Robôs no jornalismo: escolas podem discutir programação e imparcialidade

Robôs no jornalismo: escolas podem discutir programação e imparcialidade

Confira propostas de educação midiática para trabalhar o tema em sala de aula

Bianca Gomes

13 de março de 2020 | 11h46

O uso de robôs é realidade cada vez mais comum no jornalismo, sobretudo em funções envolvendo raspagem de dados e monitoramento de pautas dos três poderes. A principal vantagem para os repórteres é o tempo: enquanto os bots fazem em segundos um trabalho que demoraria horas, os jornalistas investem em uma apuração mais aprofundada sobre determinado tema.

Fachada do Congresso Nacional ao entardecer. Foto: Pedro França / Agência Senado

Foi nesse sentido que o Estado lançou a Maria Capitu, robô que monitora projetos de interesse das mulheres no Congresso. O funcionamento é simples: toda vez que um projeto de interesse feminino for proposto na Câmara ou no Senado, um novo tweet é gerado. As funções do robô também incluem avisos de alterações e inclusões em leis já existentes, além de sugestões de reportagens sobre o tema publicadas no Estadão.

O repórter Cristian Favaro, responsável pela programação do robô, conta no vídeo abaixo como foi o processo de criação da Maria Capitu:

PROPOSTAS DE ATIVIDADES

1) Robôs

Além de Maria Capitu, há diversos outros robôs criados por veículos jornalísticos justamente para auxiliar no acompanhamento de algum tema específico. Bons exemplos são a Rosie, que identifica suspeitas em gastos de deputados federais, e o Rui, que monitora processos parados no Supremo Tribunal Federal (STF)

É interessante pontuar com os estudantes que os robôs colaboram para o trabalho jornalístico, mas não realizam todo o processo – há um longo caminho até a publicação da reportagem. 

A partir de uma reportagem que aborda algum projeto de lei sobre violência doméstica (duas sugestões: Sancionada mudança na Lei Maria da Penha para agilizar medidas de proteção a mulheres e Lei Maria da Penha: entenda o que muda com a alteração sancionada por Bolsonaro), os alunos deverão criar um mapa mental com todos os passos que eles imaginam que o jornalista realizou para chegar no texto final da matéria. 

(O conceito do mapa mental é simples: fazer um resumo gráfico de determinado assunto usando palavras-chave ou até mesmo imagens. É importante que o aluno saiba a ideia central do mapa, de onde sairão as ramificações. O uso de cores pode ajudar a ter uma melhor visualização. Nesta matéria do Estadão, veja dicas para fazer o mapa, muito utilizado por vestibulandos.)

A ideia é que eles façam uma espécie de “investigação reversa” da reportagem, a fim de entender como se dá o processo de criação de uma matéria. No caso das que tratam de projetos de lei, por exemplo, um passo importante é traduzir para o leitor, de forma simples e objetiva, um texto que muitas vezes é de linguagem difícil. E claro: buscar, antes de tudo, o texto original do projeto no site da Câmara

Outra etapa é repercutir com especialistas da área o que, na prática, aquele projeto altera, e se ele é positivo ou não. Neste caso, é importante selecionar bem as entrevistadas e ter uma certa pluralidade de informações, garantindo ao leitor o acesso a diferentes opiniões. A seleção das especialistas pode ser feita por meio de plataformas como Lattes e Capes, com a verificação do currículo e campo de pesquisa, ou selecionando pessoas que trabalham com o tema em órgãos públicos, por exemplo. 

Sempre que possível, é interessante trazer personagens, ou seja, pessoas da vida real cujas histórias traduzem o problema que aquele projeto quer resolver. A busca por essas personagens se dá em diversas formas: por meio de centros de atendimento a vítimas de violência doméstica, redes sociais e ONGs.

Feito o exercício em grupos de até quatro pessoas, reúna a sala e discuta todos os passos que os estudantes incluíram em seus mapas mentais. O professor deverá criar, a partir de um diálogo com a turma, um mapa geral que inclua sugestões de todos os grupos (é importante discutir o que faz ou não sentido, e não apenas juntar tudo). 

Depois da atividade, os grupos deverão utilizar os passos do mapa mental geral para criar conteúdo, em formato livre, sobre algum tweet da Maria Capitu. O objetivo é claro: comunicar a determinado público o que aquele projeto significa. Não é preciso exigir que todos as etapas sejam seguidas, mas é importante que os alunos exercitem alguma apuração. 

Além do texto, como é o caso dos exemplos citados, eles podem trabalhar vídeos (como este, que é uma entrevista com especialista, ou este, uma reportagem em vídeo), thread no twitter (aqui bom exemplo), história em quadrinhos (como o que ganhou o edital do Instituto Patrícia Galvão), stories no Instagram (basta olhar a conta do Estadão na rede social), entre outras possibilidades. O professor pode pedir aos alunos que estudem esses exemplos antes de colocarem a mão na massa e tenham em mente qual será o público-alvo da publicação. 

