A urgência da construção de uma educação antirracista
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A urgência da construção de uma educação antirracista

Instituto Singularidades

30 de março de 2021 | 14h20

Angela Davis, professora, filósofa e ativista negra norte-americana já vaticinava: não basta ser contra o racismo, é necessário ser antirracista. Frequentes no Brasil devido à desigualdade racial em que o país vive há séculos, as recentes manifestações contra violência policial em relação à população afro-americana que depois dos assassinatos de George Floyd e Brianna Taylor abriram caminho para discussões mais amplas sobre o racismo no nosso país.

A discussão em si não é um tema novo, mas aponta questões urgentes: entre elas, como é possível construir uma educação antirracista, em um país em que mais de metade da população é negra, mas no qual tocar em questões raciais ainda é um caminho delicado?

Mayana Nunes da Silva, historiadora, doutoranda em Antropologia Social na Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora na área de gênero, sexualidade, mídia, violência em relações de gênero e diversidade, defende a ideia de que enquanto a sociedade brasileira não assumir seu racismo e reconhecê-lo como estrutural e fundador da sociedade, este caminho será longo e cheio de percalços.

“A gente segue trazendo o debate racial porque nós não fizemos o básico, que é nos reconhecermos como racistas. Essa é a primeira etapa: nos pensarmos desta forma, em como o racismo estrutura toda a sociedade, a economia, a política, a educação e quase todos os setores da nossa sociedade. É necessário fazer esse reconhecimento”, analisa a professora em entrevista a Marcelo Ganzela, coordenador da graduação em Letras do Singularidades e apresentador do podcast Educaramba.

Segundo Mayana, um dos pontos que dificultam este reconhecimento do brasileiro enquanto racista, aponta Mayana, é a crença numa suposta “democracia racial”, na qual brancos, negros e indígenas conviveriam em harmonia e igualdade. O mulato, nascido do relacionamento entre uma branca e um negro ou vice-versa, seria a comprovação deste equilíbrio e desta cordialidade.

Creditada ao sociólogo e antropólogo pernambucano Gilberto Freyre, esta tese foi potencializada por outros intelectuais brasileiros, cujas conclusões atenuaram os efeitos do período escravocrata no Brasil na atualidade. Aquela ideia, explica a pesquisadora, apaga o genocídio indígena e a vinda forçada de africanos para o continente americano pelos colonizadores.

“Esse mito é muito forte na nossa sociedade, o da mestiçagem, o de que não há divisões raciais, mas equilíbrio. No movimento negro, essa é uma coisa que já foi desconstruída. Se você pega as estatísticas, a maior parte dos assassinatos é da população negra, jovem e periférica. A maior parte dos encarcerados é negra e, neste contexto de pandemia, é a população preta e pobre a que mais morre. Então, a democracia racial não existe”, comenta.

A pesquisadora aponta para uma outra questão fundamental: quando se fala de racismo, não estamos falando apenas de indígenas ou negros, mas de toda a sociedade brasileira. O negro só o é “em relação” ao branco. Por esta razão, Mayana chama a atenção para o papel dos brancos na construção de uma sociedade antirracista.

“Refletir o que é ser uma pessoa branca em um país racista, o que isso traz de privilégios, o que você não precisou viver ou passar por conta da sua branquitude. Se almejamos uma sociedade democrática, com instituições fortes e igualitária, a questão racial deve ser pensada por todos nós”.

Para a militante, pensadora feminista e professora norte-americana Angela Davis, não basta não ser antirracista. Temos de ser antirracistas, como a educação em nossas escolas. Imagem: Unseen Histories/Unsplash

 

Uma educação antirracista é possível

Descolonizar o currículo, segundo Mayana, é o primeiro passo para que a educação antirracista aconteça, por meio de oferecer aos alunos a oportunidade de entrar em contato com bibliografias e histórias pouco estudadas, de autores oriundos de grupos vistos socialmente como marginalizados, como os negros e os indígenas. Seguir um modelo de escola eurocêntrico, com mais foco em autores, educadores e intelectuais desta origem, num país de dimensões continentais e composição étnica diversa carece de sentido.

“Gosto de pensar na ideia de uma educação antirracista, junto à de uma educação descolonizadora, que traga à tona negros e indígenas como sujeitos da história, e não como objetos. É não estudar apenas a escravidão, quando a população negra está na literatura, na história, na matemática e em tantas outras áreas”, explica.

A professora concorda que já houve alguns avanços, como a criação da Lei 1039, que exige o ensino da história afro-brasileira, africana e indígena na educação básica. Desta forma, como ajudar o professor a pensar num currículo que cubra estas áreas e, se possível, se aprofunde nelas, em meio a um cenário de educação bastante nebuloso como o do Brasil nos dias de hoje?

“Tenho observado cada vez mais pessoas com engajamento social e coletivo atuando na educação, pessoas que querem buscar a formação em questões étnico-raciais, que buscam debates e cursos a este respeito. Hoje a internet é uma fonte praticamente inesgotável de fontes, de militantes dos movimentos negros e indígenas a pessoas que estão produzindo conteúdos muito potentes e relevantes, que podem ajudar a este educador na construção de suas referências”, observa Mayana.

Mas não basta seguir o que pede a lei, reforça a professora: há que se acrescentar nomes de intelectuais, autores, teóricos, poetas e formadores de opinião negros e indígenas a outros componentes curriculares, da história à matemática, para que este repertório cresça e colabore para que os alunos possam ouvir o que essas pessoas, até hoje tão pouco ouvidas, têm a dizer.

Escritores Davi Kopenawa e Ailton Krenak, a política e ativista Sônia Guajajara, como alguns nomes indígenas mais conhecidos; entre os negros, o geógrafo Milton Santos, a antropóloga e feminista Lélia Gonzalez, o escritor e professor Abdias do Nascimento e nomes norte-americanos como Angela Davis e a escritora, professora e feminista bell hooks são algumas sugestões de Mayana.

Cabe aos professores estimular nos alunos – e em si mesmos – a consciência de que alguns autores tiveram sua etnia “apagada” pela cultura dominante, como Machado de Assis, que até bem pouco tempo, era tido como um homem branco, e retratado como tal. “Acho muito importante que a gente e os estudantes conheçam a trajetória daquele autor, suas origens, para que possa perceber as questões levantadas em muitas de suas obras. Isso vai para além da sala de aula”, aconselha.

Para concluir, a professora e pesquisadora relaciona os atuais movimentos “Vidas Negras Importam” no Brasil, e “Black Lives Matters” nos Estados Unidos, a um modelo de educação antirracista. “Quando a gente fala de uma educação antirracista, estamos dizendo que vidas negras e indígenas importam, suas histórias importam, e situar, que no mundo todo, por conta do racismo, essas pessoas resistem. A gente não quer viver nos guetos e nas resistências: a gente quer poder viver melhor”, conclui.

 

Para saber mais: www.institutosingularidades.edu.br
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