Como a segurança pública pode aproximar os alunos de dados e de gráficos

Como a segurança pública pode aproximar os alunos de dados e de gráficos

Natália Santos, especial para o Estadão

27 de agosto de 2021 | 19h36

Segurança pública é um tema importante e, por isso mesmo, constantemente abordado nos jornais. As reportagens sobre o assunto costumam apresentar dados e gráficos que ajudam os leitores a entender a situação da violência no País e o que está sendo feito para combater o problema.

Uma das principais fontes de informação usadas pelos jornalistas é o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que se baseia em informações compiladas nos registros policiais de cada Estado. Escrita a partir dos dados da última edição do anuário, a série de reportagens feita pelo jornalista do Estadão Felipe Resk mostrou que o Brasil registrou um aumento de homicídios em 2020, interrompendo uma sequência de dois anos de registros em queda.

A pesquisa aponta que o mau desempenho foi motivado pelo crescimento de casos de homicídios comuns e da letalidade policial. Outro ponto também chama atenção: o aumento do número de armas de fogo no Brasil. Em 2020, 186.071 novas armas foram registradas na Polícia Federal, número 97,1% maior em relação ao ano anterior.

 

Armas de fogo expostas em loja no Rio de Janeiro. Foto: Wilton Junior/Estadão

 

Houve também um crescimento na presença das armas de fogo em assassinatos registrados. Em 2020, o instrumento foi usado em 78% dos homicídios. No ano anterior, o índice era de 72,5%.

Conselheira do Fórum de Segurança Pública, Isabel Figueiredo afirma que a questão deve ser trabalhada com atenção pelas políticas públicas de segurança, uma vez que vários fatores podem levar aoo crescimento desses números. “É importante dizer que o crescimento de homicídios é multicausal, ou seja, envolve uma série de fatores. Por outro lado, não dá para ignorar um conjunto de evidências científicas já consolidadas de que o aumento de armas de fogo em circulação impacta nos assassinatos”, diz .

No vídeo a seguir, o jornalista Felipe Resk conta sobre os bastidores da apuração e relata a importância do uso dos dados na construção da matéria:

 

 

Na escola, discutir segurança pública ajuda na formação de cidadãos críticos e criteriosos. O tema também pode ser usado para aproximar os estudantes das interpretações de dados e de gráficos, fundamentais na realização de provas como o Enem e o vestibular.

A seguir, você pode conferir atividades multidisciplinares para alunos do 9º ano do ensino fundamental ao ensino médio.

 

Atividade 1: Debate e produção textual

Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresentados na reportagem abrem espaço para que o professor converse sobre o tema na sala de aula. O objetivo dessa atividade é apresentar aspectos fundamentais do sistema público de segurança do Brasil. Após a introdução e a explicação do tema, em grupos, os alunos deverão pegar um subtema para estudar e apresentar para a classe. Os temas são: estruturas de segurança, atividade policial, sistema carcerário, uso de armas, impunidade e tráfico de drogas.

Para orientar os alunos na pesquisa sobre o tema, eis algumas perguntas iniciais:

  • O que é esse subtema? Qual a sua definição?
  • Qual o contexto desse subtema no Brasil atualmente?
  • Quais são as problemáticas que envolvem esse subtema?

Vale lembrar que, para a pesquisa, os estudantes devem selecionar informações e dados relevantes de fontes diversas (impressas, digitais e orais) e confiáveis. O professor pode orientar esse processo.

Após as pesquisas, cada grupo deve apresentar o conteúdo para a sala de aula e o professor pode engajar um debate sobre os temas e os dados apresentados.

Por fim, para fechar a atividade, caso veja necessidade, o professor pode pedir que os alunos sintetizem as informações apresentadas por todos os alunos em um texto. Assim, além do tema apresentado, cada estudante  escreverá sobre o tema que aprendeu com os outros colegas.

 

Atividade 2: Números que contam histórias – Interpretação

A pandemia de covid-19 fez a população perceber a importância dos dados para compreensão de fenômenos sociais, econômicos e políticos. Esses números, entretanto, não fazem sentido presos em relatórios e em tabelas. Para um melhor entendimento dessas informações, são feitos gráficos.

 

 

A leitura de gráfico começa com um processo, como um check-list, a fim de que todas as camadas da visualização sejam compreendidas.

