Crise migratória nos EUA motiva discussões sobre América Latina

Crise migratória nos EUA motiva discussões sobre América Latina

Isabela Moya, especial para o Estadão

01 de outubro de 2021 | 00h44

Imagens de agentes da Patrulha de Fronteira entre o México e os Estados Unidos montados a cavalo com supostos chicotes na mão, tentando empurrar imigrantes de volta ao território mexicano, repercutiram nas mídias e provocaram críticas ao governo norte-americano por abuso dos direitos humanos das pessoas que tentavam cruzar a fronteira.

As cenas representam a crise migratória nos Estados Unidos protagonizada por latino-americanos vindos, em sua maioria, da Venezuela e de países da América Central, como México, Cuba e Haiti, além de Honduras, Guatemala e El Salvador, o chamado Triângulo Norte. Esse momento complicado pode motivar discussões interessantes em sala de aula sobre crises migratórias.

 

Agentes americanos a cavalo e imigrantes na fronteira. Foto: Daniel Becerril/Reuters

 

Gilberto Rodrigues, coordenador da Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e autor do livro Refugiados: O Grande Desafio Humanitário, explica que é preciso fazer uma distinção entre os diferentes tipos de migração. “A gente tem basicamente dois grandes fluxos. Um é o de migração voluntária, que tem forte componente econômico e está ligado ao desejo das pessoas de constituir residência em outros países”, esclarece o professor. “O outro é uma migração forçada, que inclui as pessoas refugiadas, mas também aquelas que hoje são chamadas de deslocadas ambientais (pessoas que deixam seus países de origem por conta de alterações no meio ambiente).”

O Haiti é o país mais pobre das Américas e vive uma situação de grande instabilidade social, política e econômica. É de lá que sai parte do mais recente fluxo de imigrantes sem documentação rumo aos Estados Unidos. Apesar de o fenômeno não ser recente, uma particularidade dos tempos atuais tem chamado a atenção: o uso das redes sociais para disseminação de informações, nem sempre corretas, a respeito das leis de recepção de imigrantes que chegam em solo norte-americano.

De acordo com Rodrigues, o caso do Haiti é uma situação particular porque o índice de pobreza do país é muito grande e também por conta de eventos naturais, como os terremotos ocorridos em 2010 e em abril deste ano. Essa condição tem causado diversos problemas de infraestrutura no país, levando a um intenso fluxo de deslocamento. “Na América do Sul, o fluxo de haitianos ultrapassou 80 mil pessoas”, conta. “Muitos ficaram no Brasil, outros foram para o Chile. E agora há um fluxo mais intenso para os Estados Unidos.”

Os países do Triângulo Norte também têm um intenso deslocamento em direção aos Estados Unidos. Segundo o professor, nesse fluxo de pessoas vindas de Honduras, Guatemala e El Salvador há casos de migração forçada e voluntária. “Esse deslocamento ocorre há mais de uma década. Algumas das razões tem a ver com violações generalizadas de direitos humanos tanto por parte dos Estados quanto por grupos de crime organizado”, diz Rodrigues.

O governo encerrou o Protocolos de Proteção a Migrantes, mas não anunciou nenhum substituto Foto: John Moore/Getty Images/ AFP

Ainda há um crescimento grande do número de pessoas refugiadas saídas da Venezuela. “Estamos falando de mais de 5 milhões de pessoas refugiadas fora da Venezuela, um número que só é maior do que o da Síria. O país vive uma crise política, econômica, sanitária. É uma crise humanitária sem precedentes”, afirma o professor.

Rodrigues explica que a migração de brasileiros é majoritariamente de natureza voluntária. “O Brasil não é um regime autoritário ou de violações gravíssimas e sistemáticas de direitos humanos para ser colocado no patamar da Venezuela ou de El Salvador, por exemplo. A maior parte dos brasileiros que residem nos Estados Unidos é fruto de uma migração econômica”, afirma.

Após cruzar a fronteira

Do ponto de vista do direito internacional, há uma defesa de que as fronteiras possam estar abertas sobretudo para pessoas que não têm alternativa a não ser sair do seu país de origem, para evitar que sejam mortas, torturadas ou que sofram graves atentados aos direitos humanos.

