‘Sex Education’: como a realidade mostrada na série chega à sala de aula no Brasil?

‘Sex Education’: como a realidade mostrada na série chega à sala de aula no Brasil?

Luis Filipe Santos e Italo Cosme, especiais para O Estadão

17 de setembro de 2021 | 17h54

Número de adolescentes grávidas acima da média mundial, aumento das infecções sexualmente transmissíveis, casos recorrentes de homofobia e violência contra mulheres – mesmo as mais novas. Problemas que podem ser mitigados com duas palavrinhas, na opinião de especialistas: educação sexual.

Sim, porque incluir Aquele Assunto nas escolas não tem como objetivo estimular o sexo nessa faixa etária, mas garantir que meninos e meninas tenham uma relação melhor e mais saudável consigo mesmos e com as pessoas à sua volta. E assim reduzir também a evasão escolar, que ocorre quando gravidez e bullying entram em cena nos colégios.

O dia do lançamento da terceira temporada da série Sex Education, fenômeno da Netflix, é uma boa oportunidade para pensar em como trabalhar o tema em sala de aula. Para isso, é possível contar com o conteúdo do recém-lançado projeto especial Aquele Assunto, produzido pela 31ª turma do Curso Estadão de Jornalismo.

Ilustração: Erick Correia

Uma das reportagens mostra justamente como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) falha na orientação sobre o tema. As lacunas refletem diretamente no chão da escola, com a limitação e a superficialidade dos assuntos. Enquanto no ensino fundamental o tema é tratado brevemente no 8º ano, no ensino médio é citado apenas como uma diretriz geral, que pode aparecer em várias disciplinas.

Além de estar presente no site e no Youtube do Estadão, o conteúdo pode ser conferido no Instagram e no TikTok, de uma forma bem leve para os adolescentes.

Abaixo, a repórter Maria Miqueletto, integrante da turma do Curso Estadão de Jornalismo, explica como surgiu a ideia do tema, o trabalho para desenvolver o projeto e a colaboração dos colegas para estruturar o especial publicado.

A professora Bianca Ventura, psicóloga e orientadora educacional de ensino fundamental 2 e do ensino médio do Colégio Anglo Chácara, destaca a importância de criar um ambiente seguro e respeitoso para furar a bolha do tabu. “O trabalho com sexualidade na escola requer cuidado com as crenças e os valores familiares, além de suscitar incômodo e vergonha em muitos jovens”, explica. Segundo ela, a abordagem consiste em compreender como a sexualidade nos afeta e trazer respostas científicas, para que o jovem não dependa unicamente da família ou de conversas informais com os amigos da mesma idade.

Em um assunto que naturalmente desperta a curiosidade dos jovens, os professores também devem estar preparados para responder a perguntas sobre gênero e orientação sexual. É bastante provável que os alunos tenham questionamentos sobre ambos e os façam em sala.

A professora Verena Santos, que leciona Biologia para alunos do ensino médio na rede estadual de São Paulo, diz ter visto bons resultados em uma matéria eletiva que apresentou para alunos do primeiro ano. “Usei cartazes, apresentações em powerpoint, jogos de cartas e de tabuleiro, produção de vídeos, e até um júri simulado de um tema relacionado. Eles se interessaram muito”, conta Verena, que viu sua eletiva aparecer entre as mais escolhidas pelos estudantes.

Rafael Antunes, coordenador de conteúdo e repertório da Escola Vereda, opina que os professores podem deixar que os alunos construam o próprio conhecimento nas aulas de educação sexual, assumindo o protagonismo a partir de determinados valores e objetivos, como respeito à diversidade, conhecimento do corpo e cuidados com a saúde. “A partir desses objetivos, são propostas atividades de debate e produção como histórias em quadrinhos, análise de documentários, murais colaborativos digitais, rodas de debate e produções para intervenção no espaço escolar”, aponta o educador.

Ilustração Erick Correia

Outro ponto importante e negligenciado trata das masculinidades. Pesquisador do assunto, o professor Caio Cesar defende que a relação entre os meninos perde a naturalidade e resiste na violência com o passar dos anos. O especialista cita que ainda nos anos iniciais do ensino fundamental os meninos são mais carinhosos uns com os outros, mas as atitudes e as brincadeiras ficam mais bruscas nos anos finais. Isso ocorre porque, com o passar dos anos, o carinho é visto como possibilidade de prazer e interesse.

