Tudo é política: Jaime Carbonell e a escola democrática e participativa
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Tudo é política: Jaime Carbonell e a escola democrática e participativa

Instituto Singularidades

30 de agosto de 2019 | 17h53

A ideia de que tudo seja permeado pela política é uma das pedras fundamentais da visão de mundo do jornalista, sociólogo e pedagogo catalão Jaume Carbonell, que também é um dos grandes pensadores sobre a educação nos dias de hoje. Durante anos ele trabalhou para a revista Cuadernos de Pedagogía (Cadernos de Pedagogia), uma das mais importantes publicações sobre este tema na Espanha e na Europa. Também foi professor na faculdade de educação da Universitat de Vic (Universitat Central de Catalunya, ou Universidade Central da Catalunha), em Vic, a poucos quilômetros de Barcelona.

Jaume esteve no dia 7 de agosto no Instituto Singularidades, instituição de ensino superior voltada para a formação de professores, para falar aos docentes e alunos suas visões sobre a educação democrática, baseadas em seu último livro, La Educación es Política – A Educação é Política, ainda sem edição brasileira.

Na ocasião, em entrevista à Luciana O’Reilly, diretora executiva de operações do Instituto Singularidades, Carbonell compartilhou algumas de suas opiniões sobre escolas democráticas, participação (ou interferência) dos pais na educação dos filhos e defendeu a autonomia da unidade escolar. Leia a seguir.

Luciana: Como a gente pode desenvolver uma política num ambiente escolar, tendo como base a ideia de que toda atividade humana é política?

Jaume: Sim, eu creio que tudo é política. Quando falo de política, o faço no sentido genérico. A palavra “política “hoje está muito prostituída, talvez pelos próprios políticos, mas acho que se tem de diferenciar a política que é feita pelos políticos dessa ideia um pouco clássica da paideia, que são os assuntos públicos, essenciais e comuns…

 

 Luciana: do cidadão?

Jaume: Sim, que nos interessam e que envolvem a todos. Portanto, nós somos pessoas, seres humanos, que vivemos, temos ideias, projetos, visões sobre o mundo e queremos melhorar nossas condições de vida. E portanto, tudo isso é política. Política é pensar em que modelo de sociedade queremos, que valores priorizamos, como defendemos os direitos, como nos posicionamos diante de conflitos e de injustiças.

Nós – e sobretudo os professores – não podemos estar à margem da realidade, do mundo, do que acontece na sociedade. Então, creio que isso envolva a escola, esse compromisso ético de um professorado, porque os professores não apenas ensinam matérias curriculares, conteúdos, uma vez que estes estão impregnados de valores, de posicionamentos políticos e interpretações.

Quando eu, por exemplo, ensino história, eu não sou neutro. Você tem de mostrar os fatos, mas também tem de dizer que há diferentes interpretações e visões dessa matéria quando conta isso. Portanto, sempre há politica.

Jaume Carbonell conversou com a diretora Luciana O’Reilly, antes de sua palestra no Instituto Singularidades. Foto: Acervo Singularidades

Luciana: Quando se fala do professor e da competência desse professor no século XXI, em situações de sociedades em que, muitas vezes, a liberdade de expressão e o pensamento crítico estão sendo cerceados, como isso se dá?

Jaume: Eu acredito que uma escola tem de ter autonomia. Ela está relacionada à sociedade, ao mundo do trabalho, à cidade, mas é um espaço de formação, também de estudo, de pesquisa, e também de conversas. Portanto, creio que numa democracia, numa sociedade democrática – me parece claro que teríamos que discutir o que entendemos por “democracia” e até que ponto seu país, Brasil, meu país, Espanha e outros são muito democráticos ou não muito democráticos, digamos –, em qualquer caso, a essência da direção democrática é que possa existir liberdade de expressão.

Há, ainda, muitas famílias que criticam a escola ou os professores porque falam de assuntos controversos. “Não, isso não cabe à escola, é uma coisa da família”. A escola, seja pública ou particular, tem o compromisso ético de mostrar como funcionam as coisas, de ajudar os estudantes a compreenderem o mundo.

Portanto, é um dever quando dizemos que a escola deva estar aberta ao que acontece no seu entorno (e esse entorno também é político).

Acho que isso é muito importante, porque, senão, desprotegemos os estudantes. Antes se dizia “há argumentos para protegê-los”. Mas deixamos desprotegidos porque a escola não contribui na formação de um pensamento, a ensinar a pensar, a ter um critério autônomo, portanto, a educá-los democraticamente.

John Dewey [o filósofo e pedagogo norte-americano], faz mais de um século, num livro que se chama A Democracia e Educação, dizia que “a educação não é só formar cidadãos para o futuro”, mas estamos educando e formando cidadãos já para esta escola democrática. Portanto, devemos nos comportar democraticamente, isso é poder falar e conversar sobre tudo o que acontece.

E isso não é só porque os alunos às vezes o pedem ou se interessam, mas também por um compromisso ético que você tem de mostrar-lhes como é o mundo.

E nessa viagem de descobrimento, complexa e apaixonante de ensinar como é a realidade, como foi historicamente, como eu sou, até onde vai o futuro, eu creio que você está educando neste sentido, porque educar não é só transmitir informação, conhecimento, mas também ensinar a relacionar essa informação, e que isso te leve ao conhecimento, e isso te faça pensar e a compreender uma série de fenômenos, que podem ser naturais, históricos, artísticos, de todo tipo.

