A qualidade da BNCC depende do conteúdo e do ensino planejado
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A qualidade da BNCC depende do conteúdo e do ensino planejado

Instituto Singularidades

22 de dezembro de 2020 | 13h00

Para ser implementada, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) impõe a redes e unidades educacionais o desafio de formular novos currículos e práticas pedagógicas. Frente a essa complexidade, arriscamos aqui alguns palpites sobre o que pode ser feito nesse processo. Devemos ter como foco a organização dos conteúdos que vão alicerçar as habilidades e competências previstas pela Base, além de colocar a centralidade das discussões pedagógicas no ensino para a aprendizagem. Para tudo isso, é necessário repactuarmos, com clareza, o que é a escola neste país.

De modo geral, temos a percepção de que o ambiente escolar é pouco interessante a crianças e jovens por ser distante de sua realidade, de seus gostos e objetivos. Nesse contexto – e de maneira crescente nos últimos tempos – propõe-se substituir tópicos muito conceituais para a mente jovem por algumas tarefas mais simples, como deixar de estudar Camões para ler literatura infanto-juvenil, deixar de aprender os conceitos mais complexos de estatística e probabilidade para fazer planilhas aplicáveis às demandas domésticas e laborais.

Para muitos alunos, a escola é a única oportunidade de conhecer os princípios, os impactos e os métodos das ciências naturais, humanas, exatas, das linguagens e das artes. Imagem: Freepik

 

No entanto, a escola deve justamente ser o espaço em que crianças e jovens entrarão em contato com saberes diferentes daqueles que já conhecem e/ou dominam. Enquanto país, devemos fazer as pazes com a noção de que a escola é não apenas um aparato da educação, mas também da cultura e da ciência.

Para a maior parte da população, a escola é a única oportunidade de conhecer os princípios, os impactos e os métodos das ciências naturais, humanas, exatas, das linguagens e das artes. Não podemos perder de vista que a escola possui, sim, a função da qual muito se tem medo de admitir francamente: a de transmitir conhecimento.

E não há internet que substitua essa função, pois nela não há dois elementos centrais do processo escolar: o professor e o ensino, pré-requisitos para a adequação do conteúdo às diferentes faixas etárias, ao repertório prévio de cada um dos alunos, aos objetivos de aprendizagem.

É essencial que nesse processo de criação de currículos tenhamos o conteúdo cultural e científico como cerne de nossas preocupações, visto que a Base é toda alicerçada em habilidades e competências. Se não selecionarmos e sequenciarmos bem os conteúdos que as fundamentarão, acabaremos deixando, sem querer, algo de lado, e certamente teremos alunos medianamente habilidosos e competentes.

Explicamos: se para ser competente em cuidar do meio ambiente é necessário ser habilidoso, dentre outras tarefas, em separar o lixo, é imprescindível saber alguns conteúdos que embasam essa habilidade, como os elementos químicos passíveis ou não de reaproveitamento.

Contudo, quantos não somos aqueles que, medianamente competentes, acabamos por fazer o descarte errado por não termos tido contato com o conteúdo que trata de que item deve ir a qual lixeira? A Base se ocupou do grande desafio de estabelecer habilidades e competências; agora é dever de sistemas, redes e unidades educacionais se incumbir do conteúdo de nossos currículos, visto que é só por meio dele que formaremos os cidadãos habilidosos e competentes que a Base almeja.

 

O conhecimento poderoso como ponto de partida para o ensino

Entretanto, não é qualquer conteúdo que serve para nossos currículos escolares. Devemos nos centrar no que Michael Young, especialista em currículo, chama de “conhecimento poderoso”. Se queremos alunos habilidosos em inferir informações implícitas a partir de um texto, podemos alcançá-lo por meio de atividades centradas em conversas de Whatsapp e notícias de jornal, ou baseadas em crônicas de Machado de Assis e poemas de Conceição Evaristo.

A habilidade é a mesma; o conteúdo é completamente diferente. A nossa atuação deve estar sobre a segunda opção, pois é na inferência feita a partir de textos de grandes intelectuais que operam os níveis mais elevados e complexos da cultura e da cognição.

Para isso, precisamos reconhecer que o ensino talvez seja o ponto nevrálgico da educação brasileira. Se nele nos focarmos, poderemos apaziguarmo-nos com a ideia de que a escola tem como função a promoção do acesso ao conhecimento cultural e científico. Para isso, devemos enfrentar o erro do passado e o provável erro do presente.

Durante muito tempo, enquanto escola, estivemos focados unicamente na transmissão do conhecimento, com aulas centradas no professor e no conteúdo, com o aluno apreendendo as discussões de maneira passiva. Para corrigir o problema, tentamos agora nos focar na aprendizagem, com atividades centradas no aluno e no conteúdo e nas habilidades, com o estudante conduzindo as discussões de maneira ativa.

Contudo, a iniciativa pode, no corrido cotidiano escolar, nos colocar frente a um sério risco: na infância e na adolescência, tudo promove aprendizagem, porém não necessariamente aprendizagem significativa.

Se o planejamento pedagógico for acomodado na noção de que qualquer aprendizado é aprendizagem, e não se der por meio de atividades intencionalmente planejadas a partir de objetivos claros, observáveis, mensuráveis e motivados por altas expectativas, podemos colocar nossos alunos para diariamente aprender pouco ou aprender algo pouco relevante.

O que propomos, então, é que o foco de nosso discurso e nossas práticas esteja no ensino para a aprendizagem, com as aulas planejadas pelo professor com o objetivo de que o aluno apreenda as discussões, delas participe, conduza-as quando pertinente e com elas aprenda.

Por meio de metodologias de ensino de conteúdo significativo voltadas à aprendizagem ativa e ao desenvolvimento de habilidades e competências, professores conseguem engajar qualquer aluno em qualquer conteúdo – mesmo os mais conceituais e distantes de suas realidades e interesses.

Na implementação da BNCC, é fundamental mantermos foco na função educacional, cultural e científica da escola não a partir da superada lógica de transmissão do conhecimento, mas da lógica do ensino do conhecimento para a aprendizagem do conhecimento em prol do desenvolvimento de habilidades e competências.

Para o aluno ser protagonista da própria aprendizagem, o professor tem de ser o roteirista e o diretor do ensino. Se assim não for, o aluno não será protagonista, mas responsável; o professor não será mediador, mas observador.

Sem a clareza de que, independentemente de concepção pedagógica, de instrução direta ou metodologia ativa, a aprendizagem do aluno necessita de um planejamento do ensino por parte do professor, ficaremos ainda por um longo tempo presos no medo de levar conteúdos e objetivos audaciosos para nossas salas de aula.

Precisamos, assim, de investimento de tempo e de recursos materiais e humanos, por parte de sistemas, redes e unidades educacionais, para a elaboração minuciosa dos currículos a que terão acesso os estudantes brasileiros, pois não podemos mais correr o risco de deixar lacunas na formação de nossos alunos.

 

Arthus Bustamante e Daniel Kraichete são coordenadores do curso de pós-graduação “BNCC no Ensino médio: práticas para o currículo escolar”, do Instituto Singularidades

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