Atual crise hídrica pode ajudar a desconstruir associação imediata do Nordeste à seca

Atual crise hídrica pode ajudar a desconstruir associação imediata do Nordeste à seca

Júnior Moreira Bordalo, especial para o Estadão

09 de julho de 2021 | 15h59

Nas últimas semanas, parte do noticiário brasileiro tem se dedicado a abordar a crise hídrica dos reservatórios das usinas hidrelétricas do subsistema Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO), reflexo do maior período de estiagem dos últimos 91 anos, segundo o Ministério de Minas e Energia. O assunto foi tema do podcast Estadão Notícias, em 2 de junho. Além de buscar entender quais os riscos de um apagão no País, o episódio foi um pontapé para outra reflexão: o Nordeste não figura como uma das áreas mais atingidas.

No vídeo abaixo, a trainee do Estadão Jayanee Rodrigues explica como foi produzir e apresentar o Estadão Notícias ao lado de Emanuel Bomfim, diretor artístico da Rádio Eldorado:

Comumente associada à seca, a região tem o segundo maior subsistema de reserva energética do setor, representando 17,8%. Atualmente, está com 59,8% da capacidade de seus reservatórios de usinas hidrelétricas, contra 29,8% do SE/CO, conforme dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Já os reservatórios do Norte do País estão 83,3% cheios e os do Sul marcam 61,5%.

Para a mestra em Educação, Cultura e Territórios Semiáridos e professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) Fabíola Moura, a desinformação sobre o Semiárido do Nordeste, reforçada por representações inadequadas, distorcidas e estereotipadas sobre a região, leva à construção de uma imagem equivocada sobre a localidade. “A primeira coisa que precisamos saber – e a educação é fundamental – é que Nordeste e semiárido não são sinônimos e o semiárido não se limite ao Nordeste, já que é presente em Minas Gerais.”

Autora do livro O Sertão que a TV não Vê: o Jornalismo Contextualizado com o Semiárido Brasileiro, da editora Edufpi, Fabíola acredita que essa visão foi mantida ao longo dos anos também por questões políticas. “Não foi de interesse que as informações chegassem de forma correta nas escolas e na imprensa, pois é mais interessante manter o discurso da região seca, inviável, improvável, em que nada que se planta frutifica”, destaca. “O Nordeste não se resume a carcaças de animais, chão rachado e mulheres com a lata d’ água na cabeça.”

Usina de Jupiá, na junção dos rios Paraná e Sucuriú. Foto: CTG Brasil

O Operador Nacional do Sistema Elétrico tem depositado no período chuvoso as expectativas para garantir o fornecimento de energia para dezembro deste ano e todo o ano seguinte. Fabíola acredita que o Nordeste tem muito a ensinar quando o assunto é esse aproveitamento da água da chuva.

“Aqui já se desenvolve tecnologias para captação da chuva. Adquirimos muitas expertises em ciência, tecnologia para lidar com a escassez de chuvas em algumas épocas do ano e a aproveitar a água da melhor forma possível”, explica. “É preciso entender que a questão climática é cíclica e vai acontecer. Você não combate chuva, furacão e terremoto. A população se adequa às essas questões.”

Nesse sentido, a professora defende a necessidade da implementação de um ensino mais amplo e completo nas escolas. “Não se pode homogeneizar uma região tão complexa, simplificar e desinformar as pessoas. O começo é com a ampliação da informação. É preciso que as crianças realmente aprendam sobre todos os climas brasileiros.”

Cena reforçada no imaginário: última grande seca na área rural de Petrolina, em 2017. Foto: Hélvio Romero/Estadão

PROPOSTAS DE ATIVIDADES

1) Climas do Brasil
Uma possibilidade de atividade é dividir a turma em cinco grupos, deixando cada um responsável por uma região do Brasil. Em casa, os estudantes deverão pesquisar detalhes dos climas existentes em cada região. De volta à sala de aula, será disponibilizado um grande mapa do País no chão e as equipes deverão observar:

  • Quantos climas existem no Brasil
  • Quais as características de cada um
  • Quais as diferenças encontradas no próprio clima
  • Apontar quais climas são encontrados em mais de uma região do País

Ao final, o professor questionará aos alunos se eles se surpreenderam com alguma das informações encontradas. Além disso, o educador (a) poderá destacar a pluralidade dos climas nas regiões, reforçando a ideia de que cada lugar não é feito de uma única característica.

