Educação Matemática: o emergir da neurodiversidade como um novo paradigma
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Educação Matemática: o emergir da neurodiversidade como um novo paradigma

Instituto Singularidades

30 de novembro de 2020 | 18h12

A Educação Matemática é atualmente uma área interdisciplinar, que se ocupa com o estudo e a pesquisa de processos que convergem no ensino e na aprendizagem de matemática nos diferentes níveis de ensino. Assim como é defendido por alguns pesquisadores, podemos entender a Educação Matemática muito mais como uma atitude científica, considerando a forma como se consolidou no cenário internacional.

Como área investigativa, a Educação Matemática se consolidou a partir da criação da Comissão Internacional do Ensino de Matemática em 1908, na ocasião do Congresso Internacional de Matemáticos, ocorrido em Roma (Itália). Essa comissão foi liderada pelo matemático alemão Felix Klein (1849-1925), que defendia uma maior atenção as bases psicológicas do ensino da matemática no espaço escolar.

É comum entendermos esse momento como uma atitude científica, tendo em vista que, nesse momento da história, os próprios matemáticos tomam a iniciativa de se considerar as discussões que se inserem no campo do ensino como particulares e dignas de um tratamento específico.

Como outras áreas do conhecimento, a Matemática também deve levar em conta a diversidade humana quando ensinada. Imagem: Acervo Singularidades

 

A Matemática e a diversidade humana

Apesar de a Educação Matemática ser constituída internacionalmente no início do século XX, sua constituição como uma área de pesquisa e estudo no Brasil se deu apenas no final da década de 1980 e início de 1990.

Neste momento, a área se estabeleceu de forma muito incipiente e restrita a alguns trabalhos acadêmicos, e a publicação de duas revistas científicas que até hoje são editadas no nosso país: o Boletim de Educação Matemática (Bolema) e Zetetiké.

Assim, pensarmos na Educação Matemática como uma área de estudo no território brasileiro, já significa considerarmos a sua recente consolidação no nosso país. Mas quais são as perspectivas que se destacam nessa área atualmente?

Nos últimos anos, como pesquisador dessa área, tenho observado com os demais colegas de estudo e pesquisa, um novo foco que desde a década de 1990 foi introduzido no panorama investigativo, e que se volta para as diferenças e os pressupostos da inclusão.

Esse novo foco, motivou os estudos desenvolvidos desde essa década, a buscarem em suas zonas de inquérito respostas para o alcance de um ensino de Matemática mais equitativo e próximo de uma realidade que sempre existiu, mas que até então era desconsiderada: a diversidade humana.

Esse conjunto de estudos que se desenvolvem nos últimos anos, mantém um interesse intenso em refletir e pesquisar os aspectos epistemológicos que se adunam na discussão sobre grupos de estudantes que ao longo dos anos, foram estigmatizados e rotulados por distintos processos excludentes ocorridos no país.

É nessa nova dinâmica de estudar, pesquisar e investigar no campo do ensino de matemática, que grupos como o das pessoas surdas, protagonizam uma discussão que contempla tanto aspectos culturais e sociais como os linguísticos e epistemológicos sobre o ensino de matemática.

Como pesquisador que se ocupa especificamente com a área do autismo, observo que, nos últimos anos, reflexões sobre tópicos comumente entendidos como uma deficiência ou um transtorno, se tornaram de ordem identitária, movidas muito mais por um modelo social do que um modelo médico-pedagógico.

Essas reflexões foram evidenciadas no grupo dos estudantes surdos no início do século, mas com outros pesquisadores que se ocupam com estudos com uma perspectiva inclusiva, observo que esse tipo de reflexão se repete recentemente no grupo dos estudantes autistas.

Partindo de bases sociológicas, observamos nos últimos anos o que hoje entendemos como paradigma da neurodiversidade, que enquadra o autismo como uma das diferenças que se observam na diversidade humana.

Da mesma forma que os seres humanos se distinguem no gênero, na cor de pele, e em tantas outras categorias que aqui poderíamos enumerar, ainda existe a possibilidade de diferenciarmos as pessoas no campo da neurodiversidade, onde encontraríamos tanto pessoas típicas, que estão alinhadas com as formas de interação e comunicação assumidas no grupo social, como pessoas atípicas, que se distanciam dessas convencionalidades do grupo.

A neurodiversidade começou a ser introduzida no cenário internacional na década de 1990, quando grupo de autistas participam de um movimento intenso de comunicação e troca de experiências, um movimento impulsionado pela internet.

Existe um consenso de que o termo neurodiversidade foi cunhado pela socióloga australiana e autista Judy Singer, com a publicação de um texto que resultou de sua tese de doutorado, no entanto, também é considerado como um marco importante a publicação de um artigo escrito por um jornalista amigo da Singer e que foi publicado na revista The Atlantic, em 1998.

Atualmente, já existem estudos que se ocupam em entender o ensino de Matemática a partir do paradigma da neurodiversidade, distanciando-se de critérios diagnósticos e princípios médicos sobre o grupo dos estudantes autistas, mas reconhecemos que essa é ainda uma ocupação investigativa recente no Brasil.

Termino esse artigo, provocando o leitor a pensar um pouco mais sobre esse paradigma, e como uma visão mais fundamentada em aspectos das diferenças humanas do que em laudos médicos e relatórios da área da saúde pode introduzir um ensino mais equitativo, e que tenha pressupostos mais inclusivos como subjacente tanto na investigação e na pesquisa como na prática do professor no ensino de matemática.

 

Elton de Andrade Viana é professor no curso de Licenciatura em Matemática do Instituto Singularidades. Também atua como pesquisador da Educação Matemática Inclusiva, com estudos que se concentram na área do autismo e da neurodiversidade.

 

Para saber mais: http://institutosingularidades.edu.br/
Entre em contato: singularidades@singularidades.com.br

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.