Sobre compartilhar experiências e aprendizagens para ser e se tornar professor
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Sobre compartilhar experiências e aprendizagens para ser e se tornar professor

Instituto Singularidades

30 de outubro de 2020 | 11h32

Como tem sido, no contexto de aulas remotas, preparar os estudantes do curso de Pedagogia para serem professores? Toda profissão tem um saber da experiência vivida. No caso da formação inicial de educadores, o que é vivido como estudante na licenciatura já é um meta-aprendizado para a profissão: aprende-se sobre a docência enquanto a vivencia como estudante, no seu processo de aprendizagem como futuro professor.

Sendo assim, o que estamos aprendendo, professores e futuros professores, com a experiência do modelo remoto e que podem ser consideradas como meta-aprendizagem? Como os desafios vividos nesse momento, e que têm permeado as aprendizagens, nos ajudam a refletir sobre o que essa experiência, sobre ser professor e sobre se tornar professor?

Para significar essas aprendizagens, categorizei o vivido em cinco palavras-chave, que se constituem em formação para além do currículo explicitado. A meu ver, todas estão relacionadas com a ação docente e, consequentemente, com o perfil do professor que queremos formar.

No contexto das aulas remotas, como os futuros professores estão se preparando para os novos tempos? Imagem: Pixabay.com

A primeira palavra categorizada é ESCUTA. A pandemia, o distanciamento social e o ensino remoto nos colocaram num lugar de incerteza e de dúvidas, pela inexperiência da situação. A escuta das necessidades, dos sentimentos e das percepções, tanto dos estudantes, quanto dos professores, é o que vem dando base para os nossos alinhamentos e ajustes na interação a distância, na comunicação e na metodologia.

 

Essa troca para saber o que está funcionando e o que está dando errado, o perfil de cada turma de estudantes a partir do que eles nos dizem (como fazer com o cansaço de tantas horas de tela, quais as expectativas e frustrações em relação ao curso que era para estar acontecendo presencialmente, quais são as condições objetivas para estudar, entre outras colocações trazidas), as limitações percebidas pelo ensino remoto, principalmente na interação (sabem aquela situação de ser professor para estudantes com a câmera fechada?), e as descobertas daquilo que está indo bem, dão o suporte para os ajustes. Todos os pontos escutados são considerados no planejamento de cada aula. Por isso, a cada aula, um novo desafio se coloca.

A segunda palavra é COLABORAÇÃO. Existe um conhecimento próprio da ação docente que é construído na prática. É um saber da docência a partir da experiência. Se fomos todos colocados em uma situação inesperada e desconhecida, qual o caminho a percorrer?

A troca de conhecimentos, experiências e aprendizagens entre os professores, daquilo que foi vivido e experimentado por cada um, tem sido fundamental pra inspirar e embasar ações. Com a inspiração e a aprendizagem a partir da troca de experiências, cada professor adequa ao contexto de aplicação que implica em reponder questões como “por que”, “para quem”, “em quais as condições”.

A colaboração tem constituído o nosso fazer, tanto para o professor, quanto para os estudantes, futuros professores. Como a importância da colaboração se ressaltou no modelo remoto? Coloco, a seguir, três aspectos.

O primeiro aspecto é do ponto de vista instrumental, o conhecimento e o uso de ferramentas tecnológicas tornaram-se condição. Se antes não eram usadas é porque há uma parte do aprendizado profissional que vai se dando pela necessidade do contexto, e essa necessidade não estava posta com tanta intensidade. Entre outros motivos, o uso de diferentes ferramentas se tornou necessário para manter o engajamento dos estudantes.

Os professores, com essa condição, tinham experiências e perfis diferentes (desde aquele que, ao usar alguma ferramenta tecnológica, dizia que ficava nervoso e assustado; até aquele que buscava ferramentas e as experimentava com muita fluidez). O que essa diversidade nos propiciou? Que não há nada melhor que um professor formar outro professor por meio de suas experiências.

Ensinar o que sabe, e também dizer o que não sabe/conhece tem sido muito importante. É uma comunicação muito rica. O professor que era mais receoso precisou enfrentar o seu “medo da tecnologia”, o professor com mais familiaridade ampliou as suas descobertas.

