Por que a avaliação em Artes?
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Por que a avaliação em Artes?

Instituto Singularidades

29 de janeiro de 2021 | 15h13

A pergunta que não quer calar: por que avaliar os alunos na área de Artes, uma vez que esta se abre para outra linguagem, que é a expressão da subjetividade? As escolas exigem notas. Quais os parâmetros que os professores e coordenadores utilizam nessa equação entre as aulas e a atribuição de um valor?

Em que critérios se baseiam os educadores para essa avaliação? As expressões artísticas são passíveis de serem mensuradas e transformadas em um símbolo/nota? Como avaliar processo e produto e por que separá-los, se o segundo é o primeiro em andamento, e o produto é a conclusão do processo?

Vamos partir de uma história escolar marcante, sobre aula de dança, para que enquanto vocês leiam, já comecem o processo de reflexão que os convidarei a fazer comigo. Minha filha, então uma criança de 10 anos, estudava em uma boa escola construtivista, onde as Artes sempre foram valorizadas, principalmente as visuais. Minha filha era bem tímida, inibida, se sentia muito desconfortável em se expor, e provavelmente tinha um medo acentuado do julgamento dos outros.

No final do 4º ano do Fundamental I, no último bimestre, a professora de dança não sabia como avaliá-la, pois ela se recusava terminantemente a dançar e, a cada pressão que sentia da parte da professora, piorava a situação.

Em um domingo, ela começou a chorar, porque teria aula daquela disciplina no dia seguinte, e argumentava que tinha perdido o caderno de dança. Depois de uma busca, ele foi encontrado em casa e, embora parecesse que sua angústia se encerraria naquele momento, o encontro do caderno fez com que ela chorasse mais ainda! “Opa, aí tem coisa!”, pensei. Foi então que ela se abriu, descrevendo o que estava acontecendo.

Fui para a escola e conversei com a professora, que argumentava que minha filha se recusava a dançar e, desta forma, não teria como atribuir-lhe uma nota, e que “se todos podiam dançar, por que somente ela não?”. Disse, ainda, que a avaliação em dança era como em qualquer outra matéria, e completou exemplificando o caso da Matemática. “Tem que fazer, não tem essa estória. Por que que a dança seria diferente?”, disse ela.

Soube que a professora levou minha filha à coordenadora, que parecia ser uma pessoa sensata, mas mostrou-se ainda mais perdida que a própria professora. Duas adultas sem saber o que fazer com uma criança que não “quer”, ou melhor, que não consegue dançar na frente dos colegas.

A própria coordenadora relatou que ela sugeriu que minha filha “desse ao menos uma dançadinha” (palavras dela), que poderia inclusive fazê-lo junto a ela, só para constar a ação e, assim, permitir que a professora lhe atribuísse uma nota.

“Dar uma dançadinha”. Isso nunca saiu da minha cabeça! Que despreparo! O que significa isso? Duas educadoras presas em amarras, em pensamentos obtusos, diante de um “impasse” paralisante. Neste momento, parece que todas as ferramentas possíveis para uma avaliação desapareceram.

O respeito pela singularidade se extinguiu; a sensibilidade desvaneceu; o afeto sumiu; a maturidade passou ao largo; ignorou-se os sinais dados por essa criança ao longo do semestre, ou seja, a expressão da subjetividade foi rejeitada, desdenhada, e outras soluções foram descartadas.

O pior vem em seguida, com a acusação voltada para a própria criança, alegando que esta “não queria colaborar”. Quanto equívoco! Quanta exposição desnecessária! Sem falar que a comparação de uma avaliação em matemática com uma de artes é totalmente arbitrária.

Garanto que a Arte nunca foi uma ciência, e muito menos uma ciência exata. Ela é um caminho de expressão da realidade interior de seu criador, e para que este o siga no seu desejo de se expressar, deve haver segurança, tranquilidade e liberdade.

Ao avaliar os estudantes, o professor de Artes deve levar em conta as singularidades de cada um deles. Imagem: Emily Webster/Unsplash

Na faculdade de Pedagogia do Instituto Singularidades, onde sou responsável pelas aulas de Oficina de Artes Visuais, Música, Jogos e Brincadeiras, no final do semestre, sempre digo aos alunos que eles devem atribuir a si mesmos uma nota para constar no boletim.

Em seguida, peço que escrevam qual foi a palavra (ou palavras) que vieram às suas cabeças, assim que ouviram o meu pedido de “atribuírem uma nota”. A partir deste material iniciamos uma conversa. O que aparece constantemente e em primeiro lugar são: interesse, participação, desenvolvimento, aprendizagem e presença, em seguida: engajamento, dedicação, atenção, capricho e outros.

Estas expressões verbais já nos proporcionam um bom material para começarmos uma reflexão. Todos esses conceitos são debatidos com profundidade, a fim de que saiamos do “lugar comum” – desta herança adquirida pelas nossas próprias experiências escolares.

Desta lista, elejo presença como a mais importante. Sim, o aluno deve estar na escola para que as demais palavras possam ou não acontecer! Como não é possível discutirmos neste artigo tudo o que surgiu ao longo destas interações com os alunos, escolhi dois conceitos para pensarmos juntos:

Participação – o que é? Que modelo temos de participação? Participar é falar, agir, opinar, movimentar-se? Participar é sempre uma ação de comunicar-se, expor-se, compartilhar? Observar é participar?

Que relação existe entre participar e sentir-se bem! Participar está na ação concreta ou está atuando nas subjetividades? Ela pode ser medida? Pode ser transformada em símbolo/nota? Por que? É importante observar que a participação pode ter muito mais sutilezas do que somos capazes de apreender!

Interesse – quem é que desperta o interesse dos alunos? Por que os alunos  se interessam por algumas atividades e por outras não? Como provocar o interesse de todos? Como captar o interesse e a potência de cada um? Quem é o adulto, responsável, educador, sensível que se coloca diante destes desafios? Que adaptações seriam necessárias fazer para que o interesse atinja os alunos?

Nunca poderemos esquecer que as crianças são sensíveis, criativas e exploratórias! Sim, são muitas questões que exigem um pouco mais de trabalho, pois não existe uma resposta pronta.

No entanto, precisamos sair do modo automático e parar de repetir frases tão pouco construtivas, como “o aluno não tem interesse”, uma vez que seus efeitos só fecham portas e não abre nenhuma possibilidade de questionamento.

 

Ana Tatit é mestre em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina (FSM) e graduada em Artes Visuais pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). É professora do curso de Pedagogia e coordenadora do curso de Pós-graduação Latu Sensu “A Arte de Ensinar Arte”, ambos no Instituto Singularidades. 

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