As transposições didáticas e o ensino ao alcance do aluno
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As transposições didáticas e o ensino ao alcance do aluno

Instituto Singularidades

31 de julho de 2019 | 16h11

Visitar o Jardim Botânico da sua cidade, fazer um bolo ou escutar um programa de rádio são atividades que, num primeiro momento, não parecem tão próximas do ensino. Mas, e se durante o passeio ao jardim os alunos pudessem aprender sobre espécies vegetais e animais, além do sistema de polinização?

E, se ao fazer o lanche da tarde conjuntamente, na cozinha da escola, eles compreendessem como acontece o processo de fermentação? Ao escutar um programa de rádio em sala de aula, poderiam os estudantes compreender melhor elementos da física, como o conceito de comprimento de ondas?

Estes são alguns exemplos de transposições didáticas, prática pedagógica que vêm ganhando destaque entre os educadores por tratarem de transformar o trajeto que nos leva à construção científica em outro formato que possa ser trabalhado pedagogicamente, de forma que o aluno tenha uma experiência mais efetiva.

Ainda que a nomenclatura pareça nova, essa prática vem sendo aplicada nas escolas já há algum tempo. “O ensino sofre transformações o tempo todo. Por exemplo, para um professor falar de um livro escrito em 1950 com os alunos de hoje, ele precisa fazer essa adequação na linguagem.

Isso permite uma maior aderência e significado, inclusive contextualizando as práticas sociais do período histórico em que esses livros foram produzidos”, comenta o professor Valdir Silva, que vem fazendo vários estudos a respeito destas práticas no Instituto Singularidades, onde é Coordenador de Relações Interinstitucionais.

 

Transpor conceitos complexos em outros de mais fácil compreensão pelos alunos é um desafio dos professores do futuro. Imagem: Jean Galvão/ Acervo Singularidades

 

O professor também acredita que esta forma de ensinar permitiria que os alunos pudessem estabelecer diálogos com outras histórias mais recentes, inclusive as suas próprias. “Assim, garantimos o estabelecimento relacional de maneira mais profunda, na qual o livro não seja apenas um material de entretenimento ou que esteja relacionado apenas à uma avaliação formal. Isto posto, permite que o aluno faça parte do processo de ensino e aprendizado, melhorando a absorção do conteúdo”, comenta.

Valdir explica que as linguagens e as transposições são a base da sala de aula. Segundo o professor, as disciplinas – e a educação de forma geral – são um organismo vivo, que se transforma conforme a sociedade muda. “Tornar o saber científico em um saber prático, aplicável à vida do aluno, passa pela matriz curricular e tem de ter um planejamento cuidadoso, de forma bem codificada”, comenta.

 

O ensinar a partir do território do aluno

Um ponto fundamental nas transposições didáticas é partir do território do aluno, levando em conta o universo que o cerca, algo que se aproxima da filosofia de Paulo Freire, para quem a educação “qualquer que seja ela, é sempre uma teoria do conhecimento posta em prática”.

Essas práticas e percepções individuais devem ser significativas para o aluno, aproximando-a do conteúdo ministrado e, o mais importante, que se convertam em experiências transformadoras do ponto de vista da aprendizagem.

Segundo Valdir, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já traz em si a possibilidade da transposição, permitindo que os alunos tenham acesso a outros recursos que não só os disponíveis em sala de aula, além de permitir o apoio da comunidade e da família na aprendizagem, tornando-a ainda mais próxima de seu dia a dia.

A ideia do cotidiano como “peça” pedagógica é inovadora, à medida que fomenta uma participação ativa dos mais diversos grupos da sociedade.

Conforme preconizado na BNCC e por meio das transposições, os alunos passam a ser protagonistas de seu aprendizado. O professor, por sua vez, passa a ser mediador do conhecimento, mas não o detentor dele: é em parceria com o estudante que este conjunto de saberes será construído das mais diversas formas, que podem incluir ou não as ferramentas tradicionais de estudo.

É o professor quem movimenta o espaço educacional, humaniza e harmoniza os vários ambientes, resolve conflitos e realiza os contratos didáticos.

 

Planejar para transpor

A importância do planejamento em todos os níveis da educação básica já é amplamente conhecida e debatida, mas para os professores que pretendem trabalhar com foco nas transposições didáticas, o planejamento, além de uma ferramenta de controle, passa a ter o papel de um roteiro, como no cinema e no teatro.

E deste planejamento fazem parte elementos fundamentais como a linguagem, que deve se aproximar do aluno, conquistá-lo e mantê-lo engajado nos conteúdos. Os textos e as leituras devem trazer elementos relacionados à vida do estudante em todas as suas esferas de atuação. Entretanto, este trabalho cuidadoso de transposição cabe ao professor.

“O livro, por exemplo, não pode ser o material primário da aula, mas há que ser criado um planejamento de acordo com as necessidades da turma, permitindo que os alunos projetem, anteriormente, o conteúdo articulado com seus saberes”, comenta Valdir.

O professor defende a ideia de que os professores possam trazer outros elementos e ambientes, para a prática da construção do conhecimento e não apenas a sala de aula e o espaço escolar.

Valdir reforça que, para estarem aptos a trabalhar com estas técnicas de forma mais efetiva e suave, é fundamental que os professores-alunos sigam estudando e se mantendo atualizados. “Realizar formação continuada permite que os professores ganhem experiência e consigam vivenciar o processo de transposição de uma forma mais tranquila”, salienta.

 

Novos espaços e estímulo ao engajamento do aluno

O professor explica que um dos pontos importantes das transposições didáticas é a ampliação do espaço educacional para qualquer lugar, e não apenas em uma sala de aula.

Ocupar ruas, parques ou mesmo espaços dentro da própria escola – como a cozinha, o pátio, as quadras, os laboratórios (ainda que a aula seja de língua portuguesa, por exemplo) é fundamental para que o aluno internalize, de fato, seu papel como protagonista no processo de aprendizagem.

“Hoje já não temos unicamente as aulas expositivas, há muitas outras opções de metodologias ativas que propõem atividades diferenciadas, como as salas de aulas invertidas, as estações por rotação, as gamificações, os podcasts, a resolução de problemas reais, os projetos de aprendizagem, o serviço solidário e o trabalho com pequenos grupos, dentre outros. Metodologias atuais, inovadoras e coerentes, que produzam significados para novas perspectivas educacionais, como nós no Singularidades”, reforça Valdir.

Ele dá alguns exemplos de como essas transposições práticas podem ser feitas. “Por meio da confecção de uma poltrona de garrafa de PET (que vai ensinar ao aluno a importância de dar novos usos a materiais recicláveis e acompanha toda a prática dos conceitos físicos, como estruturas de materiais e forças), uso de caixas de som (que abarcam da poesia à física e à matemática), até aquele bolo que citamos no começo do texto, que todos façam e comam ao final (e, de quebra, aprendam, concomitantemente, o processo químico da fermentação, além do trabalho em equipe).”

Pensar em linguagem e transposições didáticas é pensar em um trabalho multidisciplinar, integrado com os espaços ocupados pelos alunos, sejam eles quais forem, é trabalhar e desenvolver um novo modelo mental, em que o aluno identifique uma nova construção do processo e aprendizado, e se reconhece como responsável e protagonista do seu aprendizado.

Valdir Silva é Coordenador de Relações Interinstitucionais do Instituto Singularidades

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