“Às vezes, olhamos só o processo final dos homens já adultos que sofrem, que não conseguem pedir ajuda, não fazem terapia. Contudo, esse processo começa na infância e na adolescência sendo totalmente negligenciado”, pontua Cesar. Pesquisa da Promundo nos Estados Unidos, organização que promove masculinidades saudáveis, reforça a análise do professor. Dados apontam que meninos com reprodução problemática de masculinidade têm cinco vez mais chances de assediar alguém, seja verbal, física ou sexualmente. A possibilidade de experimentar a depressão é duas vezes mais alta.

Confira algumas atividades sugeridas pelos professores para trabalhar a educação sexual na escola:

 

Atividade 1

Tema: Corpo e sexualidade

Duração 90 min-100 min

  • Etapa 1: divida a classe em pequenos grupos, de aproximadamente quatro alunos, considerando os vínculos já existentes para que se sintam à vontade entre os colegas.
  • Etapa 2: entregue a cada grupo um pedaço de papel suficiente, onde devem desenhar uma silhueta humana em tamanho natural.
  • Etapa 3: peça para que cada grupo, sem ver a produção dos demais, represente no desenho os órgãos relacionados à sexualidade.

Analise os desenhos coletivamente, evidenciando os aspectos biológicos, como aparelho reprodutor, órgãos sensoriais; sociais, como a presença ou não de pelos, maquiagem etc.; e psicológicos, com a representação de coração, cérebro ou ausência desses elementos no desenho, que tornam o tema tão complexo.

É interessante estimular a participação dos jovens a partir de perguntas norteadoras. Questionar o que há de semelhante entre os desenhos, se há algum ponto que realmente está ligado à sexualidade.

Deixar que os estudantes respondam quais representações estão ligadas às questões biológicas, os traços que podem variar de acordo com a cultura onde aquele jovem está inserido.

Além disso, é pertinente indagar se o grupo sente que aquela representação dá conta de expressar como vivem a sexualidade. Uma pergunta que pode auxiliar é se o desenho pode constar como modelo em um livro para estudo da sexualidade e se sentiriam representados, e a justificativa das respostas.

Cena de Sex Education, da Netflix, protagonizada pelo adolescente Otis (à dir.). Foto: Netflix/Divulgação

Atividade 2

Tema: Sexualidade – ISTs e métodos contraceptivos

Habilidade: comparar o modo de ação e a eficácia dos diversos métodos contraceptivos. Além de justificar a necessidade de compartilhar a responsabilidade na escolha e na utilização da forma mais adequada à prevenção da gravidez precoce e indesejada, e das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

Materiais necessários: campanhas publicitárias do Ministério da Saúde sobre o uso de preservativos em determinadas datas festivas tais como carnaval e festa junina, por exemplo.

  • Etapa 1: pesquisa e análise das campanhas na aula de Língua Portuguesa. Análise do slogan, das imagens e dos textos. Perguntas norteadoras: “Quem é o público-alvo em cada propaganda?” e “O que cada campanha pretende informar?”
  • Etapa 2: relação entre as campanhas e os temas de ISTs, gravidez e métodos contraceptivos na aula de Ciências. Perguntas norteadoras: “Qual a importância para a saúde pública de os órgãos de saúde investirem em campanhas como essas anualmente?” e “Por quais motivos essas campanhas são mais divulgadas em datas específicas do nosso calendário?”

Sistematização: debate, mediado pelos docentes, acerca das questões norteadoras. Ao término, a produção de uma campanha publicitária alertando para a importância dos métodos contraceptivos na prevenção de uma gravidez indesejada e, também, na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis.

Essa atividade tem potencial elevado para abordagem transdisciplinar. Além de dialogar com a disciplina de Língua Portuguesa, é possível a análise de dados estatísticos quanto ao número de casos de ISTs e gravidez entre jovens, na Matemática, ou os impactos para a saúde pública, em Geografia.

 

Atividade 3

Tema: Gravidez precoce

Habilidade: comparar o modo de ação e a eficácia dos diversos métodos contraceptivos e justificar a necessidade de compartilhar a responsabilidade na escolha e na utilização do método mais adequado à prevenção da gravidez precoce e indesejada e de ISTs.

Materiais necessários: celulares com câmera; programas de edição de vídeo simples, como o Vegas.