Elas são, respectivamente:

  1. Forma: O que primeiro chama a atenção do leitor é o formato do gráfico, para que direção os dados apontam e os possíveis pontos fora da curva. No caso do exemplo, seguindo a leitura ocidental da esquerda para a direita, a linha vermelha e a sua movimentação de crescimento e, posteriormente, queda são os destaques. No segundo momento, o que salta aos olhos são as bolhas à direita.
  2. Estrutura: Depois de ver a forma, o leitor passa a buscar informações da estrutura que o auxiliem a compreender a mensagem do gráfico. Essas informações são: título, legenda, nomes e medida das variáveis e escalas. Essa é a camada de leitura em que o aluno vai aprender as dinâmicas dos dados, por exemplo, quanto mais para a direita no eixo x, mais recente é o ano. Esse processo é um acúmulo de conhecimento para a compreensão geral do gráfico.
  3. Anotações: Por fim, as anotações são percebidas pelo leitor. Elas são pontos de atenção não imediatos, que o jornalista coloca nos gráficos para adicionar um conteúdo extra sobre o dado apresentado. Elas também auxiliam a tirar conclusões do gráfico. No caso do exemplo, a anotação é as bolhas que detalham os tipos de mortes violentas intencionais que ocorreram em 2020. O gráfico de bolhas, nesse caso, compete atenção com o gráfico de linhas, podendo ser percebido também no ponto 1 – forma.

Tendo em mente essas camadas de leituras, o professor deve guiar a leitura dos gráficos apresentados na reportagem. De forma coletiva, os alunos podem apresentar suas conclusões e dúvidas, assim a turma como um todo constrói o entendimento a partir da vivência e especificidade de cada um.

Algumas perguntas podem guiar:

  • Qual é o tipo de gráfico representado?
  • Quais as variantes dos eixos?
  • Que mensagem o gráfico expressa?
  • De que forma você chegou a essa conclusão?

A leitura dos gráficos deve ser acompanhada da leitura das reportagens. Sendo assim, a orientação é que essa aula tenha em torno de 45 minutos. Caso o professor queira aprofundar no assunto, este vídeo pode ajudar.

 

Atividade 3: Números que contam histórias – Produção de gráficos:

Depois de compreender as camadas de leitura, a primeira parte da atividade 3 é uma explicação sobre tipo de gráfico. Na reportagem, utilizou-se gráfico de linha, gráfico de bolhas e gráfico de barras. Além deles, o professor pode explicar outros tipos de gráficos como setores, colunas, mapas.

A segunda parte da atividade é focada na produção de um gráfico. Cada dupla de estudantes deve escolher o tema que deseja tratar e coletar dados sobre ele. Essa coleta de dados pode ser feita por um formulário digital ou presencialmente, com os alunos questionando pais, amigos e vizinhos sobre o assunto.

Após coletar os dados, os alunos devem analisar o conteúdo e pensar, em conjunto, qual o melhor tipo de gráfico para representar a informação. Por fim, cada dupla deve realizar uma apresentação para analisar as estatísticas e os gráficos com a turma.

Algumas perguntas podem guiar a apresentação:

  • Qual o motivo de ter escolhido o tema?
  • Como se deu a coleta de dados? (Essa pergunta é extremamente importante, uma vez que, fora de contexto, os dados podem adquirir qualquer significado.)
  • Por que esse tipo de gráfico foi escolhido para representar os dados coletados?

O importante ao fim dessa atividade é que, além de construir gráficos, os alunos possam compreender como se coletam dados e como esses dados se transformam em narrativas com embasamento e contexto.

 

A elaboração das atividades contou com o apoio do jornalista, professor e educomunicador Bruno Ferreira.

 

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

Competências trabalhadas:

(EM13CHS103) Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos políticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros).

(EM13LGG303) Debater questões polêmicas de relevância social, analisando diferentes argumentos e opiniões, para formular, negociar e sustentar posições, frente à análise de perspectivas distintas.

(EF69LP32) Selecionar informações e dados relevantes de fontes diversas (impressas, digitais, orais etc.), avaliando a qualidade e a utilidade dessas fontes, e organizar, esquematicamente, com ajuda do professor, as informações necessárias (sem excedê-las) com ou sem apoio de ferramentas digitais, em quadros, tabelas ou gráficos.

(EM13LP33) Selecionar, elaborar e utilizar instrumentos de coleta de dados e informações (questionários, enquetes, mapeamentos, opinários) e de tratamento e análise dos conteúdos obtidos, que atendam adequadamente a diferentes objetivos de pesquisa.

(EF69LP05) Inferir e justificar, em textos multissemióticos – tirinhas, charges, memes, gifs etc. –, o efeito de humor, ironia e/ou crítica pelo uso ambíguo de palavras, expressões ou imagens
ambíguas, de clichês, de recursos iconográficos, de pontuação etc.

(EF09MA22) Escolher e construir o gráfico mais adequado (colunas, setores, linhas), com ou sem uso de planilhas eletrônicas, para apresentar um determinado conjunto de dados, destacando aspectos como as medidas de tendência central.

 

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