Competências socioemocionais e complexidade na construção de uma educação inovadora
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Competências socioemocionais e complexidade na construção de uma educação inovadora

Instituto Singularidades

16 de dezembro de 2019 | 16h25

Ter conhecimento didático e pedagógico não são as únicas ferramentas para o professor lidar com as demandas do mundo contemporâneo. Desenvolver e estimular competências e habilidades emocionais em si mesmo e em seus alunos é uma demanda fundamental dos educadores do século XXI.

Para Letícia Guimarães Lyle e João Paulo Almeida, coordenadores da pós-graduação Formação Integral: habilidades socioemocionais e práticas educacionais inovadoras, muito do que a escola acreditava e construía no século XX – como a responsabilidade do professor terminando quando ele passava o conteúdo, e não quando o aluno aprendia, ou o foco no desenvolvimento de habilidades de baixas complexidade – teve de ser repensado neste século.

“Por que a gente trouxe as competências socioemocionais? Elas são um conjunto de habilidades, conhecimentos e atitudes que mobilizam estruturas básicas para viver, se relacionar, aprender e conviver em todos os ambientes e, inclusive, com nós mesmos. São valores e formas de lidarmos com a vida, e essenciais para vivermos em sociedade”, esclarece Letícia.

Essas competências, que já existiam e vão continuar existindo, compõem algumas das bases mais fortes da escola atual e do futuro. Ao pensar o curso, os coordenadores se debruçaram sobre habilidades, competências e características de comportamento e de caráter, mandatórias para se viver, conviver, construir e conversar.

“Ninguém aqui não tem competências socioemocionais. A gente é social, emocional e cognitivo, então todos nós temos isso. Uns têm mais percepção, e aí que a gente começa a entrar no desenho do nosso curso: alguns dos alunos reconhecem e sabem do que a gente está falando e sabem trabalhar com elas de uma maneira que isso seja positivo e consciente”, explica a coordenadora.

Durante o Portas Abertas que apresentou o curso a alunos do Singularidades e ao público geral (cujo conteúdo completo você pode conferir aqui), Letícia comentou que a escola até o século passado ainda não valorizava as características socioemocionais e as habilidades mais complexas.

“Quando a gente lembra dos nossos exercícios até o ensino médio, provavelmente vocês descreveram muita coisa. Pouca gente pedia ‘construa’, ‘sintetize’, ‘analise’ ou crie”. Essas são habilidades de alta complexidade. Já as de baixa não são menos importantes, elas são mais fáceis, mas também muito importantes”.

A coordenadora disse que desenvolver noções cognitivas mais simples, como descrever, listar e apontar estava relacionado com a organização da sociedade e o mundo daquele momento. A escola do século passado espelhava o que acontecia fora dela: era hierárquica, com o conhecimento centrado no professor, e “adultecêntrica”, com as crianças aprendendo da maneira que os adultos imaginavam que deveriam ser essa aprendizagem.

Trabalhar as emoções é uma demanda importantíssima na formação dos professores do futuro. Foto: Acervo Singularidades

Na virada para os anos 2000, a sociedade já era mais multicultural e heterogêna, o que mais uma vez se refletiu na escola. “A partir do momento em que a escola é obrigatória e todo mundo precisou ir para lá, ela começou a ficar mais misturada, por conta dessa obrigação. E nisso ela se tornou um lugar que tem uma pluraridade de vozes e uma universalidade de acesso. Todo mundo tem que ir para a escola, não é mais uma escolha, uma missão de vida, que acontece para todos, mesmo que você não queira fazer o ensino superior depois”, avalia a coordenadora.

Por tudo isso, a escola do século XXI se tornou mais multicultural, menos homogênea, mais conectada (com as comunidades, com os pais, por meio da internet e das redes sociais), obrigatória com acesso universal e, importante: apresentou uma visão diferente sobre o papel transformador do ensinar, que até então era mais voltado para o mundo do trabalho e passa a ser focado na preparação para a vida como um todo.