  • Etapa 1: encontrar três mães adolescentes e pedir que gravem vídeos contando como foi a experiência, quais eram as dificuldades, como foi contar aos responsáveis, o que tinha mudado na vida delas durante a gravidez e após o parto, etc. Também se pode pedir fotos durante a gestação e com os bebês.
  • Etapa 2: em conjunto com os alunos, elaborar dois textos, que servirão como introdução e conclusão para o vídeo. Pedir que cada aluno grave uma frase desses textos, com a autorização de uso da imagem assinada pelos pais. Depois que todos mandarem seus vídeos, o professor junta as partes e as edita. Após a conclusão dessas etapas, o vídeo pode ser exibido para a equipe gestora da escola, para integrantes da diretoria de ensino e para a comunidade escolar.

 

Atividade 4

Tema: Masculinidades

O objetivo da atividade é identificar os elementos que compõem a noção de masculinidade e de sexualidade masculina vigente em nossa cultura.

Tempo recomendado: 30 minutos

  • Etapa 1: peça aos participantes que, individualmente, escolham um personagem de que tenham gostado em um filme ou numa novela. Em seguida, solicite que, em duplas, expliquem um ao outro por que escolheram aquele personagem, as coisas que admiram ou não em suas ações, atitudes e valores.

Caso o grupo tenha dificuldade de lembrar ou estabelecer uma relação com um personagem, sugira que falem de algum amigo ou pessoa da família que admiram.

  • Etapa 2: após aproximadamente 10 minutos, cada participante apresentará ao grupo o personagem escolhido pelo companheiro.

Perguntas norteadoras: “O que faz com que gostemos mais de determinados personagens do que de outros?” e “Existe alguma característica deste personagem com a qual nos identificamos?” e “Nos dias de hoje, quais são as características masculinas mais valorizadas ou mais desvalorizadas?”, “Quais as expectativas que a sociedade tem sobre os homens?” e “O que vocês gostariam que mudasse?”.

No fim, faça uma síntese do que significa ser homem e ser mulher em nossa sociedade, a partir das respostas dadas pelos participantes. Além disso, discuta os aspectos culturais da sexualidade, ou seja, que o ato sexual com fins reprodutivos é comum na maioria dos seres vivos, mas somente o ser humano atribui valores, costumes, significados ao sexo que não estão relacionados unicamente à procriação; que a sexualidade é variável social e historicamente, podendo ter desde valores morais rígidos/puritanos até os de maior liberdade.

 

Atividade coringa

Caixa de perguntas: elabore uma caixa onde o aluno poderá depositar uma pergunta (ou reflexão) anônima sobre o tema.

É importante perceber quais tipos de dúvidas os estudantes trazem. Se aparecem questões de relacionamentos, é possível perceber que há outros tipos de abordagem a serem adotadas com o grupo.

Podem surgir temáticas relacionadas às questões LGBTQIA+ , religião, gênero e cultura. A partir dessas inquietações, o professor pode entender o nível de entendimento do grupo sobre os assuntos. É a partir desse anonimato que as aulas podem ser planejadas. E, assim, estabelecer o cuidado para não avançar sinais.

Outra estratégia dos educadores é reservar um tempo em todas as aulas para responder e discutir as dúvidas que surgiram na caixinha.

 

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

 

Competências trabalhadas:

(EF01CI04) Comparar características físicas entre os colegas, reconhecendo a diversidade e a importância da valorização, do acolhimento e do respeito às diferenças.

(EF01CI02) Localizar, nomear e representar graficamente (por meio de desenhos) partes do
corpo humano e explicar suas funções.

(EF08CI08) Analisar e explicar as transformações que ocorrem na puberdade considerando a atuação dos hormônios sexuais e do sistema nervoso.

(EF08CI09) Comparar o modo de ação e a eficácia dos diversos métodos contraceptivos e justificar a necessidade de compartilhar a responsabilidade na escolha e na utilização do método mais adequado à prevenção da gravidez precoce e indesejada e de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST).

(EF08CI10) Identificar os principais sintomas, modos de transmissão e tratamento de algumas DST (com ênfase na AIDS), e discutir estratégias e métodos de prevenção.

(EF08CI11) Selecionar argumentos que evidenciem as múltiplas dimensões da sexualidade humana (biológica, sociocultural, afetiva e ética).

(EM13CNT305) Investigar e discutir o uso indevido de conhecimentos das Ciências da
Natureza na justificativa de processos de discriminação, segregação e privação de direitos
individuais e coletivos para promover a equidade e o respeito à diversidade.

 

 

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