre os Povos Indígenas. Foto: Divulgação

Esta aula interdisciplinar envolveu as disciplinas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia e não foi em sala. Para melhor interatividade entre os estudantes e os professores, as turmas discutiram o atual cenário indígena no Brasil no teatro da escola. Foram apresentados aos jovens dados da população indígena, regiões onde habitam, costumes que mantêm e os que adquiriram durante os tempos. “A discussão feita no Dia do Índio teve por finalidade a desconstrução deste povo como figura caricata e valorizar culturalmente sua contribuição na formação social e histórica do Brasil”, explica do professor de História Rodrigo Domingos.

Mirna Eloi Suzano, diretora do colégio Liceu Santa Cruz, comenta que não há espaço na grade curricular das escolas para debater as questões indígenas e este fato é um complicador para o reconhecimento da nossa identidade. “A questão indígena não tem um espaço significativo no currículo escolar. Acreditamos que essa discussão é fundamental para a construção da identidade do povo brasileiro”.

A professora Ane Keila finaliza dizendo como gostaria que o povo indígena fosse visto. “A gente gostaria de ser visto não como um enfeite de floresta, mas como pessoa. Como gente que pensa, que discute, que sofre e que tem alegrias. Infelizmente, vivemos uma época de contradições. Eu gostaria de ser lembrada, por exemplo, como pessoa que tem dignidade, que pensa num futuro melhor para o seu povo”.