Tornou-se também uma necessidade no mundo atual, que pedia níveis cognitivos mais sofisticados, as chamadas habilidades de alta complexidade, como desenvolvimento do pensamento crítico, raciocínio lógico e criação de projetos, habilidades pessoais cada vez mais necessárias.

 

O papel da complexidade no mundo e na escola do futuro

O coordenador João Paulo contou que nasceu no Acre e, como milhões de crianças em todo o Brasil, foi alfabetizado com a cartilha “Caminho Suave”, que ensinava por meio de uma realidade que não era a dele. “Na minha cidade não tinha maçã, mas sim açaí, e ninguém viajava com os pais para o litoral, como os personagens da cartilha”.

Todo aquele processo de aprendizagem vivido por João Paulo e tantos outros estudantes nos anos 70 e 80 fez com que muitas crianças se sentissem menos importantes por não estarem incluídas nesse projeto de estudo, que era uma forma que não levava em conta as complexidades individuais e coletivas.

“O João teve de ressignificar seu aprendizado, assim como eu, que vim de uma realidade urbana e tive de lidar com outras dificuldades, também. As dificuldades da geração dos nossos filhos são outras e o processo de aprendizagem é mais poroso, seja por causa da internet ou pelos próprios colegas que são diferentes e estão conectados com outros desafios”, avalia Letícia.

Preparar para a vida tornou-se a nova função docente, e isso significa coisas diferentes em diferentes tempos e espaços. Letícia citou o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, que dizia que a consciência da complexidade nos faz compreender que não podemos escapar jamais da incerteza e que jamais poderemos ter um saber total: a totalidade não é a verdade.”

A coordenadora e professora reforça que, quando olha-se para a educação e se pensa na função da escola atual, há que se observar que a complexidade é a não-verdade. “Pensar numa coisa única faz com que a gente perca a totalidade das coisas, fora de um contexto muito maior”.

E dentro dessa complexidade, como aprendemos a ser humano no século XXI, a única característica inerentemente nossa? Letícia é categórica. “Não é possível ser gente senão por meio de práticas educativas. Esse processo de formação perdura ao longo de toda a vida: o homem não para de educar-se, sua formação é permanente e se funda na dialética entre teoria e prática.”

Isso é uma expressão para a vida, a expressão de como a gente faz o dia a dia, como a gente sintetiza o que a gente aprendeu e traz de novo para o nosso contexto.

 

A pós-graduação

Em nível de especialização, o curso Formação Integral: habilidades socioemocionais e práticas educacionais inovadoras se propõe a formar profissionais éticos, com um alto nível de consciência em relação à sua própria identidade e à sua prática escolar.

Ampliar o repertório e as experiências que ofereçam novas teorias sobre a educação para o século XXI e as habilidades socioemocionais, fornecendo ferramentas para lidar com os estudantes a colocá-las na prática profissional e no cotidiano, do currículo à preparação de atividades educativas inovadoras são alguns dos pontos importantes do curso.

A formação traz disciplinas que exploram aspectos de desenvolvimento pessoal, trabalho em grupo e transformação sistêmica, indo da pedagogia à neurociência, com embasamento de muitos teóricos de diferentes linhas (os nomes vão de Brene Brown a Martin Seligman, Paulo Freire, Vigotsky e Carol Dwek).

 

Letícia Guimarães Lyle é pesquisadora da área da Educação, com foco em competências socioemocionais. Cursou Administracão na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Comunicação na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP-SP), e é mestre pelo Teachers College da Columbia University (EUA).

 João Paulo Almeida é professor pela Universidade Federal do Acre (UFAC), deu aula na rede pública, escolas particulares e coordenou um programa nacional para mais de 20 mil professores no Brasil. Especialista em formação integral de educadores (Instituto Singularidades), com foco em desenvolvimento humano e educação.