Refletindo sobre a adequação curricular nas aulas de matemática
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Refletindo sobre a adequação curricular nas aulas de matemática

Instituto Singularidades

18 Maio 2018 | 18h54

Refletindo sobre a construção do conhecimento matemático no âmbito da educação especial, convido o caro leitor a pensar sobre a gestão dos conhecimentos produzidos na comunidade de aprendizagem e na pertinência do que podemos descrever como ‘adequação curricular’, uma prática docente muito discutida quando lidamos com alunos público-alvo da educação especial (alunos com deficiência, alunos com transtorno global do desenvolvimento e alunos com altas habilidades/superdotação).

Observando a história do Egito Antigo, encontramos uma curiosidade pertinente nesta reflexão: alguns egípcios tinham conhecimento matemático sobre uma instalação provida de um poço e uma escada que permitia a medida da cheia do rio Nilo e que denominavam como nilômetro. Tal instrumento, que perdurou como um recurso de dominação, era utilizado pelo Faraó para sufocar possíveis rebeldias. O nilômetro era como um ‘dispositivo admirável para a época’, pois contribuía para o prestígio do Faraó e dos sacerdotes que o cercavam, fazendo com que o povo, que por sua vez desconhecia seu funcionamento, dependesse cada vez mais do Faraó e de seus conhecimentos ditos ‘divinos’.

A partir desta curiosidade histórica da antiguidade, destaco como o saber se constitui como uma forma de validar a autoridade, e é justamente com esta discussão que penso sobre como o saber elencado no currículo escolar, pode também ser direcionado para validar o poder, ou até mesmo para trazer a existência, motivações, desejos e interesses de determinados grupos sociais ou até mesmo o que é reconhecido por uma possível ‘maioria’.

Pensarmos em adequação na educação matemática, remete-nos facilmente a um caminho que se inicia no modelo educacional e curricular já convencionalizado pela sociedade, e que comumente entende, por exemplo, que os alunos ao final do 9º Ano do Ensino Fundamental precisam estar aptos a resolver problemas que possam ser representados por equações polinomiais do 1º grau.

Uma adequação curricular, considera, nesse caminho didático, o que se pode planejar tendo em vista o alcance da finalidade social desta adequação, ou seja, sairmos do comodismo de estratégias, métodos, modelos e algoritmos já fixados historicamente e pensar no que se pretende alcançar no campo das práticas cotidianas, empoderando o aluno para uma maior participação como membro da comunidade em que está inserido.

Retomando o exemplo de alunos que ao final do 9º Ano precisam resolver problemas representados por equações polinomiais do 1º grau, podemos observar que a representação de tais problemas por expressões utilizando incógnitas e numerais não pode ser, no âmbito da adequação curricular, a única forma de representação. A Educação Matemática tem atualmente promovido pesquisas que destacam as diferentes possibilidades no pensamento algébrico, estimulando  ampliar estratégias e formas de representação na Matemática – uma ampliação essencial no caminho didático da adequação curricular.

A formação de professores de Matemática

No Curso de Licenciatura em Matemática do Instituto Singularidades é comum, por exemplo, a discussão sobre a diversidades de estratégias e linguagens no ensino de Matemática. Os futuros professores já estão estudando, nesse curso, movimentos importantes e que contribuem para a adequação curricular, como, por exemplo, o Desenho Universal de Aprendizagem, uma abordagem que tem fundamentado a prática docente de vários professores em diferentes países.

A comunidade escolar deve trazer no seu lidar didático a concepção de que uma escola pode ser considerada inclusiva quando, na sua organização política, arquitetônica e pedagógica, são favorecidos a matrícula, a permanência e o desenvolvimento escolar de todos os alunos, independentemente de sua etnia, sexo, gênero, idade, especificidade, condição social ou qualquer outra situação, assim como bem define a Declaração de Salamanca (1994).

O que desejo destacar aqui é a necessidade contemporânea do professor de Matemática não receber o ‘aluno com deficiência’, o ‘aluno surdo’, o ‘aluno considerado em situação de inclusão’ ou outras terminologias que acabam sendo utilizadas na educação, mas receber ‘o aluno’, uma pessoa que por mais limitações que apresente, precisa ser reconhecido na comunidade escolar pelas suas potencialidades e em sua singularidade, e não apenas por suas necessidades. Somente a partir deste reconhecimento é que podemos partir para uma reflexão sobre a sua individualidade em meio a diversidade, promovendo uma adequação curricular que atenda cada um dos diferentes alunos de uma turma.

A adequação curricular, não apenas beneficia um aluno ou a um grupo de alunos em específico, mas deve ser um exercício docente contínuo, considerando a diversidade. É partindo desse ideal que a comunidade escolar poderá fundamentar o movimento de educação inclusiva e redimensionar os planejamentos relacionados ao processo educacional. O redimensionamento que trazemos como possibilidade, permitirá que o processo de adequação curricular seja constantemente revisto, promovendo a construção de uma escola centrada na ética, no respeito às individualidades e à diversidade, pois reconhece, por meio do redimensionar de ações e planejamentos, que o erro faz parte do processo de mobilização da comunidade que busca ser inclusiva.

Elton de Andrade Viana é professor do curso de licenciatura em Matemática do Instituto Singularidades. Contato: elton@singularidades.com.br