A ajuda do audiovisual para uma educação antirracista
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A ajuda do audiovisual para uma educação antirracista

Instituto Singularidades

19 de novembro de 2021 | 10h03

Na última sexta-feira, dia 12 de novembro, o Singularidades e a Tamanduá.edu, plataforma de streaming que oferece mais de mil filmes organizados por etapa do ensino e classificados de acordo com a BNCC realizaram uma nova edição do Cine Debate, reunindo três professoras em torno de documentários que refletem sobre a urgência de se discutir a cultura negra e o antirracismo na escola.

Waldete Tristão de Oliveira, Dayse Ramos, Denise Rampazzo, docentes das graduações em Pedagogia e Letras do Singularidades trocaram impressões sobre seis filmes que fazem parte do acervo da Tamanduá.edu. Em comum, todos têm como pano de fundo a resistência negra forjada na luta por direitos fundamentais e por formas de expressar-se cultural e politicamente.

A seguir, contamos um pouco sobre os filmes e trazemos as indicações das professoras para utilizá-los em sala de aula.

 

A resistência começou no navio negreiro

Os documentários escolhidos por Waldete foram Sobre sonhos e liberdade, de Francisco Colombo e Marcia Paraiso, e Àkàrà no fogo da intolerância, de Claudia Chávez, ambos lançados em 2020. O apagamento do protagonismo negro desde a libertação dos escravizados e as manifestações de resistência formam o tema do primeiro. Já o segundo filme trata da apropriação cultural e da intolerância religiosa, a partir da história do acarajé, prato tradicional da culinária afro-brasileira.

 

Por meio do audiovisual é possível propor discussões e outras atividades em torno no racismo estrutural para turmas de estudantes de várias etapas da educação básica e da superior. Imagem: Acervo Singularidades/Freepik

 

Segundo a professora, Sobre sonhos e liberdade traz uma ideia diferenciada da perspectiva de resistência a partir da ação e da luta, e não da passividade que sempre foi mostrada na escola. O filme lança esta reflexão a partir de manifestações culturais e religiosas do Recôncavo Baiano, como o Nego Fugido e a Irmandade da Boa Morte, grupos que relembram a ancestralidade negra. “O filme mostra que resistência começava no navio negreiro”, comenta ela.

Àkàrà no fogo da intolerância fala da intolerância religiosa e da tentativa de apropriação cultural do acarajé, comida relacionada a Iansã, que por muito tempo era vendido apenas por filhas deste orixá. De acordo com a professora, este documentário oferece a possibilidade de se discutir cultura e religiosidade por meio de análise de campanhas e notícias sobre estes temas.

“Podemos lembrar os casos de crianças que foram agredidas na escola porque usam branco na sexta-feira, ou olhar para documentos e ideias que falam de `capoeira gospel` e `bolinho de Jesus`, tentativas de apagar a origem africana dessas duas formas culturais e aproximá-las do cristianismo.

A professora reforça ainda que os dois filmes podem colaborar na alfabetização diaspórica, ensinando aos estudantes a verdadeira importância da cultura e da religiosidade ancestral africana.

 

Resistências cotidianas

Denise Rampazzo assistiu dois documentários que estão no campo da resistência política, mas de formas diferentes. Libertem Angela Davis, dirigido por Shola Lynch e lançado 2012, fala de como a então jovem professora da Universidade da Califórnia ­— que se tornaria conhecida por sua defesa dos direitos humanos — entrou para a lista das dez pessoas mais procuradas do FBI. Carolina, de 2018, realizado por Camilla Lima, Jéssica Cruz, Natália Francis, Felipe Nunes e Fernanda Pithan reconta a história da escritora Carolina de Jesus a partir de vários relatos, trazendo informações e percepções sobre a obra da escritora Carolina Maria de Jesus.

Denise comenta que o filme sobre Angela Davis possibilita uma discussão profunda com as turmas de estudantes a respeito do racismo estrutural. A perseguição à ativista, feminista e professora é uma mostra de como este tratamento dado a intelectuais e outros formadores de opinião negros vem se repetindo ao longo da história do mundo, como uma tentativa de calar essas vozes.

Outra possibilidade pedagógica para este filme é tratar da interseccionalidade personificada pela ativista norte-americana, mulher negra que criticava os Panteras Negras, que mesmo lutando pelos direitos civis dos negros norte-americanos, não dava voz às mulheres. “Podemos partir disso para ter uma compreensão ampliada de como há pessoas que têm esse papel de lutar por si e por outras pessoas”, aponta Denise.

A resistência de Carolina Maria de Jesus expressa em sua vida e em suas obras é mostrada no documentário de forma sensível, segundo Denise. A professora assinala a urgência de se conhecer personalidades negras que tenham relevância cultural e artística, mas que são pouco conhecidas na escola. “Os professores têm a responsabilidade de fazer essa curadoria. Preciso escolher formas valorativas de apresentar a história dos negros neste país para os meus alunos”.

 

Resistências cotidianas

A última abolição, de Alice Ramos e lançado em 2017, e Djamila Ribeiro, de Daniel Augusto foram os documentários que Dayse Ramos trouxe para a discussão com Waldete Tristão e Denise Rampazzo. Com um enfoque especial no período abolicionista, o primeiro filme aborda os movimentos abolicionistas, a resistência dos escravizados e o papel das mulheres negras na resistência até hoje. A escritora e mestre em filosofia política Djamila Ribeiro, voz que se tornou conhecida nos últimos anos, fala do conceito de lugar de fala, de racismo estrutural, do feminismo negro e do assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos.

Dayse escolheu o episódio de Djamila na série Incertezas Críticas, do Canal Curta. No filme, a escritora parte da discussão sobre posições sociais, e sobre como o racismo estrutura e molda as nossas relações culturais, econômicas, sociais, políticas e religiosas. Ela insere na conversa uma série de exemplos em que ela mostra como é necessário admitir que nossa estrutura é, além de racista, classista e elitista.

“Num documentário como este consigo atravessar as ciências humanas e a literatura, pensar em filosofia, por exemplo, em intelectuais não-europeus, de lógica-não hegemónicas, da geopolítica e de seus tentáculos pautados pelo racismo”, afirma Dayse, que também reforça a necessidade de se falar das representações e resistências cotidianas.

O segundo filme, A última abolição, de 2017, é um documentário potente sobre a “história da negritude, que é uma história de resistência e de liberdade buscada e mantida em movimentos de resistência”, segundo a professora.

Entre as muitas reflexões e propostas de atividades em sala de aula evocados pelo filme, muitos deles são relacionados ao cotidiano, com modelos históricos e diversas outras situações. “Insisto que no ensino superior precisamos pensar em professores que encorajem e deem modelos para esses futuros professores, para que tenham uma formação diferente da nossa e sintam-se representados”, conclui Dayse.

Se você se interessa pela construção de uma construção antirracista e quer saber mais sobre os filmes e as indicações das professoras do Singularidades, confira a conversa o Cine Debate na íntegra aqui.

 

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