Qual a pertinência de pensarmos na inclusão no campo da Educação Matemática?
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Qual a pertinência de pensarmos na inclusão no campo da Educação Matemática?

Instituto Singularidades

31 de maio de 2021 | 14h23

Antes de qualquer avanço no debate sobre a inclusão e a Educação Matemática é imprescindível tecermos alguns parágrafos sobre a compreensão aqui atribuída ao conceito de inclusão. O campo da educação apresenta um campo discursivo marcado pela ambiguidade de seus termos, diferentemente de outras áreas cujos termos são mais precisos, pois são vistos sob um olhar stricto sensu.

A palavra “inclusão” é um desses termos polissêmicos utilizados na educação, pois ganha um sentido a partir do lugar social e dos interesses políticos e econômicos do interlocutor. O termo “inclusão” no âmbito da educação inclusiva tem como princípios uma educação pela não discriminação, considerando as pessoas diferentes, nas suas múltiplas capacidades, jeitos, condições e outras diferenças, as quais se apresentam não apenas no campo biológico e social, mas também nos campos econômico, cultural, linguístico etc.

No que se refere às diferenças socioeconômicas, o Banco Mundial fala sobre a necessidade da “inclusão social”, que para esse grupo é:

 

[…] um processo que garante às pessoas em risco de pobreza e exclusão social ganhar as oportunidades e os recursos necessários para participar plenamente na vida econômica, social e cultural para desfrutar de um padrão de vida e bem-estar que é considerado normal na sociedade em que vivem. Garante uma maior participação na tomada de decisões que afetam suas vidas e acesso aos seus direitos fundamentais. (apud GARCIA, 2014, p. 110).

 

Em um país que apresenta uma histórica concentração de renda e uma consequente estrutural desigualdade social, que reverbera na falta de acesso a uma educação significativa e transformadora, faz todo sentido falar em “inclusão”, no sentido da “inclusão social”.

 

A pandemia mostrou que a necessidade de oferecer uma educação mais inclusiva e que atenda às necessidades e dificuldades dos e das estudantes é fundamental, também na aprendizagem matemática. Imagem: Freepik

 

Assim como já indicado na literatura produzida na área educacional, no Brasil, a inclusão no cenário escolar é entendida a partir de duas tendências distintas. Uma delas busca por meio de uma abordagem mais geral, pensar na inclusão de grupos de pessoas que no nosso país apresentam um histórico marcado por processos excludentes significativos, no qual observamos as reflexões que se montam em torno de temáticas como gênero, etnia, cultura etc.

Já a outra tendência, é relacionada especificamente ao grupo das pessoas com deficiência, onde observamos reflexões anunciadas como da educação inclusiva como sendo necessariamente relacionadas à Educação Especial, o que conceitualmente é um equívoco, já que pensar em educação inclusiva significa pensar na inclusão segundo a primeira tendência que trazemos aqui, ou seja, pensar na inclusão de grupos marcados pelos diversos processos excludentes que emergiram ao longo dos anos em nosso país.

Mas qual a pertinência de pensarmos na inclusão no campo da Educação Matemática? De acordo com o que apontamos aqui, uma prática docente do professor que ensina matemática com uma perspectiva inclusiva demanda uma abordagem pautada na compreensão das limitações e dificuldades apresentadas por todos os estudantes.

Isso não significa apresentar conteúdos “adaptados” (eliminação ou alteração de partes do conteúdo que o estudante não vai assimilar/entender), mas sim pensar no ressignificar da prática no campo das interações pedagógicas que se criam na sala de aula de matemática, dos recursos comumente oferecidos na aula e as estratégias e procedimentos que são empregados com a turma de estudantes.

Também não estamos propondo que se desenvolvam aulas diferenciadas para cada aluno, mas que elas sejam planejadas de modo a atender todos os estudantes segundo as necessidades educacionais que cada um apresenta, em que as práticas e estratégias devem ser pensadas de modo a considerar as possibilidades de acordo com as especificidades de aprendizagem que se mostram nas diferenças.

No contexto da sala de aula de matemática, promover atividades e apresentar situações de aprendizagem que permitam aos estudantes trocarem ideias e experiências, pode ser uma alternativa importante. No Instituto Singularidades, temos desenvolvido no curso de Licenciatura em Matemática, uma imersão dos futuros professores  em momentos de reflexão e produção de estratégias e recursos que viabilizem o ensino de matemática com uma perspectiva mais inclusiva, e voltada para as diferenças humanas.

Nas experiências que temos conduzido com esses futuros professores, observamos que o discurso que pauta a inclusão como um campo de reflexão exclusivo para as zonas de inquérito que emergem da Educação Especial, está sendo superado, tendo em vista a forma como as outras diferenças humanas se revelaram como urgentes no campo da prática pedagógica.

Terminamos nossa breve reflexão convidando o nosso estimado leitor a pensar sobre quais são as diferenças que se revelam na sala de aula, e que se destacaram significativamente nos últimos meses.

A pandemia de Covid-19, que no campo do discurso que se estrutura na inclusão escolar, revelou as diferenças principalmente no cenário tecnológico e econômica, é um exemplo de como precisamos ampliar nossas reflexões sobre o real conceito de inclusão, que assim como buscamos definir no início deste texto, pode ser entendido a partir do prisma socioeconômico.

 

REFERÊNCIA

GARCIA, R. M. C. Para além da “inclusão”: crítica às políticas educacionais contemporâneas. In: EVANGELISTA, O. (org.). O que revelam os slogans na política educacional. 1. ed. Araraquara, SP: Junqueira&Marin, 2014. p. 101-140.

 

Antonio Alexandre Ap. da Silva, Elton de Andrade Viana e Fernando Bianco Solano são professores da graduação em Matemática do Instituto Singularidades

 

Para saber mais: http://institutosingularidades.edu.br/novoportal/
Entre em contato:singularidades@singularidades.com.br

 

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