Educação financeira e inflação: use notícias para trabalhar os temas

Educação financeira e inflação: use notícias para trabalhar os temas

Francisco Artur, especial para o Estadão

22 de outubro de 2021 | 17h41

Seja na promoção do consumo consciente ou até na compreensão de que os juros compostos podem multiplicar o seu dinheiro, a educação financeira tem espaço nas escolas. Incluído na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) na lista dos Temas Contemporâneos Transversais (TCTs), o assunto pode ser trabalhado nas aulas de matemática por meio de análises e da utilização de reportagens de jornais e vídeos no Youtube como base para propor discussões e exercícios.

Outro tema que pode ser levantado com os estudantes é a inflação no Brasil, que é  a maior para o mês de setembro desde o início do Plano Real. A taxa acumulada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da variação de preços no País, chegou a 10,25% em 12 meses. Sendo que a meta perseguida pelo Banco Central neste ano era de 3,75%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual.

Professor nos ensinos fundamental e médio em dois colégios privados na cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo, o matemático Marcos Barbosa sabe muito bem disso. Seus alunos, que têm idade entre 11 a 17 anos, veem na classe que os conteúdos informativos na internet podem ser um caminho para aprender sobre fundamentos básicos da economia.

Alunos precisam entender que é necessário gastar menos do que se ganha. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

“Antigamente, a cultura era pedir ao aluno para desligar o computador e o celular. Hoje, não, tudo começa pelo Google e Youtube, que são os sites onde iremos procurar reportagens em texto e vídeos para iniciar nossa discussão em sala. Nesse momento, o professor age como um guia, indicando os conteúdos para a turma e provocando uma reflexão sobre o tema”, explica Barbosa.

Um dos conteúdos quem podem ser usados em sala de aula é o projeto Por Minha Conta, que traz reportagens, vídeos e conteúdo de podcast sobre educação financeira. As matérias foram pensadas para adolescentes, com enfoque voltado para os dilemas financeiros dessa faixa etária. E incluem dicas de técnicas fáceis para não ultrapassar gastos e até conseguir investir.

Confira aqui um dos vídeos do projeto, que conta com acessibilidade total. Aqui, os repórteres fazem uma brincadeira mostrando seus ‘outfits’ nas diferentes moedas que o Brasil teve dos anos 1970 até agora.

 

Na avaliação do professor Barbosa, a didática sobre educação financeira deve ir além da compreensão de cálculos matemáticos e de operações em planilhas. Para ele, o foco das aulas ministradas com estudantes do 6º ano até o ensino médio deve ser “transformar a informação em conhecimento”, visando fomentar ideias sobre profissões, carreira e independência econômica.

“A discussão em sala acontece para que o aluno pense em seu futuro profissional”, explica Barbosa. “A educação financeira não é sobre ganhar um bom salário, mas sim a lógica de que, independente da remuneração que o futuro profissional venha receber, seja possível entender que é preciso gastar menos do que ganha e, assim, poder realizar sonhos e projetos de vida.”

Matemática do dia a dia

A compreensão sobre a importância de controlar os gastos também é parte da didática das aulas do professor de matemática Ezington Lopes. Conhecido por seus alunos pelo apelido ‘Zig’, ele defende que a educação financeira é uma forma de atrair a comunidade escolar para o estudo da sua disciplina.

“Quando me falam que não gostam de matemática, eu reforço a importância da educação financeira porque ela está em nosso dia a dia e pode ser aplicada em tudo na nossa vida como consumidor”, argumenta.

Se o assunto permeia situações relacionadas ao cotidiano dos alunos, nada mais justo que a didática do professor Zig trabalhe com exemplos reais em suas aulas, como a análise da flutuação de preços dos alimentos no mercado em determinado intervalo de tempo, com o objetivo de propor uma discussão em sala sobre conceitos de inflação.

“Além de apresentar matérias de jornais e vídeos que falam sobre projeção de inflação no País, eu proponho que, pelo menos uma vez no mês, os alunos prestem atenção e anotem o valor dos produtos da cesta básica no supermercado”, conta Zig, que atua em duas escolas particulares de Salvador. “Ao longo do ano, produzimos um relatório comparando os preços e vendo qual produto teve maior elevação. Dessa forma, eles entendem o que é inflação.”

