Nuvens de poeira ajudam a discutir em sala a intervenção humana no ambiente

Nuvens de poeira ajudam a discutir em sala a intervenção humana no ambiente

Tempestades de areia, que apareceram em vários Estados, causaram espanto e temor entre os moradores

Shagaly Ferreira, especial para o Estadão

08 de outubro de 2021 | 21h29

As tempestades de areia, registradas em pelo menos cinco Estados brasileiros entre o fim de setembro e o início de outubro, causaram espanto e temor entre os moradores dos locais atingidos, e repercutiram pelo Brasil, por meio dos noticiários e das redes sociais. Foram muitos os registros feitos durante a passagem das nuvens, que demonstraram a dimensão do impacto das rajadas de vento, além dos danos causados pelo fenômeno que, segundo especialistas, expõe os efeitos da degradação ambiental no País.

A reportagem Nuvens de poeira avançam em cinco Estados e são alerta para extremo climático, da jornalista Priscila Mengue, explicou que as chamadas haboob, como também são conhecidas tempestades desse tipo, embora já tenham sido registradas no Brasil em períodos de seca, chamaram a atenção nesta ocasião por causa da proporção e da frequência atípicas. Com base nas análises dos estudiosos ouvidos para a matéria, o texto ainda traz um alerta sobre a influência da atividade humana – como a devastação na Amazônia e as queimadas em vegetações locais – na ocorrência de extremos climáticos.

Em sala de aula, as tempestades de areia são um tema que se relaciona com as Ciências Naturais e Humanas, possibilitando a ampliação do debate sobre a intervenção humana no meio ambiente e seus efeitos em toda a cadeia natural. Para o professor de Geografia, Rodrigo Baglini, da rede estadual de São Paulo, assuntos como o desmatamento e o aquecimento global podem ser associados ao fenômeno.

“Com o constante processo de desmatamento em outras regiões do globo, tais como o Brasil, o solo vem ficando exposto de tal modo que acaba sofrendo com fortes ventanias. Para além do desmatamento, o aquecimento global também é um forte indicador de mudanças climáticas locais, em que períodos de estiagem ou seca passaram a ser mais recorrentes”, explica.

No vídeo a seguir, Priscila Mengue, que é repórter do caderno Metrópole, no Estadão, conta os bastidores da cobertura sobre as tempestades de areia, da apuração local até o trabalho de infografia.

Baglini ainda pontua que o episódio das tempestades pode suscitar outras discussões a partir dos conteúdos já previstos no currículo escolar, como os temas ligados à industrialização e às práticas agrícolas. Para ele, a Geografia, por ser uma ciência essencialmente estabelecida pelas relações entre o ser humano e o meio, consegue identificar, a partir das tempestades de areia (haboob), diversos conteúdos que estão previstos no currículo do ensino fundamental 2 e ensino médio. “Sobretudo acerca dos processos de industrialização mundial, que estão conectados a políticas neoliberais que costumam ferir o tempo da natureza a partir da ocupação de territórios, podendo ser observados, por exemplo, no avanço das novas fronteiras agrícolas presenciadas no Brasil.”

Nuvem de poeira no interior de São Paulo – Foto: Reprodução/MetSul Meteorologia

O episódio do fenômeno haboob no Brasil, além de alertar para as intervenções necessárias para frear a degradação ambiental já existente, pode motivar propostas de ações preventivas, que têm na sala de aula o espaço propício para o desenvolvimento. A observação prática dos efeitos da exploração extrativista, alinhada com o conteúdo teórico dos livros e pesquisas, ajuda a tornar significativa e objetiva para os estudantes a aprendizagem sobre as mudanças e transformações climáticas, explica o professor.

“A compreensão da Geografia, por muitas vezes, é algo bastante abstrato para os estudantes, porém, a partir com fenômeno das tempestades de areia, que atingiu particularmente áreas agrícolas, a disciplina então passou a ser mais significativa”, diz. Para ele, já que o Brasil é um País de grande produção e dependência agrícola, e com as dificuldades de plantação e posterior colheita geradas por este fenômeno, nossa alimentação, somadas a crise do dólar, podem impactar diretamente o prato do estudante. “Por isso, levantar essa discussão em sala de aula é algo de grande importância.”

Para auxiliar a discussão em sala, atividades de pesquisa individual ou em grupo, além do trabalho com confecções de mapas mentais, são estratégias que podem ser aliadas dos professores ao abordar a temática. Abaixo, algumas atividades foram sugeridas para a colaboração do trabalho pedagógico com o tema em questão.

Propostas de atividades

Atividade 1 – Mapa mental em grupo

Agrupe os alunos em 5 equipes. Peça para que realizem uma busca por conteúdos midiáticos com pautas ambientais que tenham como centro outros fenômenos naturais ocorridos recentemente no Brasil. Com esse material, solicite que esses estudantes façam associações entre os fenômenos de impacto ambiental pesquisados, as tempestades de poeira e as intervenções humanas na natureza.

Em casa, os alunos devem criar um mapa mental, produzindo uma teia composta pela tempestade de areia e por outros fenômenos ambientais, estabelecendo um sentido entre eles. Estes mapas serão apresentados em sala para que sejam discutidas as relações entre as atividades humanas de exploração e os impactos socioambientais.

Atividade 2 – Pesquisa individual

Solicite que cada estudante, individualmente, realize uma pesquisa em casa sobre a ocorrência do fenômeno das nuvens de areia em anos anteriores. A partir do material coletado pelos alunos, discuta o tema em sala, analisando os registros encontrados e as características de cada situação, além de identificar as semelhanças e as diferenças em relação às tempestades ocorridas em 2021 e as anteriores.

Disciplinas envolvidas: Geografia, Ciências Naturais e Ciências Humanas

Competências:

(EF03GE04) Explicar como os processos naturais e históricos atuam na produção e na mudança das paisagens naturais e antrópicas nos seus lugares de vivência, comparando-os a outros lugares.

(EF04GE11) Identificar as características das paisagens naturais e antrópicas (relevo, cobertura vegetal, rios etc.) no ambiente em que vive, bem como a ação humana na conservação ou degradação dessas áreas.

(EF06GE13) Analisar consequências, vantagens e desvantagens das práticas humanas na dinâmica climática (ilha de calor, etc.).

(EM13CNT206) Discutir a importância da preservação e conservação da biodiversidade, considerando parâmetros qualitativos e quantitativos, e avaliar os efeitos da ação humana e das políticas ambientais para a garantia da sustentabilidade do planeta.

(EM13CHS302) Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais –, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade.

A elaboração das atividades contou com a colaboração do assessor pedagógico, Bruno Ferreira.

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

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