Os períodos sensíveis do desenvolvimento cerebral

Os períodos sensíveis do desenvolvimento cerebral

Colégio Graphein

22 Julho 2015 | 10h29

Estamos em semana de capacitação!

Oferecemos aos professores o texto abaixo para que eles se apropriem das fases mais sensíveis para estimulação de novos aprendizados.

Queremos compartilhar com vocês a riqueza deste texto e o quanto ele agrega ao cotidiano dos educadores.

 

 

Os períodos sensíveis do desenvolvimento cerebal

blog1

É certo que podemos aprender coisas novas ao longo da vida. Afinal de contas, se não pudéssemos, simplesmente não teríamos chegado até aqui. No entanto, como esse aprendizado ocorre? E se, ao contrário do que muitas vezes se imagina, disséssemos que uma de suas etapas mais importantes ocorre na infância e não na fase adulta?

Só conhecendo os períodos sensíveis para entender isso melhor.

O que são períodos sensíveis?

O cérebro humano é algo realmente maleável. Assim como hoje sabemos que a genética não é apenas um código fixo, o cérebro também não representa apenas uma circuitaria imutável. Constantemente, as experiências que vivemos moldam, estrutural e funcionalmente, nossos neurônios, e os circuitos neurais se adaptam às necessidades exigidas pelo meio. Essa capacidade é chamada plasticidade neuronal.
O que se observou até hoje é que essa plasticidade é muito maior durante a infância. E, mesmo dentro dessa fase, existem períodos limitados de tempo em que determinadas vias neuronais são excepcionalmente maleáveis. Consequentemente, nesses períodos, a pessoa é muito mais sensível às influências do ambiente, o que acaba por interferir intensamente em seu desenvolvimento cerebral. Esses períodos são chamados de períodos sensíveis.
Tais períodos não ocorrem simultaneamente para todas as partes do cérebro. Além disso, têm durações variáveis para cada conjunto de neurônios e cada função neurológica. Em resumo, isso quer dizer que existem períodos específicos da vida de uma pessoa em que ela tem maior possibilidade de desenvolver uma ou  outra habilidade, e mesmo um ou outro comportamento ou traço de personalidade.

blog

O que acontece nesses períodos?

O cérebro nasce com redes neuronais “provisórias”. Uma vez no mundo, o indivíduo terá que possuir habilidades básicas para sua sobrevivência e, ao mesmo tempo, conseguir se adaptar a diversas influências imprevisíveis do meio (respostas adaptativas que, portanto, não podem estar já codificadas em seus genes). Na vida intra-útero, o cérebro fetal se assemelha mais a uma espécie de rascunho: ele possui todos os circuitos que executam as funç
ões básicas de um cérebro, mas esses circuitos podem ser apagados e reescritos.
Por conta de várias influências moleculares, o cérebro infantil tem neurônios e sinapses extras, muitas das quais não estarão presentes na vida adulta. Esses neurônios já possuem a capacidade de produzir novos axônios, dendritos e sinapses conforme a necessidade (capacidade que está especialmente aumentada durante os períodos sensíveis). Isso basta para que tenhamos um cérebro preparado para praticamente tudo.
Conforme a criança passa por algumas experiências, certas vias neuronais vão sendo ativadas, dependendo de qual estímulo ela recebe do meio. Ao longo desse processo, as sinapses mais usadas são fortalecidas, inclusive por proteínas de adesão que ancoram os neurônios pré e pós-sinápticos uns aos outros. Novos axônios, dendritos e sinapses vão sendo formados e, se as novas vias forem usadas (ou seja, se forem úteis), elas passam pelo mesmo processo de fortalecimento. Ao mesmo tempo, as vias que não estão sendo usadas são suprimidas e até eliminadas, de forma a impedir i
nterferências desnecessárias no funcionamento do conjunto de neurônios como um todo.
O resultado é um refinamento gradual do cérebro: uma função de cada vez, conforme os períodos sensíveis e a infância vão passando, e forma-se um adulto hábil e adaptado ao meio em que vive. Isso também quer dizer que o resultado não vai ser sempre bom, já que a sensibilidade não é seletiva e a criança está suscetível a mudar tanto por estímulos positivos quanto negativos.

Mas… e no adulto?

Infelizmente, não é possível trazer períodos sensíveis com todo o s
eu vigor para a fase adulta. Mas, é claro que adultos também precisam aprender sempre. Para isso, a plasticidade neuronal cont
inua e dura o resto da vida. Só que em um ritmo menor. Algumas áreas do cérebro mantém plasticidade semelhante à da infância, como o hipocampo (responsável pelo aprendizado, memória e controle emocional).
De qualquer forma, a capacidade de se desenvolver, aprender e mudar continuam. Elas podem, inclusive, ser potencializadas em grande escala por algumas medidas. O simples fato de se prestar atenção em uma atividade ou informação já aumenta muito a plasticidade das vias neuronais que estão sendo usadas para aquela determinada tarefa. Outro exemplo é o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), substância conhecida por estimular a plasticidade neuronal, e produzida em maior escala em resposta aos exercícios físicos.

E qual é a importância de tudo isso?

Os períodos sensíveis ainda não são plenamente compreendidos por conta de sua complexidade. Ainda não existem medidas psicológicas claras que interfiram nos momentos exatos da maturação cerebral para usá-los a nosso favor.
Contudo, eles nos mostram que a infância é um período essencialmente relacionado ao aprendizado. Tanto que crianças têm maior facilidade em aprender novas línguas, a tocar instrumentos e mesmo em desenvolver comportamentos e visões de mundo mais éticas e saudáveis.
Consequentemente, tais períodos de maior sensibilidade influenciam muito no tipo de adulto que uma criança se tornará e evidenciam como o meio afeta essa faixa etária, abrindo portas para entendermos as consequências de traumas, más-influências, negligência e mesmo doenças orgânicas na infância. Da mesma forma, também apontam caminhos para futuras intervenções, através de novos tratamentos e prevenção otimizada.
Fontes: Neuropsychopharmacology Reviews, Journal of Cognitive Neuroscience