CPI da Covid e a checagem de dados: como usar o assunto em sala de aula

CPI da Covid e a checagem de dados: como usar o assunto em sala de aula

Jessica Brasil Skroch, especial para o Estadão

11 de junho de 2021 | 13h29

A CPI da Covid tem despertado grande interesse público e reforçado a importância da verificação dos fatos expostos pelos depoentes durante as sessões no Senado. Essa atividade é conhecida como checagem de informações, ou fact-checking, na expressão em inglês. O professor pode usar esse trabalho jornalístico na sala de aula para reforçar com os alunos a relevância da informação de qualidade.

No Estadão, esse trabalho minucioso é feito pelos repórteres do núcleo Estadão Verifica.  São esses os profissionais que checam as informações apresentadas a cada novo depoimento prestado à Comissão Parlamentar de Inquérido (CPI) instaurada para apurar a atuação do governo federal na pandemia e fiscalizar a aplicação de recursos enviados a Estados e municípios.

Foto: Arquivo/Agência Brasil

Fora do âmbito da CPI, o núcleo também é responsável por checar notícias possivelmente falsas que estejam em circulação, desempenhando um papel importante contra a desinformação.

Em sala de aula, valorizar e compreender o trabalho da checagem, a apuração científica e a busca por fontes confiáveis é algo essencial para que o aluno tenha uma inserção crítica dentro de um universo de excesso de informações, aponta Raphael Kapa, professor de história e diretor da Pace Educação, empresa de educação midiática.

“A gente tem um desafio enorme com as novas gerações de entender que a educação midiática não é mais uma parte de uma educação, ela é a própria educação”, alerta Kappa. De acordo com ele, isso ocorre porque as crianças hoje aprendem como funcionam as mídias antes mesmo da alfabetização.

Mas, afinal, o que é fact-checking? No vídeo, Alessandra Monnerat, editora-assistente do Estadão Verifica, explica o termo e conta os bastidores do trabalho do núcleo durante a CPI da Covid. Confira:

 

 

Agora que já ficou mais claro qual é o trabalho de um núcleo de checagem de informações, que tal incluir essa atividade na sala de aula?

 

PROPOSTAS DE ATIVIDADES

1) Quais informações são passíveis de checagem?

O primeiro passo para se compreender a checagem de fatos é saber quais informações podem ser verificadas. Isso quer dizer que nem toda frase tem como ser checada. É o caso, por exemplo, de opiniões pessoais.

Se alguém diz “Azul é a cor mais bonita”, a sentença não é falsa e nem verdadeira. É uma opinião. Porém, se alguém diz “Azul é uma cor primária”, a frase pode ser verificada, pois se trata de informação que tem como base um conhecimento científico. Para checar a alegação, é preciso procurar uma fonte confiável.

Aqui estão alguns exemplos de informações verificáveis que podem ser apresentadas aos alunos:

Dados históricos: podem ser verificados com livros de história, registros como documentos, fotografias, vídeos e reportagens, além de consulta a especialistas no tema.

Estatísticas: é comum ouvir frases de autoridades que citam estatísticas sobre um determinado assunto. Para checar se o dado está correto, é preciso confirmar com as pesquisas dos órgãos especializados, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outras fontes podem ser consultadas, a depender da informação necessária. É o caso de ministérios, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), dos anuários estatísticos e de bases públicas de dados, entre outros.

Comparações e afirmações: no exemplo da checagem feita pelo Estadão Verifica, uma das falas da médica Nise Yamaguchi na CPI da Covid foi: “No Amapá, temos um dos menores índices do mundo de mortalidade”.

Ainda que ela não tenha citado um número específico, a médica fez uma comparação. Para verificar a informação em relação a outras localidades brasileiras, o Estadão Verifica buscou dados do Ministério da Saúde, comparando os índices de mortalidade nos Estados.

Assim, foi possível afirmar que o dado não era correto. E que outros 11 Estados, como Maranhão, Alagoas, Bahia, Pernambuco e Pará, têm índices menores do que o Amapá.

