Direito à educação – 6 mulheres que lutaram e lutam pela educação de meninas e mulheres
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Direito à educação – 6 mulheres que lutaram e lutam pela educação de meninas e mulheres

Instituto Singularidades

30 de setembro de 2021 | 14h09

A possibilidade de aprender a ler, escrever, adquirir novos interesses e ganhar novos interesses é definitiva na vida de todos os cidadãos. Entretanto, quando fazemos um recorte por gênero, a educação tem um poder ainda mais transformador para as meninas e mulheres, tornando-as agentes de mudança nas comunidades e sociedades em que vivem.

Mas num mundo que ainda deixa a desejar no quesito igualdade de gênero, elas continuam sua luta por direitos fundamentais. Em 2017, o movimento Todos Pela Educação realizou um levantamento que mostrava que 43% das meninas brasileiras de 14 a 17 deixaram a escola por estarem grávidas, serem responsáveis pelo trabalho doméstico ou do cuidado com filhos, irmãos menores ou idosos.

Em comparação com a mesma faixa etária do gênero masculino, só 0,4% abandonaram os estudos por serem responsáveis pelo cuidado de alguém, aponta o mesmo estudo.

Esta triste realidade é enfrentada por outros países pobres ou em desenvolvimento, na América Latina, na Ásia e na África. Nestas localidades, muitas meninas acabam ficando para trás, por em algum momento terem que dedicar-se às tarefas domésticas e por sofrerem mais discriminação, o que tira delas oportunidades de crescimento pessoal e profissional.

Menos meninas e mulheres na escola também estão relacionadas a um aumento da mortalidade de adolescentes e crianças, por não terem acesso a informações básicas sobre saúde. Sendo assim, quanto mais meninas e mulheres tiverem acesso à educação, desenvolvendo mais senso crítico, independência, saúde e consciência social, melhor será a vida de uma comunidade, de uma cidade ou de um país.

Partindo dessas premissas, trazemos hoje o perfil de seis mulheres ­— quatro do Brasil e duas de outras origens — que no passado e na atualidade, chamaram a atenção para a luta pela educação feminina. Confira a seguir.

 

Quanto mais meninas e mulheres com acesso à educação, melhor se torna uma sociedade. Imagem: Acervo Singularidades/Freepik

 

Nísia Floresta
Nísia foi educadora, escritora, feminista e abolicionista. Nascida em 1810 no Rio Grande do Norte, tornou-se conhecida por seu pioneirismo na educação feminista no Brasil e uma defensora da igualdade de gênero. Era filha de pai português e mãe brasileira, estudou em um convento de carmelitas em Pernambuco, o que definiu sua trajetória profissional e pessoal.

Nísia chegou ao Rio de Janeiro em 1938 e, neste mesmo ano, fundou o Colégio Augusto. A instituição oferecia aulas de história, religião, educação física, artes, geografia, literatura e ciências, mas também as oferecia para as ditas “obrigações do futuro matrimônio”.

A abertura do Colégio Augusto recebeu muitas críticas da sociedade da época, que considerava a educação da mulher desnecessária, já que na visão machista de então, às pessoas do sexo feminino caberia apenas ao casamento, o trabalho doméstico e a maternidade.

Para além de sua atuação como educadora, Nísia Floresta também foi escritora e e defensora dos direitos das mulheres, dos negros e dos indígenas. Ela escreveu mais de 15 livros e centenas de artigos relacionados a luta desta parte da população e esteve à frente da luta por questões urgentes em sua época.

 

Maria Guilhermina Loureiro de Andrade

Nascida em Ouro Preto, em 1842, Maria Guilhermina foi a fundadora da primeira escola de professoras de jardim da infância do país. Era de uma família de professoras, mas diferentemente de sua mãe e irmãs, destacou-se também por seu ativismo a favor de uma educação mais inclusiva, num momento em que poucas mulheres frequentavam a escola.

A família Loureiro de Andrade foi proprietária do Colégio Andrade, instituição particular na cidade Rio de Janeiro, que esteve ativa entre as décadas de 1870 e 1920. Maria Guilhermina, cuja família tinha recursos, foi estudar em Nova York, onde teve contato com a metodologia dos jardins de infância, uma proposta de educação infantil ainda inexistente no Brasil.

De volta ao país, a professora decidiu oferecer um curso de formação de “jardineiras”, as professoras da educação infantil, na escola da família, iniciativa inédita no Brasil. Além de educadora, Maria Guilhermina trabalhou ativamente por um melhor sistema educacional, por meio de textos em jornais e revistas, tomando parte da criação da Associação dos Professores do Brasil e passando a ser um nome fundamental quando o assunto é a inclusão feminina pelo acesso à educação.

 

Antonieta de Barros

Primeira mulher negra eleita no Brasil como deputada estadual, o nome de Antonieta de Barros é carregado de pioneirismo. Ela foi também professora, jornalista, ativista pelo amplo direito à educação e da valorização da cultura negra.

Antonieta nasceu em Florianópolis em 1901, e lutou também contra o machismo e o racismo predominantes em seu estado natal.

