Abril Azul: a singularidade da vida autista
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Abril Azul: a singularidade da vida autista

Instituto Singularidades

30 de abril de 2021 | 14h09

Desde 2008, a Organização das Nações Unidas (ONU) considera o dia 2 de abril como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data que se estende por todo o mês, que é lembrado como Abril Azul. Esta data foi criada para chamar a atenção para a inclusão do autista na sociedade, por meio da criação de políticas públicas voltadas para esse grupo, além de iniciativas privadas desestigmatizar, acolher e estimular o crescimento e aprendizagem desta parcela da população, que no Brasil é formada por 2 milhões de pessoas.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta, em diferentes graus, a forma como as pessoas sentem, veem, ouvem, e interagem com o mundo e com os outros. Cada autista vive e lida com seu potencial e suas dificuldades de uma forma, com mais ou menos autonomia. E, como toda a população mundial no último ano, sofre os efeitos da pandemia.

A paulistana Julie Goldchmit, 24 anos sente falta dos encontros presenciais com familiares, colegas de trabalho, amigos, e também de fazer atividade física, eventos que em meio ao confinamento ficaram de lado. Mas ao mesmo tempo tem lido bastante, assistido a séries e convivido mais com os pais. Na entrevista a seguir, Julie nos contou como é sua rotina, como está sendo a adaptação ao home office, e outras questões típicas de uma pessoa da sua idade.

 

Com a pandemia, Julie teve de se adaptar ao home office, a ficar longe de parte da família e dos amigos. Foto: Acervo pessoal

 

Como é a sua rotina?

Acordo todos os dias às 6h e arrumo a mesa do café da manhã. Tomo meu café às 7h e sempre como um pão com queijo, um iogurte e um suco de laranja. Às 8h pontualmente começo a trabalhar (estou em home office). Faço um intervalo às 10h para comer uma fruta. Eu trabalho 4 horas e às 12h bato o ponto e fecho meu computador.

Antes da pandemia eu fazia pilates duas vezes por semana, e aulas de inglês e espanhol. Agora só as aulas virtuais. Gosto de ver séries como The Crown, Heartland, Anne with an E e outras. Assisto em inglês ou espanhol, para aprimorar os idiomas.

Também gosto de ler. Antes da pandemia eu lia livros, mas como não posso ir às livrarias, estou lendo no Kindle.  Procuro temas que falam de superação ou temas inspiradores, como Minha História (Michele Obama), Faça Acontecer e Plano B ( Sheryl Sandberg), A Bailarina de Auschwitz (Edith Eva Eger) e outros.
Às 16h pontualmente eu tomo um lanche que é sempre um iogurte, depois tomo banho e janto às 18h. Às 19h eu vou dormir. Aos finais de semana, faço aulas de equitação.

 

Você estudou até que ano? Fez ou tem vontade de fazer um curso superior?

Eu completei o Ensino Médio. Quando terminei, conversei com meus pais sobre fazer faculdade ou entrar no mercado de trabalho. A decisão foi buscar um trabalho, pelas dificuldades que eu poderia ter na faculdade. Comecei como Jovem Aprendiz no Citibank, e atualmente trabalho na área de Trade Marketing da Unilever.

 

Como a pandemia afetou a sua rotina de forma geral?

Quando começou a pandemia e foi anunciado o home office, eu fiquei muito ansiosa pois mudou toda a minha rotina. Para um autista, eu demoro mais tempo para processar as mudanças. Tive que me superar para entender que eu teria que trabalhar sozinha na minha casa. Com isso eu não estaria perto das pessoas que eu gosto.

No trabalho eu também tive que aprender a ter mais autonomia e contei com ajuda da minha equipe. Fico a semana toda em casa sem sair para nada. Estar longe das pessoas que eu gosto, tanto da família como meus amigos e colegas de trabalho na Unilever me deixa chateada.

 

O que você mais gosta de fazer e não está podendo durante a pandemia?

Eu sinto falta dos encontros presenciais, como um café ou almoço no trabalho, e também de estar com minha família. Também sinto falta do pilates. Diferente de outros autistas, eu gosto de abraçar as pessoas e fico me perguntando “quando poderei abraçar as pessoas que eu gosto”?

 

Que aprendizados você teve deste período em casa?

Aprendi a ser mais paciente, o que algumas vezes é difícil para mim; a trabalhar sozinha, e assim ganhar autonomia; a valorizar a saúde, pois escuto que muita gente ficou doente ou morreu; a viver de forma mais simples (nem preciso fazer as unhas toda semana).

 

Como é a sua vida em família?

Eu moro com meus pais, com quem tenho ótimo relacionamento. Eles sempre me apoiam e orientam quando surgem dificuldades ou dúvidas. Tenho uma irmã mais velha, que está ao meu lado e também me apoia quando preciso. Em 2020 ganhei uma sobrinha muito fofa. Tenho meus avós, tios e primos, com quem sempre convivi, mas estou longe deles pela pandemia.

 

Quais são seus maiores desafios por ser autista?

Eu quero não me sentir diferente das outras pessoas e poder estar inserida na sociedade. Para isso, é importante que eu explore as minhas potencialidades. Tenho que reconhecer as minhas limitações e saber lidar com elas.

 

Que conselho você daria para quem também está no espectro e sente dificuldades em se integrar, fazer amigos, se divertir, estudar e trabalhar?

O importante é que alguém que esteja no espectro autista tenha seus pais e pessoas próximas que possam entendê-lo. É preciso ter muita paciência. Sobre integração, fazer amizades se divertir, estudar ou trabalhar vai depender de cada indivíduo, pois é um espectro. Cada pai e mãe deve conhecer as potencialidades e limitações de seu filho, para que não tenha exigência além do que se pode alcançar.

 

Quais são os seus planos para o futuro?

Meus planos para o futuro são: poder crescer dentro da Unilever, lugar que me sinto muito acolhida. Faço parte do grupo UniPCDs (pessoas com deficiência) na Unilever e quero me tornar “Embaixatriz” da diversidade, pois quero que todos tenham as oportunidades que eu estou tendo.

 

Para saber mais: http://institutosingularidades.edu.br/novoportal/
Entre em contato:singularidades@singularidades.com.br

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