Já em relação aos demais países, a checagem foi feita utilizando dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, que comprovaram que a taxa de mortalidade amapaense por covid-19 é maior do que a de 166 países e territórios da lista. Portanto, a frase estava incorreta.

Informações legais e jurídicas: aqui estão incluídas todas as informações relacionadas às leis e às normas jurídicas. Para checar, é preciso consultar a íntegra da legislação e verificar se determinada informação está realmente prevista. No Portal da Legislação, por exemplo, é possível conferir as leis federais.

Entre as informações que não são verificáveis, podemos citar, além das opiniões, comentários, previsões sobre o futuro e conceitos amplos, que dependem da análise de muitas variáveis complexas. Um exemplo? “Essa é a pior crise financeira da história.”

Depois que os alunos entenderem quais informações podem ser checadas ou não, o professor pode solicitar que eles selecionem, em grupos, frases ditas por figuras públicas nos jornais. E, na sequência, dividam as sentenças entre dois grupos: verificáveis e não verificáveis. É possível, ainda, pedir que indiquem qual tipo de informação é aquela e expliquem os motivos pelos quais é possível realizar a checagem ou não.

Depois da atividade, cada grupo pode apresentar a sua divisão de frases para uma discussão com toda a turma.

Gabriela Biló/Estadão

2) Os sistemas de classificação

A checagem não divide as informações apenas entre falsas e verdadeiras. Existem outros tipos de desinformação e os checadores utilizam sistemas de classificação diferentes para determinar o grau de veracidade das informações.

Claire Wardle, pesquisadora e diretora do First Draft, centro de estudos ligado ao Shorenstein Center da Universidade Harvard, classificou sete diferentes tipos de informações problemáticas. Veja abaixo:

Conteúdo inventado: desinformação fabricada com a intenção de enganar e prejudicar.

Conteúdo manipulado: usa imagens e informações autênticas alteradas.

Conteúdo enganoso: distorção de informações para favorecer um indivíduo ou assunto.

Conteúdo impostor: imitação de fontes genuínas.

Falso contexto: inserção de dados contextuais distorcidos em conteúdo autêntico.

Falsa conexão: discrepância entre texto e manchete, imagens e legendas.

Sátira ou paródia: conteúdo humorístico com potencial para enganar.

Para entender mais, os alunos podem fazer pesquisas nos sites das agências de checagem como Lupa e Aos Fatos, e no site do Projeto Comprova, que reúne jornalistas de 33 veículos de comunicação, incluindo o Estadão, para descobrir e investigar informações enganosas sobre políticas públicas e a pandemia da covid-19.

Após as pesquisas, os alunos podem discutir as etiquetas encontradas em cada site e compará-las.

3) Fontes confiáveis de informação

As verificações de frases e rumores são feitas principalmente por meio de consulta a fontes oficiais sobre o tema apresentado, como bancos de dados públicos e órgãos governamentais. Como visto no exercício anterior, outras fontes podem ser consultadas, como pesquisas, relatórios e entrevistas com especialistas.

Uma reflexão sobre o assunto pode ser provocada com os alunos sobre as diferenças entre os tipos de meios de comunicação e de mensagens. É interessante selecionar mensagens diversas e promover discussões sobre elas.

Textos informativos, opinativos, mensagens de WhatsApp, vídeos, áudios, postagens em redes sociais e conteúdos jornalísticos são opções. Algumas perguntas para análise podem ser: Quem está disseminando a mensagem? Essa fonte é confiável? Esse conteúdo parece editado? Quem é o autor da mensagem e qual parece ser a sua intenção?

Um outro exercício sobre o tema pode ser feito com a disponibilização de imagens diversas aos alunos sem nenhuma informação sobre elas. A tarefa consiste em descobrir o máximo de detalhes sobre as fotografias, pinturas ou ilustrações. Nesse processo de pesquisa, os alunos podem compreender que nem sempre uma mensagem é aquilo que parece ser e, por isso, é necessário ter cuidado na sua interpretação.