Foi aluna da Escola Normal Catarinense e, depois de formada, criou um curso para alfabetizar a população carente, em 1922. O curso, que recebeu o nome de Antonieta, era ministrado em sua casa e ela se dedicou a ele durante toda a sua vida. Foi também docente na Escola Complementar, no Colégio Coração de Jesus e também na mesma Escola Normal Catarinense onde anos antes havia se formado.

Além da atuação como educadora, Antonieta foi jornalista. Em seus artigos e reportagens tratava de temas como desigualdade racial e de gênero. Foi fundadora do jornal A Semana, dirigiu a revista Vida Ilhoa e, sob o pseudônimo Maria da Ilha, escreveu o livro Farrapos de Ideias.

Dois anos depois da conquista do voto feminino no Brasil (1932), Antonieta tornou-se suplente do engenheiro Leônidas Coelho de Souza, candidato pelo Partido Liberal Catarinense (PLC). Como Leônidas não pode assumir o cargo, Antonieta o fez e cumpriu o mandato de 1935 a 1937. Ela foi a primeira deputada de Santa Catarina e a primeira representante negra numa câmara estadual no Brasil.

Para saber mais: http://institutosingularidades.edu.br/novoportal/
Entre em contato: singularidades@singularidades.com.br

Bertha Lutz

Uma das primeiras mulheres a ingressarem no serviço público federal e defensora dos direitos feminino ao voto e ao ensino superior, Bertha Lutz nasceu em São Paulo, em 1894. Foi uma das figuras mais significativas do feminismo e da educação no Brasil do século XX no Brasil.

Filha do cientista Adolfo Lutz e da enfermeira inglesa Amy Fowler, que a incentivaram a seguir seus estudos. Em 1918, ela formou-se em Biologia na Universidade de Sourbonne, em Paris, onde teve contato com a primeira onda do feminismo e, de volta ao Brasil, resolveu colocar em prática o que observou na Europa.

Ao lado de outras feministas, Bertha fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) para lutar pelos direitos civis e políticos das mulheres. A criação da União Universitária Feminina, a permissão do ingresso de meninas no Colégio Pedro II — um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro — além de lutar pela criação de leis de proteção à mulher e à criança, e a garantia feminina ao voto são algumas das conquistas da FBPF.

Bertha também foi a representante brasileira na Assembleia-Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos, e foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana de Mulheres Eleitoras, em 1922. O direito ao voto seria garantido às mulheres apenas 10 anos depois, por decreto do presidente Getúlio Vargas.

Bertha foi também uma das primeiras mulheres na política brasileira, tendo se tornado deputada como suplente no lugar de Cândido Pessoa, que havia falecido. Defendeu propostas como mudanças na legislação referente ao trabalho das mulheres e a igualdade salarial.

Bertha seguiu defendendo os direitos das mulheres e meninas, em cargos públicos ou como ativista, até sua morte, em 1976 aos 84 anos.

 

Malala Yousafzai

A ativista paquistanesa tornou-se uma das vozes mais importantes na luta pela educação de meninas em todo o mundo. Nascida em uma família a educação era muito valorizada — seus pais eram donos de uma escola em Mingora, no Paquistão — Malala ficou fez-se conhecida pelo blog “Diário de uma Estudante Paquistanesa”, feito a pedido da BBC, no qual falava sobre a rotina e as dificuldades das mulheres na escola em seu país, sob o pseudônimo Gul Makai, uma heroína do folclore local.

O blog chamou a atenção para as questões levantadas pela adolescente, mas também atraiu o ódio dos radicais talibãs durante 2003 e 2009, e recentemente voltou a tomar o comando afegão, causando grande temor na comunidade internacional.

Numa tarde de 2012, a menina foi baleada na cabeça por um dos homens do Talibã, ao voltar da escola. A bala atravessou seu crânio e Malala batalhou pela vida durante dias, até ser transferida para um hospital em Birmingham, na Inglaterra.

Determinada a continuar sua luta pelos direitos das meninas a uma vida melhor por meio da educação, Malala ingressou na Universidade de Oxford, onde estudou filosofia, política e economia até 2020. Durante este período, ela criou o Malala Fund, organização que tem o objetivo de promover a educação de meninas no mundo. Desde 2018, três ativistas brasileiras foram apoiadas pelo Malala Fund.

 

Angelique Kidjo

Angelique Kidjo é cantora e compositora famosa em todo o mundo. Nascida no Benin em 1960, além de sua carreira na música e nas artes (também é atriz, produtora e diretora), ela também ficou conhecida por seu trabalho humanitário em prol das meninas africanas.

Kidjo é uma das líderes da Fundação Batonga, que capacita mulheres e meninas na África por meio do ensino médio e superior. É também embaixadora da Boa Vontade do Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, na sigla em inglês) da África Ocidental.

A fundação trabalha para melhorar a infraestrutura escolar, aumentar o número de matrículas, concede bolsas de estudo e fornece apoios e microcréditos para famílias de bolsistas.

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