Em relação à migração forçada, todos os países da América Latina – com exceção da Venezuela – respeitam a Convenção de Genebra relativa ao Estatuto do Refugiado de 1951, que regulamenta o direito de asilo desses imigrantes e as responsabilidades das nações participantes. “Quando chegam ao território estrangeiro alegando serem pessoas refugiadas, os países precisam respeitar esse direito, mesmo que elas não tenham passaporte”, afirma Rodrigues.

Os Estados Unidos não assinaram a convenção. Diferentemente da maioria dos países latino-americanos, lá o processo de refúgio é feito por juízes de imigração que, em geral, analisam cada caso individualmente. Quando o imigrante entra com pedido voluntário de refúgio ou é detido pela polícia, o juiz avalia a solicitação levando em conta alegações de tortura, discriminação e violação dos direitos humanos, por exemplo.

 

Imigrantes da América Central aguardam autoridades na fronteira entre EUA e México. Foto: John Moore/Getty Images/AFP

 

“Nós estamos falando não apenas de adultos, mas de crianças. Uma das questões mais graves que vimos ocorrer foi no governo do ex-presidente Donald Trump. Crianças ficaram desacompanhadas à mercê do tráfico e da exploração sexual porque seus pais foram separados delas. Isso, do ponto de vista do direito internacional, foi uma violação gravíssima”, salienta o professor.

Marcelo de Carvalho, professor de Geografia do Ensino Médio do Colégio Pentágono, acredita que é importante abordar com os alunos em sala de aula os mitos relacionados aos fluxos migratórios. “O primeiro mito é pensar o imigrante como um bandido, alguém que vai aos Estados Unidos para roubar e cometer crimes”, explica Carvalho. “O outro mito é de que eles vão roubar empregos porque, em geral, o nível de qualificação dessas pessoas é baixo em comparação ao nível do norte-americano.”

 

Propostas de atividades: 

Atividade 1

Separe os alunos em grupos e proponha uma comparação entre os movimentos  migratórios do passado, ensinados durante as aulas, e os fluxos atuais, abordados ao longo da reportagem.

Cada grupo pode se dedicar a uma comparação específica, por meio de leituras do material didático e de pesquisas na internet.

O objetivo é estabelecer semelhanças e diferenças entre as motivações que ocasionam esses fluxos migratórios e perceber se há uma tendência de repetição da história ou se as causas variam em decorrência da época.

Os alunos devem trazer as informações encontradas para uma apresentação ou um debate em sala de aula, com a mediação do(a) professor(a).

 

Atividade 2

Separe os alunos em duplas ou trios e peça que conversem com pessoas que migraram para o Brasil ou que estudem a história de personalidades conhecidas que saíram de seus países de origem.

Peça aos alunos que perguntem ou investiguem quais são os maiores desafios, os aprendizados e os ensinamentos que essas pessoas vivenciaram.

Em seguida, os alunos devem elaborar um material – como um vídeo, por exemplo – para ser veiculado nas redes sociais da escola, contando o que aprenderam através das conversas e das pesquisas. O objetivo é promover o enriquecimento cultural e fazer os alunos refletirem sobre o preconceito em relação aos imigrantes, desconstruindo essa imagem por meio de peças de comunicação.

 

O material teve colaboração de Bruno Ferreira, assessor pedagógico do EducaMídia, programa de educação midiática do Palavra Aberta; Gilberto Rodrigues, coordenador da Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC; e Marcelo de Carvalho, professor de Geografia do Ensino Médio do Colégio Pentágono.

 

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

 

Disciplinas envolvidas: Geografia e História

Competências trabalhadas:

(EF07CI08) Avaliar como os impactos provocados por catástrofes naturais ou mudanças nos componentes físicos, biológicos ou sociais de um ecossistema afetam suas populações, podendo ameaçar ou provocar a extinção de espécies, alteração de hábitos, migração etc.

(EF08GE04) Compreender os fluxos de migração na América Latina (movimentos voluntários e forçados, assim como fatores e áreas de expulsão e atração) e as principais políticas migratórias da região.

(EF04HI09) Identificar as motivações dos processos migratórios em diferentes tempos e espaços e avaliar o papel desempenhado pela migração nas regiões de destino.

(EF04HI11) Analisar, na sociedade em que vive, a existência ou não de mudanças associadas à migração (interna e internacional).

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