Por fim, os alunos são convidados a analisar checagens do Estadão Verifica e apontar quais foram as fontes de informação usadas para a verificação de cada frase.

4) Simular o trabalho de uma agência de checagem

Nessa atividade, a sala pode se dividir em cinco grupos que se tornaram agências de checagem. Os integrantes, os checadores, verificarão as frases abaixo sobre a pandemia da covid-19. Antes do exercício, a sala discutirá como cada um recebe as mensagens, o que eles deduzem sobre elas e se acham que são verdadeiras ou falsas.

Esse exercício de debate favorece a compreensão de como os discursos são percebidos, promovendo, assim, a construção de uma consciência crítica e seletiva em relação à produção e circulação de informações e posicionamentos, como previsto na BNCC.

Após a discussão, os grupos usarão como base para suas checagens uma lista de sites apresentada pelo professor. Nas alegações, os alunos deverão usar o sistema de etiquetas do Projeto Comprova.

Frases para checagem:

1) Crianças e adolescentes já podem ser vacinados contra a covid-19 no Brasil

2) A cloroquina é um medicamento antiviral

3) Até o dia 04 de junho de 2021, cinco vacinas são usadas em território brasileiro com aprovação da Anvisa

4) A Organização Mundial da Saúde não recomenda o uso de máscaras para combater a disseminação da covid

5) Os primeiros casos de covid no mundo foram registrados em Wuhan, na China, em dezembro de 2020

Para as frases sugeridas aqui, a lista de fontes é esta:

 

O material teve colaboração de Gustavo Pessutti e Nicolas Winck,  professores de Linguagem, Mídia e Sociedade no Colégio Pentágono, e Raphael Kapa, professor, consultor da Lupa Educação e diretor da Pace Educação, empresa de educação midiática. 

Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

 

Disciplinas envolvidas: História, Português e Filosofia

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio e fundamental 2

(EM13LP39) Usar procedimentos de checagem de fatos noticiados e fotos publicadas (verificar/avaliar veículo, fonte, data e local da publicação, autoria, URL, formatação; comparar diferentes fontes; consultar ferramentas e sites checadores etc.), de forma a combater a proliferação de notícias falsas (fake news).

(EF67LP04) Distinguir, em segmentos descontínuos de textos, fato da opinião enunciada em relação a esse mesmo fato.

(EF06LP01) Reconhecer a impossibilidade de uma neutralidade absoluta no relato de fatos e identificar diferentes graus de parcialidade/ imparcialidade dados pelo recorte feito e pelos efeitos de sentido advindos de escolhas feitas pelo autor, de forma a poder desenvolver uma atitude crítica frente aos textos jornalísticos e tornar-se consciente das escolhas feitas enquanto produtor de textos.

(EM13LP42) Acompanhar, analisar e discutir a cobertura da mídia diante de acontecimentos e questões de relevância social, local e global, comparando diferentes enfoques e perspectivas, por meio do uso de ferramentas de curadoria (como agregadores de conteúdo) e da consulta a serviços e fontes de checagem e curadoria de informação, de forma a aprofundar o entendimento sobre um determinado fato ou questão, identificar o enfoque preponderante da mídia e manter-se implicado, de forma crítica, com os fatos e as questões que afetam a coletividade.

(EF69LP14) Formular perguntas e decompor, com a ajuda dos colegas e dos professores, tema/questão polêmica, explicações e ou argumentos relativos ao objeto de discussão para análise mais minuciosa e buscar em fontes diversas informações ou dados que permitam analisar partes da questão e compartilhá-los com a turma.

(EM13CNT302) Comunicar, para públicos variados, em diversos contextos, resultados de análises, pesquisas e/ou experimentos, elaborando e/ou interpretando textos, gráficos, tabelas, símbolos, códigos, sistemas de classificação e equações, por meio de diferentes linguagens, mídias, tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), de modo a participar e/ou promover debates em torno de temas científicos e/ou tecnológicos de relevância sociocultural e ambiental.

 

 

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