 

Giovanna Antonelli e Emilio Dantas em ‘Segundo Sol’: cenário fora do estereótipo. Foto: João Cotta/Globo

2) Representação na arte
A associação do Nordeste à seca é recorrente em famosas obras literárias brasileiras, como O Quinze, de Rachel de Queiroz, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Com o objetivo de desmistificar este imaginário, uma atividade possível é pedir aos estudantes que encontrem livros, filmes, peças de teatro e novelas que retratem a região sob outras perspectivas.

Neste vídeo de 2019, o repórter Felipe Resk fala sobre a reportagem especial Vidas Secas, 80 anos, que revisita o cenário da obra de Graciliano, oito décadas depois de sua publicação.

Um exemplo recente é a novela Segundo Sol, veiculada em 2018 na Globo. A trama se passava em Salvador e trazia um enfoque mais contemporâneo da realidade da capital da Bahia. O enredo enfrentou problemas referentes à falta de representatividade negra, mas fugiu do estereótipo de escassez de água.

De forma individual, cada aluno deverá pesquisar em casa e em seguida elencar três características que mais chamaram atenção. Na sala de aula, eles terão cinco minutos para apresentá-las aos outros colegas, como uma exposição de trabalho. Ao fim, o professor pode reforçar a ampliação do conhecimento sobre o Nordeste trazendo também suas impressões e como a manutenção de um imaginário estereotipado pode reduzir o conhecimento.

3) Devastação humana
Outra opção para geografia é encomendar um estudo mais aprofundado sobre os biomas brasileiros, traçando os efeitos da ação humana desde a chegada dos portugueses. Em dupla, os estudantes deverão traçar uma linha temporal de como estava a distribuição das diversas regiões do País entre 1500 e 2021. O trabalho deverá trazer as seguintes informações:

  • Os tipos de biomas encontrados originalmente
  • Quais foram os mais desmatados
  • E como era a distribuição por região do Brasil e como está atualmente

Para apresentar os resultados, os estudantes poderão abusar da criatividade. Por exemplo, um vídeo 1 minuto com dicas em forma de lista para o TikTok. A opção funciona da seguinte forma: a pessoa aparece no vídeo sem falar, apenas apontando para as legendas – muitas vezes combinando com a batida da música ao fundo – ilustrando as informações que aparecem no texto na tela.

O material teve colaboração de Bruno Ferreira, consultor em Comunicação e Educação do Palavra Aberta.

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

 

Disciplinas envolvidas: Geografia e Artes

Competências:

(EF06GE01) Comparar modificações das paisagens nos lugares de vivência e os usos desses lugares em diferentes tempos.

(EF06GE13) Analisar consequências, vantagens e desvantagens das práticas humanas na dinâmica climática (ilha de calor etc.).

(EF08CI15) Identificar as principais variáveis envolvidas na previsão do tempo e simular situações nas quais elas possam ser medidas.

(EF08CI16) Discutir iniciativas que contribuam para restabelecer o equilíbrio ambiental a partir da identificação de alterações climáticas regionais e globais provocadas pela intervenção humana.

(EF69AR01) Pesquisar, apreciar e analisar formas distintas das artes visuais tradicionais e contemporâneas, em obras de artistas brasileiros e estrangeiros de diferentes épocas e em
diferentes matrizes estéticas e culturais, de modo a ampliar a experiência com diferentes contextos e práticas artístico-visuais e cultivar a percepção, o imaginário, a capacidade de
simbolizar e o repertório imagético.

(EF69AR03) Analisar situações nas quais as linguagens das artes visuais se integram às
linguagens audiovisuais (cinema, animações, vídeos etc.), gráficas (capas de livros, ilustrações de textos diversos etc.), cenográficas, coreográficas, musicais etc.

(EF69AR05) Experimentar e analisar diferentes formas de expressão artística (desenho, pintura, colagem, quadrinhos, dobradura, escultura, modelagem, instalação, vídeo, fotografia, performance etc.).

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