2) Ponto de vista

Um mesmo assunto pode ser abordado de diferentes maneiras por veículos jornalísticos. Isso em termos de linguagem, informação priorizada, formato, fontes, escolha dos dados estatísticos e assim por diante. As diferenças existem porque nossa história de vida e repertório acabam influenciando aquilo que escrevemos/falamos. Isso não acontece só no jornalismo. No caso da profissão, existe uma busca permanente pela imparcialidade, o que se dá por meio da prioridade à objetividade no relato dos fatos. 

O reconhecimento da impossibilidade de uma neutralidade absoluta no relato de fatos é uma habilidade prevista na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O texto diz que os alunos devem aprender a “identificar diferentes graus de parcialidade/imparcialidade dados pelo recorte feito e pelos efeitos de sentido advindos de escolhas feitas pelo autor, de forma a poder desenvolver uma atitude crítica frente aos textos jornalísticos e tornar-se consciente das escolhas feitas enquanto produtor de textos”. 

  • Os alunos deverão ler a íntegra do projeto de lei 2.538/2019 e elaborar um título e parágrafo sobre o texto;
  • Depois, devem se reunir em grupos de até cinco pessoas para comparar o que cada um colocou no título e parágrafo. O propósito é que eles percebam que, mesmo tendo exatamente o mesmo projeto de lei, produziram textos diferentes, o que demonstra a imparcialidade;
  • Por último, o professor deverá buscar duas reportagens com visões diferentes sobre o projeto de lei. Os alunos deverão comparar o material, destacando o que há diferente em cada um. É interessante que eles percebam a intenção de cada texto e discutam se é positivo para os leitores ter acesso a diferentes recortes sobre um mesmo tema.  

3) Programação

A lógica é parte imprescindível da programação e ensinar isso para os alunos pode ser um primeiro passo importante para incentivá-los. A BNCC não utiliza o termo “programação”, mas fala algumas vezes sobre a ideia de pensamento computacional, como no trecho abaixo:

“Outro aspecto a ser considerado é que a aprendizagem de Álgebra, como também aquelas relacionadas a outros campos da Matemá-tica (Números, Geometria e Probabilidade e estatística), podem contribuir para o desenvolvimento do pensamento computacional dos alunos, tendo em vista que eles precisam ser capazes de tra-duzir uma situação dada em outras linguagens, como transformar situações-problema, apresentadas em língua materna, em fórmulas, tabelas e gráficos e vice-versa.”

Para introduzir essa ideia, o professor deve propor aos alunos um exercício parecido com o que o canal Sharpax Games faz neste vídeo (a partir do minuto 3:36). O professor dará um objetivo (no exemplo citado, colocar o lixo para fora da sala) e os alunos deverão dar comandos, até que consigam cumprir a missão. Com isso, eles vão entender como funciona a programação da teoria, por meio de sequências lógicas com os exatos comandos do que o computador deve fazer.

Se o professor desejar se aprofundar, há dois materiais didáticos que podem ajudar: o

e da Django Girls.

 

O Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio e fundamental 2

(EF06LP01) Reconhecer a impossibilidade de uma neutralidade absoluta no relato de fatos e identificar diferentes graus de parcialidade/imparcialidade dados pelo recorte feito e pelos efeitos de sentido advindos de escolhas feitas pelo autor, de forma a poder desenvolver uma atitude crítica frente aos textos jornalísticos e tornar-se consciente das escolhas feitas enquanto produtor de textos.

(EF07LP02) Comparar notícias e reportagens sobre um mesmo fato divulgadas em diferentes mídias, analisando as especificidades das mídias, os processos de (re)elaboração dos textos e a convergência das mídias em notícias ou reportagens multissemióticas.

(EF69LP07) Produzir textos em diferentes gêneros, considerando sua adequação ao contexto produção e circulação – os enunciadores envolvidos, os objetivos, o gênero, o suporte, a circulação -, ao modo (escrito ou oral; imagem estática ou em movimento etc.), à variedade linguística e/ou semiótica apropriada a esse contexto, à construção da textualidade relacionada às propriedades textuais e do gênero), utilizando estratégias de planejamento, elaboração, revisão, edição, reescrita/redesign e avaliação de textos, para, com a ajuda do professor e a colaboração dos colegas, corrigir e aprimorar as produções realizadas, fazendo cortes, acréscimos, reformulações, correções de concordância, ortografia, pontuação em textos e editando imagens, arquivos sonoros, fazendo cortes, acréscimos, ajustes, acrescentando/ alterando efeitos, ordenamentos etc.

 

 

 

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