Que tal pedir que os alunos registrem e comparem preços no supermercado? Foto: Pixabay

 

Resultados

Tanto nas aulas de Zig como nas discussões propostas pelo professor Barbosa, os resultados dos ensinamos sobre educação financeira só podem ser vistos a longo prazo. Segundo o educador de São Bernardo do Campo, porém, suas classes já serviram de motivação para que o aluno egresso do ensino médio optasse por seguir uma carreira ligada ao mercado financeiro.

“Alguns jovens que acompanho na escola e na minha mentoria já desenvolveram este interesse, após estudar o básico de educação financeira”, conta o matemático.

Nas aulas do professor Zig, efeitos pontuais do aprendizado de conceitos da educação financeira também podem ser considerados. “Quando o aluno percebe essa flutuação de preços, ele questiona o porquê desta mudança. Então, é muito comum meus alunos pedirem explicações sobre o fato de os lanches na cantina da escola estarem mais caros do que no ano passado, por exemplo”, conta.

 

Atividades propostas:

Proposta 1

A educação financeira é um convite para um trabalho de campo. Peça para cada aluno ir, uma vez por mês, a um supermercado para avaliar quanto custam os produtos da cesta básica. Chegando em casa, os estudantes devem anotar os valores e produzir gráficos que ajudem a notar a flutuação de preços ao longo do tempo. O material coletado pela turma vai servir de base para iniciar em sala de aula uma discussão sobre o que é a inflação e os impactos que tem no dia a dia dos brasileiros. Para complementar essa dinâmica, é possível utilizar artigos, reportagens e vídeos no Youtube sobre projeções para a inflação no Brasil.

Atividade 2

Em qualquer ciclo, o professor de matemática pode propor uma situação problema a ser solucionada em um determinado prazo. A questão hipotética buscará a melhor forma de realizar uma obra com um orçamento baixo. A ideia é que os estudantes formem grupos de até quatro pessoas para definir quais devem ser os gastos prioritários da reforma imaginária.

Nesse contexto, o professor pode pedir para que os grupos organizem o orçamento, indo a campo para checar o valor dos produtos no comércio. A proposta do exercício é proporcionar aos estudantes uma ideia de definição das prioridades e realização de escolhas financeiras com base em um orçamento.

Fale para os alunos dividirem em envelopes o que podem gastar. Foto: Luciana Lino/Estadão

 

Atividade 3

Uma ou duas semanas antes das datas comerciais (como Semana Brasil e Black Friday), peça que os alunos de ensino fundamental e médio anotem preços nas lojas de shoppings e de mercados. Depois, eles devem repetir as pesquisas quando esses eventos ocorrem no comércio. A ideia é que os estudantes observem se, de fato, estarão disponíveis os descontos prometidos pelo comércio.

Após essa atividade de campo, os alunos devem entregar um relatório contando o que viram. O objetivo aqui é fiscalizar se os lojistas cumprem com as promessas de desconto.

A elaboração das atividades contou com o apoio dos professores Marcos Barbosa e Ezington Lopes, além do  jornalista, professor e educomunicador Bruno Ferreira.

 

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

 

Competências trabalhadas:

(EF05MA06) Associar as representações 10%, 25%, 50%, 75% e 100% respectivamente à décima parte, quarta parte, metade, três quartos e um inteiro, para calcular porcentagens, utilizando estratégias pessoais, cálculo mental e calculadora, em contextos de educação financeira, entre outros.

(EF06MA13) Resolver e elaborar problemas que envolvam porcentagens, com base na ideia de proporcionalidade, sem fazer uso da “regra de três”, utilizando estratégias pessoais, cálculo mental e calculadora, em contextos de educação financeira, entre outros.

(EF07MA02) Resolver e elaborar problemas que envolvam porcentagens, como os que lidam com acréscimos e decréscimos simples, utilizando estratégias pessoais, cálculo mental e calculadora, no contexto de educação financeira, entre outros.

(EF09MA05) Resolver e elaborar problemas que envolvam porcentagens, com a ideia de aplicação de percentuais sucessivos e a determinação das taxas percentuais, preferencialmente com o uso de tecnologias digitais, no contexto da educação financeira.

 

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