CRIANÇAS AUTISTAS VÃO À ESCOLA

CRIANÇAS AUTISTAS VÃO À ESCOLA

Colégio Graphein

27 Outubro 2015 | 14h53

Todos nós que estamos trabalhando na área da educação há certo tempo podemos constatar que nos últimos anos a frequência de alunos com desenvolvimento atípico cresceu muito, e dentre estes, os alunos assim chamados, autistas. Que bom! É positivo, necessário e um direito de toda criança ter acesso ao sistema escolar, porém é fundamental, para bem atendê-los, um trabalho pedagógico diferenciado.

Proporcionar a estes alunos uma formação de qualidade e mediar seu desenvolvimento não é simples e não se torna realidade apenas com a entrada deles no ambiente escolar. São necessárias ações voltadas à capacitação do professor e à mudança dos paradigmas da escola. É preciso rever a formação do professor de modo a ajudar o educador a lidar com as demandas específicas de cada aluno, com ou sem necessidades especiais.

No caso de alunos do espectro do autismo é fundamental que toda comunidade escolar, e de forma especial os professores, entendam o que é autismo, compreendam que aquele indivíduo processa as informações de maneira diferente, que cada uma dessas especificidades exige adaptações na rotina da sala de aula e, principalmente, que acredite no potencial de desenvolvimento destes estudantes.

Vamos compartilhar um pouco de nossa experiência com a escolarização de alunos do espectro do autismo, ao longo de mais de 25 anos em uma escola que tem a proposta de trabalhar a diversidade.

Em primeiro lugar é importante caracterizar os pontos fundamentais, que nos ajudam a qualificar um indivíduo como sendo autista. Em linhas gerais podemos dizer que são indivíduos que apresentam déficits na comunicação e na interação social, além de comportamentos repetitivos e áreas restritas de interesse.

Outro ponto que vale a pena esclarecer é que, quando falamos em “espectro do autismo” estamos nos referindo às variações na intensidade das manifestações destas características em cada indivíduo em particular. No autismo, o grau de comprometimento varia de intensidade: há quadros leves, nos quais não há comprometimento da fala e da cognição, e outros mais graves, em que o indivíduo é incapaz de manter contatos interpessoais e demonstra comportamento agressivo.

Vale ressaltar que, apesar de ser um grupo com características em comum, cada ser humano com autismo é único, e que cada um manifesta os sintomas de forma diferente. O mais importante é saber que antes de enxergarmos o autismo temos que ver a pessoa na sua singularidade. Temos então, crianças tímidas e com autismo, teimosas e com autismo, calmas ou agitadas apesar do autismo.

A seguir vamos abordar alguns aspectos que precisam ser cuidados de maneira muito específica em estudantes do espectro do autismo.

COMUNICAÇÃO: um dos pontos fundamentais na inclusão escolar de alunos do espectro do autismo é o estabelecimento de um canal de comunicação eficaz entre o educando e o educador. É importante que a escola estabeleça uma parceria efetiva com a família e com os profissionais que trabalham com este aluno para que a comunicação seja estimulada de forma a garantir que o indivíduo generalize e consiga se comunicar de forma eficaz em todos os ambientes que frequenta.

REGRAS E LIMITES: de maneira geral, a pessoa com autismo tem dificuldade em aceitar limites, até porque a demanda coletiva e/ou a demanda do companheiro de classe, por exemplo, é um território desconhecido. E a intervenção do educador precisa levar isto em conta. Ou seja, não basta estabelecer os limites para atuação, é preciso dar alternativas para uma atuação adequada. E estas alternativas devem acontecer na forma de instruções concretas e de modelos. Por exemplo, não basta dizer: “– Não entre nesta sala agora, pois não é sua turma que vai usá-la!” É preciso dizer: “– Entre na sala cinco porque sua turma está lá agora.”.

ROTINA: uma questão também muito importante no trabalho escolar com estas crianças é sua necessidade de estruturação e rotina. Muitos problemas podem ser evitados se o aluno tiver claro quais serão suas atividades no dia, quais ambientes vai usar, quem trabalhará com ele. As novidades e surpresas precisam ser trabalhadas caso a caso, porém a base inicial deve ser a rotina estruturada.

INSTRUÇÕES: devem-se evitar séries de instruções verbais longas. Muitas vezes, as pessoas com autismo têm dificuldade para lembrar sequências de palavras faladas (lembremos que o mundo do diálogo não é a zona de conforto da pessoa autista). Se o aluno souber ler, escrever as instruções pode ajudar. Muitas pessoas com autismo são pensadores visuais. Em um depoimento de uma jovem autista, ela diz “Penso por imagens. Imagens são minha primeira linguagem”.

TALENTOS ESPECIAIS: muitas crianças com autismo são bons desenhistas, musicistas, bons em informática… Estes talentos devem ser encorajados e valorizados, porém sem nos esquecermos de que nossa função como educadores é propiciar a formação global destes estudantes.

CENTROS DE INTERESSES: crianças autistas costumam ter centros de interesses muito restritos e chegam a ter fixação em determinado assunto. A melhor forma de trabalhar com essas fixações é usá-las como motivos de trabalhos escolares. Aos poucos, a partir de um bom vínculo estabelecido os educadores devem estimular a ampliação destes interesses, mas sempre de maneira lúdica e não impositiva.

PERCEPÇÃO DE ESTÍMULOS: a percepção sensorial das pessoas com transtorno do espectro do autismo pode variar de hiper para a hipo, ou seja, podem ser muito sensíveis a toques e/ou barulhos, ou podem ser pouco sensíveis. No ambiente escolar as situações de muito barulho como eventos com música, aulas em que os alunos conversem muito, são momentos em que precisamos ter especial atenção às crianças autistas.

BRINQUEDOS: inicialmente as crianças autistas usam brinquedos quase que exclusivamente girando e sacudindo, quando ficam um pouco mais velhas tendem a enfileirar ou arrumar, num movimento de categorização e organização. Mais tarde podem fazer uso dos brinquedos ritualizando, geralmente em ações repetitivas. É necessária a mediação permanente do educador para que a criança autista supere esta dificuldade para brincar e simbolizar, e construa a habilidade de usar brinquedos e outros objetos de forma imaginativa.

MOVIMENTOS ESTEREOTIPADOS: são movimentos repetitivos, não funcionais e muitas vezes aparentemente intencionais. Este comportamento motor pode interferir grandemente nas atividades do dia a dia e pode, até mesmo, resultar em lesões. No ambiente escolar a melhor forma de trabalhar esta questão é desviar o foco de atenção e propor atividades que despertem o interesse da criança. O princípio é incentivar um comportamento alternativo para substituir o indesejável como estratégia para alcançar o comportamento desejado.

COGNIÇÃO: autismo é considerado um transtorno mental e de comportamento, porém algumas pessoas com autismo podem ter também, associada, uma deficiência intelectual. Mas, é importante lembrar que não são todas as pessoas com autismo que têm deficiência intelectual, algumas, inclusive, apresentam inteligência acima do normal.

E, para concluir, podemos dizer que a formação escolar do aluno autista deverá propiciar situações de aprendizado, ampliar seu repertório de interesses, enriquecer sua comunicação, construir gradativamente a percepção dos comportamentos socialmente aceitos e dar condições para que possa manter relacionamentos positivos com seus pares.

Camila D’Amico

Coord. Pedagógica

Equipe Graphein

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