 

Luciana: E como você nos trouxe agora a questão da escola, esse professor, com essas competências, encontra um ambiente de uma escola ainda em um outro modelo, um modelo ainda bastante fabril. A escola hoje não se adaptou a esse professor que nós sonhamos para o século XXI. Como é essa gestão da escola, como podemos fazer esta conexão para que todo o ambiente seja produtivo?

 Jaume: A escola “modelo dominante” é uma escola tradicional, antiquada, que ainda vive muito fechada em suas paredes de aula, e não vai passear, não conhece a cidade, não conhece a natureza.

E isso é assim porque há uma tradição muito arraigada, porque sempre foi assim, há muita rotina e, logo, há muito medo da inovação. Há muito medo na educação, e logo há também rotinas profissionais que já estão instaladas.

Por exemplo, se eu sempre trabalhei com o livro de texto e, basicamente, a estratégia foi “vocês, alunos, olhem o livro de texto, e eu fico com a palavra”, a palavra é só do professor, é muito difícil mudar, muito difícil modificar, porque isso quer dizer mexer com as ideias, mudar o pensamento, mudar a cultura.

Quer dizer também um compromisso, mais trabalho, portanto, envolver-se, arriscar-se, equivocar-se, e quer dizer também que isso, às vezes, abarca problemas com seus companheiros, com outros professores, pois pode haver críticas. Portanto, custa muito aos professores sair de sua zona de conforto.

 

Luciana: E como os professores conseguem garantir esse papel, fazer o seu papel em sala de aula e fora dela em cenários onde a democracia está ameaçada ou a escola realmente não tem tanta autonomia?

 Jaume: Eu acho que há uma primeira questão também, que é que o educador sente muita pressão, mas isso não acontece entre os professores do ensino infantil, porque uma criança de 2, 3 ou 4 anos é igual ao que estuda. Entretanto, quando começa o ensino básico, há muita pressão para terminar aquele programa. Qual é o problema? É que o currículo é cheio, acumulativo, de conteúdos impossíveis de compreender.

A cada vez que há uma reforma, seja na Espanha ou em qualquer outro lugar, reúnem-se os matemáticos, os cientistas, os linguistas, que olham o currículo e dizem: “Isto vai ter de ser incluído de novo”, porque o conhecimento vai mudando continuamente, e isso é verdade, você tem de introduzir e adicionar.

Mas hoje falam que “o que for ensinado aos alunos agora deverá ser mantido”, e com isso o currículo vai se estendendo, o que é impossível, e torna-o sempre acumulativo e, logo, também, memorizado. O problema é este: não é só o que é dado pelo currículo, mas também o que se transmite, pois esta ideia é transmissiva, e a memorização.

Os alunos “aprendem” isso e no fim de poucos dias “desaprendem”, se esquecem. Portanto, acho que aí existem muitas pesquisas psicológicas e pedagógicas sobre aquilo que realmente fica nas mentes, assimila-se, e tudo aquilo que depois de três meses, de uma prova tradicional, se esquece totalmente. Portanto, eu acredito que há muita pressão em terminar o currículo.

Existe também muita pressão das famílias, que querem que seus filhos aprendam a ler, a escrever aos 6 anos, que saibam tudo, que saibam inglês. Há uma competição. Então, as famílias também são uma pressão sobre a escola.

E também há uma pressão da família, que pensa que são clientes, que podem escolher seu produto, que é a escola.

Portanto, há aí uma incompreensão do trabalho por projetos, por exemplo, quando às vezes se diz que “não, não, destes temas não devemos falar”. E aí eu creio que uma escola democrática é a que está relacionada com o mundo, mas tem sua própria autonomia.

A escola democrática é regida por alguns princípios, por um projeto, por um trabalho colaborativo, porque é a formação. Outra coisa é que a família fale do que queira, mas a família, os pais, não têm o direito de exigir nada. Os pais e toda a população têm o direito de que seus filhos tenham uma boa educação.

Mas eles não podem e não têm o direito de decidir como tem de ser essa educação, do que se deve falar ou não falar, que é uma distinção importante. Eu acredito que a escola tem uma autonomia, porque o professorado é um grupo que tem uma experiência, um profissionalismo, que se forma continuamente – isto é o que se tem de fazer, mas às vezes, claro, isso é insuficiente.

E eu acredito que a escola deva manter uma autonomia, não só em relação aos pais, mas também às demandas do mercado. A escola não é uma empresa, e nem uma continuidade da família.

 

Luciana: E no entanto, a escola poderia ter este papel de engajar a família em seu projeto, o que eu acho que é uma dificuldade e um desafio.

 Jaume: Sim, eu creio que é importante – e eu defendo – que a escola democrática seja comunitária, que exista uma participação das famílias, claro, e que elas tenham conhecimento, que haja comunicação, informação e um entendimento, uma cumplicidade com o que se fala, o que se faz, a linha da escola, todas essas coisas.

Isso é uma coisa relevante também, que as famílias tenham a mesma formação dos professores. Existem experiências muito interessantes de escolas, de pais e mães, mas eu creio que eles também devam ter uma educação e uma formação permanente.

Parece-me importante que as famílias conheçam qual o projeto da escola, conheçam-no e o vivam-no. Há atividades em que participem – e isso acontece em muitas escolas –nas quais pais e mães vão contar contos aos pequenos, fazer oficinas, participam de projetos, falam de suas experiências profissionais, relatam uma viagem que tenham feito…

Portanto, eu creio que deva existir a colaboração, mas é bom que exista esta distinção: uma coisa que a colaboração parta deles, e outra, impor ou pensar que “eu tenho direitos, como um cliente, de escolher como deva ser o produto”.

 

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