O formador do professor não ensina o que diz, mas o que ele é e faz na sala de aula dos cursos de docência
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O formador do professor não ensina o que diz, mas o que ele é e faz na sala de aula dos cursos de docência

Instituto Singularidades

02 Março 2018 | 23h55

Minha experiência com a formação de professores tem me feito acreditar que os cursos de docência não são e não podem ser um curso de graduação como outro, devido ao papel fundamental que têm em toda a educação básica. Formar professores neste milênio é, ou deveria ser, muito diferente de formar professores como há quarenta anos, quando ainda predominava o ensino conteudista e voltado, exclusivamente, para a cultura escrita e impressa – a cultura do papel.

Repensar papéis

Para o estudante dos cursos de docência, a transformação de ouvinte passivo de aulas expositivas em construtor de conhecimentos não se dá automaticamente, pois, mesmo os jovens ingressantes, na maioria das vezes, também tiveram experiências de aprendizagem baseadas em aulas expositivas e na transmissão de conteúdos. Por isso, não é simples, para esse estudante, futuro professor, desconstruir ideias cristalizadas e ultrapassadas sobre o que é ser estudante e ser professor. Mas é necessário repensar estes papeis nos dias de hoje, pois, por influência principalmente das tecnologias digitais, as formas de aprender e de ensinar são outras, os espaços de aprendizagem são vários, aprendemos com professores, mas também com colegas e autonomamente e já reconhecemos que pessoas diferentes aprendem em tempos e de modos distintos.

Alunos do curso de Letras do Instituto Singularidades. Fonte: arquivo institucional

Reconhecer a mudança nos paradigmas de ensino e de aprendizagem e os impactos dela nas práticas pedagógicas condizentes aos dias atuais não acontece apenas com a leitura de textos ou com discussões em sala de aula. Um professor leva para sua prática muito daquilo que vivencia como aluno – o currículo vivenciado. Isso justifica continuarmos exercendo práticas obsoletas, mesmo conhecendo e concordando com pesquisas que mostram novas formas de ensinar e de aprender. Se não temos novas referências práticas, corremos o risco de repetir o que já conhecemos, o que nos permite permanecer, ainda que não intencionalmente, na “zona de conforto”. Se conhecemos o novo apenas teoricamente, corremos o risco de acreditar que estamos desenvolvendo novas práticas, mas, muitas vezes, travestidas de novas apenas pelo uso de outra roupagem, como as velhas práticas que se repetem por meio de novas tecnologias. A metodologia, os modos de ensinar e de aprender não se alteram, mas a proposta envolve novos e sofisticados instrumentos e ferramentas.

Transformar a prática pedagógica, adequando-se às demandas da sociedade contemporânea e às formas de participação e de transformação social, requer que estudantes dos cursos de docência vivenciem práticas semelhantes às que esperamos que eles realizem no seu exercício pedagógico.

Relação entre formação e prática docentes

A formação e a prática docentes precisam ser coerentes entre si. Se esperamos da Educação Básica a formação de crianças e adolescentes protagonistas na construção dos seus conhecimentos, é de se esperar que seus professores também tenham vivenciado algum protagonismo e que suas experiências como estudantes (pelo menos na formação docente) tenham extrapolado o “recebimento” de informações e o estudo de disciplinas estanques. É de se esperar que os futuros professores tenham vivenciado experiências que se aproximem de propostas instigantes, desafiadoras, contextualizadas, interdisciplinares e socialmente relevantes. Afinal, dificilmente o professor terá condições de facilitar o desenvolvimento no outro daquilo que não teve oportunidade de desenvolver em sim mesmo.

Nesse sentido, a aula expositiva e o professor palestrante são apenas um dos recursos possíveis na sala de aula e não atingem a todos da mesma forma. A coexistência de variadas modalidades de ensino (projetos, aprendizagem baseada em problemas, atividades colaborativas, diferentes tipos de pesquisa orientada) e de diferentes formas de avaliação, assim como práticas de feedbacks que promovam o avanço do aluno no seu aprendizado e não apenas a constatação do erro, precisam ser experimentadas pelo estudante de docência e não devem ficar restritos à educação das crianças e adolescentes. Afinal, o período de formação docente é um importante momento em que o professor experimenta o papel do seu futuro aluno, ressalvadas as proporções de idade e nível de escolaridade.

Jordana Thadei é professora do curso de Letras do Instituto Singularidades. Contato: jordana@singularidades.com.br