Onde a escola deve se colocar na Quarta Revolução Industrial?
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Onde a escola deve se colocar na Quarta Revolução Industrial?

Instituto Singularidades

05 Novembro 2018 | 17h45

A espécie humana vem promovendo grandes transformações na natureza e na sociedade desde a revolução agrícola, há 10 mil anos atrás, a partir de sua capacidade de observar a natureza e domesticá-la. De organismos nômades, catadores e coletores, passamos a ser grande produtores de alimentos, fixando-nos em vastas extensões de terra.

Podemos afirmar que a Primeira Revolução Industrial teve tanto impacto para nossa espécie como a domesticação de plantas e animais. A partir do século XVIII, com a invenção da máquina a vapor iniciou-se um processo radical de substituição da força muscular pela energia mecânica.

A Segunda Revolução Industrial se deu pela introdução da eletricidade na produção industrial e o desenvolvimento da linha de montagem, quando se estabeleceu a cultura de massas e de largas produções.

Apenas nos anos 1960 iniciamos a Terceira Revolução Industrial, com a descoberta e uso tecnológico dos semicondutores, que permitiram o aperfeiçoamento de grandes computadores e dos computadores de uso pessoal.

Embora essas três fases de desenvolvimento industrial tenham sido cruciais para o crescimento das populações humanas e seus grandes centros urbanos mantidos pela produção agropecuária em larga escala, nos últimos anos estamos vendo o florescer de um quarto movimento, sem precedentes na nossa cultura.

Se o tear automático levou 120 anos para ser distribuído por toda a Europa, a internet foi capaz de atingir quase todo o planeta em menos de 10 anos. A grande novidade da Quarta Revolução Industrial está em sua velocidade, amplitude e abrangência.

 

Um novo mundo digital

A cultura digital vem trazendo transformações em todos os níveis de atuação humana, alterando decisivamente a economia, as relações sociais e o impacto de nossa ação em todo o planeta. A base dessa construção cultural foi o avanço do conhecimento e das tecnologias associadas aos diferentes saberes por nós produzidos.

Apenas um único indivíduo, Steve Jobs, foi capaz de alterar seis indústrias como a dos computadores pessoais, a dos filmes de animação, a indústria fonográfica, a telefonia, as publicações digitais, a distribuição de conteúdos digitais baseados em aplicativos e até mesmo as lojas de varejo. Em poucos anos (velocidade), praticamente todo o planeta (amplitude) e todas as ações humanas (abrangência), sofreram modificações pela interferência digital.

As grandes transformações ocorreram principalmente pelo desenvolvimento de algoritmos. Um algoritmo é um conjunto metódico de passos que pode ser usado na realização de cálculos, na resolução de problemas e na tomada de decisões. Uma receita culinária é um algoritmo, as relações entre as bases de um DNA são algoritmos (lembra do A com T, do C com G do colégio), reações químicas são algoritmos.

Assim com a revolução agrícola foi a domesticação de plantas e animais, a Primeira Revolução Industrial foi a transformação de energia muscular em mecânica, a indústria 4.0. é a transformação de tudo o que conhecemos em algoritmos. Matematizada a natureza, construídas regras lógicas, vem sendo possível fundir o mundo físico e biológico ao digital.

Um conjunto de novas tecnologias e métodos baseado em algoritmos vêm surgindo com uma velocidade espantosa. Entre estes, podemos citar a Inteligência Artificial (IA), a robótica, a internet das coisas, a impressão 3D, a nanotecnologia, a biotecnologia, a ciência dos materiais, o armazenamento de energia e a computação quântica.

A indústria 4.0 vem trazendo grandes desafios econômicos e comportamentais. É inegável que as novas tecnologias digitais trazem consigo uma grande eficiência na elaboração de produtos e serviços, com custos baixíssimos e impensável capacidade de escala. No entanto, essas características afetam diretamente a oferta de empregos.

Um único caso pode descrever dramaticamente o impacto dessas tecnologias: nos anos 1990, Detroit era um dos maiores centros automobilísticos do mundo. As três maiores empresas de automóveis possuíam um valor de mercado de 36 bilhões de dólares, faturavam 250 bilhões e geravam 1,2 milhões de empregos.

Em 2014, as três maiores empresas do Vale do Silício tinham um valor de mercado de 1,1 trilhão de dólares, haviam gerado os mesmos 250 bilhões de dólares e empregavam 10 vezes menos, em torno de 137 mil empregados. Hoje, Detroit é praticamente uma cidade fantasma, enquanto o Vale do Silício talvez seja o lugar mais próspero do planeta.

 

O lugar da escola neste novo mundo

Tamanha transformação nas relações econômicas e no mundo do trabalho gera uma grande preocupação nas políticas públicas de incentivo ao capital e de oferta de serviços à população. Particularmente a escola, comumente lenta em promover transformações, encontra-se em um grande dilema: presa à tradição do ensino, visto pelas famílias como valor e elemento de confiança, já não é mais capaz de responder às necessidades desse mundo 4.0. Ainda conectada ao fordismo, tem enorme dificuldade em estimular novos comportamentos necessários para um mundo sem empregos.

Para que a escola não perca sua relevância, deve promover mudanças radicais em seus currículos, tarefa difícil para essa instituição tão presa à tradição. Num mundo com oferta de empregos em declínio, a capacidade de empreender e oferecer soluções criativas para as dores da sociedade será fundamental.

Do carro sem motorista à leitura de contratos, do diagnóstico de doenças à leitura de DNA, velhas funções vão desaparecendo e novas oportunidades surgem. Quais as habilidades deverão ser estimuladas e desenvolvidas na escola?

Seguramente, as habilidades cognitivas ligadas à investigação (observar, registrar, analisar, interpretar), habilidades de conectar conhecimentos de diferentes campos e enxergar de maneira sistêmica, a capacidade de resolver problemas complexos, criar processos, desenvolver habilidades sociais e de gestão de recursos, entre outras.

Todas essas são características necessárias para empreender, seja para a resolução de problemas relacionados ao mundo do trabalho, seja às questões sociais ou dos ambientes naturais. A regra será adaptar-se à velocidade das mudanças e à capacidade de criar soluções alternativas para velhos e novos problemas.

Dessa maneira, diminuir o tempo de exposições, aumentar o tempo de colaborações utilizando desafios cognitivos, transformando problemas em elementos lúdicos para a reflexão e a ação, ouvir as demandas individuais em engajar os estudantes no aprendizado a partir de seus interesses particulares será fundamental para formar um cidadão adaptado a um mundo cambiante e para a nova revolução industrial.

Entender que o processo de aprendizagem se estenderá por toda a vida e transformará as empresas em instituições “aprendentes”e formadoras será fundamental para a sobrevivência destas, e a preparação de trabalhadores adaptados aos novos tempos, de incerteza, flexibilidade e de constante inovação.

Miguel Thompson é Diretor de Operações do Instituto Singularidades.  Licenciado em Biologia pela Universidade Mackenzie, doutor e mestre em Oceanografia pela Universidade de São Paulo (USP), Thompson também tem um MBA em Markting pela Fundação Instituto de Administração, da mesma instuição. 

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