O segundo aspecto é do ponto de vista metodológico: Como se desenvolve uma aula remota? Como é a interação? Como atender a todas as dúvidas dos estudantes? Como não tornar a dinâmica tão expositiva? Como engajar os estudantes? Como ser claro nas orientações de estudo? Embora eu esteja relatando as questões a partir das vivências em salas de aula de Ensino Superior, são questões que valem para qualquer situação de ensino-aprendizagem.

É pela troca sistemática entre a experiência de cada um dos professores que tem sido possível a elaboração de uma metodologia viável, que permita a aprendizagem dos estudantes. Isso é a construção de conhecimento própria da docência e que acontece por uma postura investigativa. Por isso as perguntas são tão importantes.

O terceiro aspecto a ressaltar nesse momento remoto, antes de passar para a próxima palavra-chave, é que essa colaboração nos garantiu também o sentimento de pertencimento. Estamos todos enfrentando novos desafios e precisamos trabalhar e construir conhecimento em grupo. As trocas nos trazem identificações e energia para recompor as ações.

A colaboração é requisito para a construção de conhecimento em rede. E, nessas trocas, os estudantes, futuros professores, também participam, ensinam e aprendem.

A terceira palavra-chave é INCLUSÃO, ou seja, nenhum a menos. Como manter todos bem, na medida do possível? Nenhum a menos é um valor. Criamos um fluxo de acompanhamento. Os professores compartilhavam, entre eles e com a coordenação, os estudantes com qualquer tipo de dificuldade: de conexão, problemas particulares, aqueles que manifestaram uma sensibilidade maior neste período, os que estavam com familiares doentes e os que não estavam se adaptando ao modelo remoto.

Com uma equipe de apoio, nós entrávamos em contato com cada um dos estudantes pra fazer duas perguntas fundamentais: Como você está? Como nós podemos te ajudar?

Como retorno a essa ação, notamos que isso fez, por exemplo, que tivéssemos uma evasão mínima no primeiro semestre de 2020. Foi possível resgatar estudantes que estavam na iminência de desistir de seus projetos profissionais.

Ou ainda que ajudássemos alguns deles a perceber, de forma consistente, que era preciso uma pausa, mas sem o sentimento de que havia colocado a perder todo um projeto profissional, mas sim que seria possível retomar depois.

Com isso tudo, ressalto a quarta palavra: EMPATIA, ou seja, o entendimento e a perspectiva do lugar do outro. A atitude empática de compreender as adversidades e limitações dadas pelo ensino remoto (e pela vida remota).

Situações de empatia que vão desde momentos em que a internet do professor cai e que a aula é interrompida, até o entendimento de que estamos todos vivendo um momento peculiar e que cada um reage de um modo diferente a essa situação.

Por fim, a quinta palavra: PROFISSIONALIDADE. Trata-se do conhecimento e saberes específicos da docência. Cabe ao professor ter a clareza de quais são os objetivos de aprendizagem que ele pretende que os estudantes atinjam e, portanto, qual caminho ele vai traçar para isso.

Pelas limitações impostas, é a capacidade do professor reformular as suas ações e definir quais conteúdos e estratégias serão priorizadas. Isso tem sido feito o tempo todo.

Para encerrar, podemos dizer que os desafios estão colocados no dia a dia da docência: cada aula tem uma superação. Exemplifiquei com algumas palavras-chave para representar isso. A aprendizagem propiciada pelo modelo remoto emerge das características de ser professor, que é uma profissão essencialmente relacional (escuta, colaboração, inclusão e empatia) e intencional (a profissionalidade ditada pela natureza dos saberes específicos da docência).

Serão as reflexões sobre o que foi vivido nesse período que propiciarão as mudanças e solidez nos processos e na cultura escolar, após esse momento. Quem são os nossos alunos e como eles se transformaram, assim como também sobre quem somos nós, professores, e como nos transformamos.

E confiamos que os futuros professores, estudantes do curso de Pedagogia, que viveram/estão vivendo essa meta-aprendizagem, contribuirão bastante para propiciar mudanças e para uma ação que solidifique pontos fundamentais como a aprendizagem em rede, a imersão na cultura digital e suas decorrências, e a necessidade de uma abordagem humanista no ensino.

Cristina Nogueira Barelli é coordenadora do Curso de Pedagogia do Instituto Singularidades

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