Crise no Haiti: aulas de história para desconstruir visões sobre o país

Crise no Haiti: aulas de história para desconstruir visões sobre o país

Bruno Luiz, especial para o Estadão

30 de julho de 2021 | 18h17

O assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 7 de julho, voltou as atenções da comunidade internacional para o Haiti. As circunstâncias da morte levaram a uma escalada da crise política no país, que via na liderança contestada de Moïse um fator de risco para a estabilidade interna, e agora enfrenta incertezas sobre seu futuro.

Protestos contrários ao governo, em fevereiro: pandemia agravou situação de pobreza. Foto: Jeanty Junior Augustin/Reuters

O atentado trouxe novamente à tona uma série de problemas socioeconômicos históricos enfrentados pelo Haiti, onde 60% da população de pouco mais de 11 milhões de habitantes vive na pobreza. A situação se agrava desde antes da pandemia da covid-19 por causa de violentos protestos sociais que paralisaram a nação. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que, em 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) haitiano caiu 1,7% por causa dos piquetes viários e da violência.

No vídeo abaixo, o editor de Internacional do Estadão, Luiz Raatz, explica como tem sido a cobertura do jornal sobre a crise haitiana:

 

 

Em sala de aula, no entanto, entender o contexto histórico de formação do Haiti é essencial para compreender os desafios atuais do país. Esse processo é fundamental para falar sobre o país caribenho sem recorrer a estereótipos conhecidos, que reduzem a nação à pobreza e à miséria, como se estes fossem dados da natureza, defendem professores ouvidos pelo Estadão.

Para entender o país atualmente, é preciso revisitar dois importantes episódios do passado: a Revolução Haitiana e a abolição da escravatura. É o que explica a mestra em História pela Universidade Estadual de Campinas, Bethânia Ferreira, especialista na história haitiana.

No período colonial, o país era uma das colônias mais lucrativas mantidas pela França. Em 1792, um acontecimento vira o prenúncio do fim do domínio francês: o Haiti é a primeira nação das Américas a abolir a escravatura.

Anos depois, em 1804, ex-escravizados lideram uma revolução que culmina na independência haitiana e leva os antigos exploradores a perderem o lucro. Os franceses impõem bloqueio econômico, enquanto a comunidade internacional se nega a reconhecer o Haiti como nação independente, o que prejudica seu desenvolvimento.

Simpatizante leva foto de Jovenel Moïse durante funeral do presidente assassinado. Foto: Ricardo Arduengo/Reuters

“O Haiti tenta o reconhecimento por 20 anos, mas a França nunca efetiva isso. Em 1825, a França aceita negociar, diz que concede a independência, mas diante do pagamento de uma indenização para os franceses que tinham terras no Haiti, mas ficaram em prejuízo. O presidente do Haiti aceita esse acordo, que vai tomar os cofres do país por anos”, lembra Bethânia.

No século seguinte, outros episódios vão contribuir para aprofundar os problemas socioeconômicos haitianos, como a ocupação do país pelos Estados Unidos (1915-1934) e a ditadura dos Duvalier (1957-1986), apoiada pelos americanos. “Quando a gente localiza todos esses acontecimentos e vê como eles são interligados, você vê que há um projeto de empobrecimento do Haiti, de manter o Haiti dependente de outros países”, frisa a professora.

Professor e diretor no Centro Cultural Brasil-Haiti, Neno Garbers defende que a história seja estudada sob a perspectiva dos próprios haitianos, para que seja melhor entendida. “A versão haitiana da história não foi muitas vezes escrita como deveria. Muitas versões não foram traduzidas para o português, outras nem foram traduzidas para o criolo haitiano, mas eles têm um conhecimento da própria história que nós, como brasileiros, não temos nem da nossa.”

Para tentar aproximar o Haiti da realidade do aluno brasileiro, os professores afirmam também que as histórias dos dois países devem ser contadas levando em conta suas similaridades e diferenças, a partir de temas como escravidão e independência.

Mais recentemente, a presença de militares brasileiros no Haiti, como parte da missão de paz das Organizações das Nações Unidas (ONU), também serve para compreender o atual estado dos dois países. Ativistas apontam a interferência internacional como um dos fatores que recrudesceram a crise haitiana.

Em 2010, trabalho da ONU para garantir segurança da entrega de alimentos. Foto: Adriana Carranca/Estadão

Em relação ao Brasil, nomes que comandaram a missão integram ou integraram o governo de Jair Bolsonaro, caso de Augusto Heleno, atual ministro do Gabinete de Segurança Institucional; Edson Pujol, ex-comandante do Exército Brasileiro; e Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, por exemplo.

 

PROPOSTAS DE ATIVIDADES

1) Onde histórias de Brasil e Haiti se encontram?

O professor deve separar a turma em seis equipes, que vão pesquisar sobre os seguintes temas:

  • Revolução Haitiana (Independência do Haiti)
  • Abolição da Escravatura no Haiti
  • Independência do Brasil
  • Abolição da Escravatura no Brasil
  • Ditadura militar no Haiti
  • Ditadura militar no Brasil

O resultado das pesquisas deve ser apresentado aos colegas de classe, que, na sequência, passam a discutir as descobertas. O objetivo é de que, através dessas trocas, os alunos possam fazer associações entre o contexto brasileiro e o haitiano para reconhecer semelhanças e diferenças na história dos dois países.

Dica extra: Como material adicional, o professor pode sugerir a leitura da história em quadrinhos A Revolução que deu Origem ao Haiti, de Laurent Dubois. Veja a obra traduzida para português.

Documento

 

2) Haitianismo, o temor de que a Revolução Haitiana chegasse ao Brasil
Os alunos devem pesquisar pintores que retrataram a Revolução Haitiana. O resultado da busca deve ser apresentado em aulas, levando em conta aspectos como o que eles entenderam das pinturas, quem são os autores das obras e como a revolução foi retratada. A partir disso, o professor pode provocar uma reflexão sobre por que o levante dos haitianos foi temido durante todo o Segundo Reinado no Brasil e pela América Espanhola, um receio denominado por estudiosos como haitianismo.

3) Missão de paz no Haiti e cobertura da imprensa brasileira
O professor deve pedir que os alunos pesquisem conteúdos publicados na imprensa brasileira (jornais, sites, telejornais, entre outros) sobre a presença brasileira no Haiti, entre 2004 e 2017. O resultado da busca deve ser apresentado depois aos colegas. O objetivo da atividade é de que os estudantes possam conhecer um pouco mais sobre a missão de paz e consigam identificar como o assunto foi abordado no Brasil. Além disso, o professor deve propor uma reflexão sobre como a forma que a imprensa cobre um fato pode construir percepções sobre determinado tema.

 

O material teve colaboração de Bruno Ferreira, consultor em Comunicação e Educação do Palavra Aberta; Bethânia Pereira, mestra em História pela Unicamp; Neno Garbers, professor e diretor no Centro Cultural Brasil-Haiti; e Felipe Mendes, professor de turmas do ensino médio há 10 anos.

 

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

 

Disciplinas envolvidas: História e Artes

Competências: 

(EM13CHS101) Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

(EM13CHS103) Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos políticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros).

(EM13CHS106) Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.

(EM13CHS601) Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país.

(EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.).

(EM13CHS604) Discutir o papel dos organismos internacionais no contexto mundial, com vistas à elaboração de uma visão crítica sobre seus limites e suas formas de atuação nos países, considerando os aspectos positivos e negativos dessa atuação para as populações locais.

(EM13CHS605) Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às noções de justiça, igualdade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização desses direitos nas diversas sociedades contemporâneas e promover ações concretas diante da desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo.

 

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