Uma escola para o futuro: o imprevisível como estímulo
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Uma escola para o futuro: o imprevisível como estímulo

Instituto Singularidades

18 Dezembro 2018 | 19h13

Nos últimos anos, os sistemas de ensino de muitos países vêm sendo reformados com o objetivo de adequar a escola ao mundo contemporâneo e, com isso, deixá-la mais significativa para os estudantes e mais relevante para os desafios da atualidade.

Seguindo esse mesmo rumo, o Brasil aprovou, no ano passado, uma Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil (0 a 5 anos) e para o Ensino Fundamental (6 a 14 anos). A partir de 2020, ela deverá ser a referência para todos os currículos das redes pública e privada do Brasil. Nesse exato momento, educadores de todo o país estão imersos no documento, procurando compreendê-lo para planejar o currículo até a data limite.

No entanto, em um mundo V.U.C.A., acrônimo em inglês para volatility (volatilidade), uncertainty (incerteza), complexity (complexidade) e ambiguity (ambiguidade), quais seriam as competências e os conhecimentos a ser desenvolvidos na escola e que serão efetivos para uma sociedade de dinâmica tão imprevisível?

Para tentar responder a essa dúvida é preciso, antes, analisar a história e considerar dois aspectos fundamentais e de grande influência na gênese do processo educativo atual. O primeiro deles é que o modelo curricular de hoje é tributário da filosofia iluminista do século XVIII, que gera conhecimentos especializados e fragmentados.

É preciso reconhecer que, graças ao iluminismo, nossa civilização deu grandes saltos de conhecimento e progrediu, colocando a sociedade em patamares civilizatórios sem precedentes na humanidade. No entanto, a complexidade do mundo contemporâneo exige que a resolução dos problemas seja encaminhada de maneira sistêmica e integrada. Somente o enfoque das diferentes especializações, por meio de um sistema de integração de saberes, permitirá ao cidadão do século XXI superar os desafios emergentes.

O segundo aspecto é que a escola atual foi edificada com base no modelo fordista, do início do século XX, justamente para concretizar a funcionalidade das especializações iluministas. Inspirada na Revolução Industrial, essa escola reproduz, em muitos aspectos, o ambiente produtivo das fábricas daquele período. Alunos sendo “processados” aula a aula, em diferentes disciplinas, sentados linearmente um atrás do outro, obedecendo à voz de comando dos professores e cumprindo tarefas rotineiras.

Esse desenho foi útil para o estabelecimento de uma escola popular e fornecedora de trabalhadores especializados. No entanto, ele não se adequa mais aos desafios de hoje. Nem mesmo a fábrica moderna, da pujante economia criativa, trabalha de acordo com o velho modelo fabril. Produzir bens e serviços inovadores e atraentes exige trabalhadores criativos e empreendedores.

Além disso, essa demanda extrapola o mundo do trabalho produtivo. Problemas ambientais como o aquecimento global ou a deterioração dos sistemas hídricos das cidades, a própria convivência em ambientes urbanos, a globalização e a vida em tempos de mídias sociais pedem respostas inovadoras de todos e a todo momento.

Aperfeiçoar a herança iluminista e fordista, ou mesmo superá-la, e imaginar um mundo futuro frente a tamanha instabilidade, sem abandonar a ideia de escolarização para todos, é um dos desafios dos tempos atuais.

Por mais que se analise o passado para modificar e superar velhos fundamentos, o futuro seguirá surpreendendo. Hoje, imaginar que algoritmos de inteligência artificial e robôs produtores já substituem e continuarão substituindo inúmeros postos de trabalho ocupados por seres humanos coloca sobre a escola uma enorme responsabilidade. Como formar futuros cidadãos para um mundo de funções ainda não inventadas e com enormes e urgentes desafios ambientais e urbanos?

 

Criatividade, cooperação e comunicação

Uma possível proposta para reformas curriculares que atendam a essa indagação poderia se sustentar no 6 ‘Cs’ da formação educativa: criatividade, cooperação, customização, conectividade, comunicação e pensamento crítico. Se os currículos das escolas contemplarem esses vetores, estarão sintonizados com as competências gerais definidas na BNCC e abrirão caminho promissor para o avanço da educação.

Elaborar projetos escolares que privilegiem a criatividade será fundamental para a produção de bens e serviços e para a resolução dos problemas emergentes, individuais, sociais e ambientais. Diminuir a quantidade e fazer curadoria da informação, identificar conceitos estruturantes dos quais derivam outros e criar experiências desafiadoras para a proposição de soluções originais deverão estar entre os principais objetivos da escola.

Em um mundo globalizado, onde diversidade cultural e diferentes pontos de vista precisam ser levados em consideração para o equacionamento dos problemas emergentes, saber cooperar será questão de sobrevivência. O trabalho cooperativo exige o desenvolvimento de habilidades como saber apresentar propostas, ouvir, aceitar ideias e sintetizar soluções.

Elaborar modelos de acompanhamento customizados para cada estudante será um dos caminhos para respeitar a diversidade e as individualidades e para formar integralmente cada um dos jovens, em substituição aos sistemas de massificação do ensino.

Estabelecer conexão entre os diferentes agentes da sociedade, conhecendo a cultura digital e fortalecendo o sentido comunitário da vida, tão ausente nas grandes cidades, será condição para prosperar em um mundo onde muitos não terão empregos formais e poderão viver de políticas de renda universal, focados nos problemas de suas comunidades e na melhoria do convívio social.

Nesse mundo interconectado, cooperativo e globalizado, será imprescindível saber se comunicar fazendo uso de diferentes linguagens e com acesso pleno à cultura digital. Dada a complexidade atual e futura, a troca de experiências, ideias e valores facilitará soluções efetivas e ampliará a importância de cada indivíduo dentro da vida comunitária, seja no ambiente doméstico, no trabalho ou nos arredores.

Por fim, nenhuma dessas cinco competências fará sentido sem o desenvolvimento do pensamento crítico. Somente a boa argumentação, sustentada por evidências, dados, valores éticos e de respeito aos indivíduos e ao ambiente, dará substância e credibilidade às interferências sociais.

Em resumo, entre os desafios da humanidade para a era que se inicia, estão o de superar o modelo fragmentado de pensamento fabril e o de projetar os possíveis mundos futuros onde viverão os jovens que hoje frequentam as salas de aula. Não se trata de, da noite para o dia, abandonar a tradição e a escola de massa.

Será preciso adaptá-la aos novos tempos articulando cotidianamente os velhos costumes e as rupturas. A educação somente será relevante se, de fato, desenvolver conhecimentos e competências que contribuam para vidas plenas de significados, que permitam aos jovens atuar de maneira digna e saudável na sociedade e na natureza.

Assim sendo, embora não se saiba o que virá pela frente em um mundo V.U.C.A., é preciso ao menos preparar nossos jovens de maneira que essa incerteza não paralise as ações. Ao contrário, que seja estimulante. Por isso, a missão de agora é começar a formar os futuros cidadãos de modo que tenham agilidade, tranquilidade e sabedoria para equacionar os problemas complexos e misteriosos que estão por vir e consigam lograr uma sociedade justa e um ambiente sadio para as gerações futuras.

 

Miguel Thompson é Diretor de Operações do Instituto Singularidades.  Licenciado em Biologia pela Universidade Mackenzie, doutor e mestre em Oceanografia pela Universidade de São Paulo (USP), Thompson também tem um MBA em Markting pela Fundação Instituto de Administração, da mesma instuição.

Para saber mais: www.institutosingularidades.edu.br
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