Veja como aproveitar temas do jornalismo econômico em sala de aula

Veja como aproveitar temas do jornalismo econômico em sala de aula

Confira propostas de atividades de educação midiática para abordar temas como inflação e mercado financeiro

Bianca Gomes

05 de março de 2020 | 13h43

Em momentos de grandes problemas mundiais, como a gripe suína e o coronavírus, assuntos da área econômica começam a aparecer com mais frequência em notícias de jornais. Exemplo recente é a matéria Ibovespa fecha com queda de 7% em meio ao avanço do coronavírus, publicada no final de fevereiro.

Painel da Bolsa de Valores de São Paulo, B3 Foto: Renato Cerqueira/Futura Press

Para estudantes de ensino fundamental e médio, compreender a ligação entre acontecimentos recentes e economia não é tarefa fácil, sobretudo quando inclui conceitos como bolsa de valores, taxa de juros e inflação. Pensando nisso, separamos propostas de atividades da área de educação midiática para trabalhar o tema em sala de aula.

Antes de conferir os exercícios, veja vídeo abaixo em que o editor da Agência Estado Renato Carvalho explica sobre o chamado “jornalismo em tempo real”:

1) Tempo real

Para investidores e empresas do mercado financeiro, a famosa frase “tempo é dinheiro” faz todo sentido. Ter conhecimento de uma notícia minutos antes da maioria das pessoas pode significar uma boa tomada de decisão. Isso porque as ações, que nada mais são do que partes de uma empresa que podem ser compradas por pessoas ou mesmo outras empresas, estão sujeitas a determinado preço que varia de acordo com o volume de compra e venda.

No caso de uma notícia negativa sobre uma empresa, por exemplo, a tendência é que muitas pessoas vendam suas ações para evitar perder dinheiro. A saída de acionistas leva o preço da ação a cair. Por isso é importante saber a notícia antes, para vender antes da ação se desvalorizar. Para atender exatamente ao público que investe no mercado financeiro existem os chamados serviços de notícia em tempo real.

Em uma plataforma com layout diferente dos sites comuns de notícia, os serviços de tempo real oferecem, além de notícias minuto a minuto sobre tudo o que pode impactar o mercado financeiro, análises, cotações e outras ferramentas de monitoramento do mercado. As áreas atendidas são as mais variadas, incluem agronegócio, energia, política, entre outras.

São vários os desafios de trabalhar nesta área do jornalismo:

  1. Ser o mais rápido possível, já que o tempo faz toda a diferença;
  2. Ter exatidão. O investidor vai tomar uma decisão com base na notícia que o serviço fornece. Se ela estiver errada, pode acarretar prejuízo financeiro a milhares de clientes e empresas;
  3. Escrever de forma objetiva. O investidor não quer perder tempo lendo informações que não serão úteis a ele;
  4. Estar atento ao que está acontecendo no mercado.

É interessante ter em vista que a ideia de imediatismo extrapola os terminais de notícia em tempo real. Exemplos que estão no dia a dia de muitos estudantes são as redes sociais Twitter e Facebook. Nelas, as informações chegam por meio de usuários e, em poucos segundos ou minutos, caem no conhecimento de pessoas que usam ou não a plataforma. Neste caso, o erro de informação também pode ter implicações graves, já que a velocidade de disseminação na internet é muito alta e o alcance é imensurável.

Quando o assunto é mercado financeiro, o Twitter tem grande poder de criar volatilidade. As informações que são publicadas na rede social se espalham rapidamente entre os usuários e podem trazer impactos positivos ou negativos para empresas.

No caso de informações falsas, um dos grandes problemas é que os efeitos podem vir antes mesmo da informação ser checada, dada a velocidade com que ela se espalha.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um bom exemplo de como isso ocorre na prática: ele movimenta tanto o mercado com os seus tuítes que o banco J.P. Morgan decidiu criar um índice chamado “Volfefe” (em referência a um tuíte de Trump com erro de digitação) só para medir o quanto o que ele escreve na rede social impacta o mercado. Mas nem tudo o que ele tuita é verdade, tanto que o pesquisador Matheus Moura Ferreira Costa produziu um estudo para falar sobre os efeitos das fake news de Trump e de Barack Obama no mercado de ações.

  1.  Peça para os alunos pesquisarem em sites jornalísticos situações em que Trump publicou informações falsas e impactou a bolsa. Depois disso, discuta com os estudantes: a necessidade de checar informações que vêm das redes sociais; a responsabilidade que autoridades e também cidadãos têm na internet, incluindo redes sociais. E, por último, aproveite para conversar sobre as consequências civis e criminais para quem compartilha “fake news”.
  2. Em um segundo momento, simule com os alunos uma cobertura em tempo real, para eles entenderem a dinâmica de lidar com a pressa e a precisão sob pressão. Uma opção é buscar um vídeo no Youtube (pode ser algo do universo deles, como um evento de música/cinema) e pedir para eles tuitarem o que está acontecendo ao mesmo tempo em que assistem, respeitando o espaço da plataforma.
  3. Outra opção nesse sentido é, a partir do documento presente neste link, pedir para os alunos escreverem um tuíte, em no máximo 5 minutos, com um resumo do dado que melhor traduz a diferença de escolaridade entre negros e não negros.
  4. Depois, peça para os alunos se reunirem em grupos para compartilhar a experiência de precisar achar a informação e escrever em pouco tempo. Eles também podem comparar o resultado final, observando quais dados cada um utilizou e de qual maneira sintetizou no Twitter.

2) Fontes confiáveis

Em jornalismo, é comum escrever notícias com base em informações dadas por uma pessoa não identificada na matéria (o que é chamado de informação em “off”).  O recurso é utilizado em casos em que determinada pessoa tem uma informação importante, quer passar para o jornalista, mas, por uma série de motivos, não pode ter o nome identificado na matéria (caso contrário, por exemplo, pode ser demitida, sofrer retaliação).

O chamado “sigilo da fonte” é uma garantia prevista na Constituição, pois garante ao jornalista a liberdade de exercer sua função de informar aquilo que é de interesse público. Veja o trecho do Artigo 5º, XIV, da Constituição Federal:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

XIV – e assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.

A fonte não identificada que o jornalista usa para dar a matéria deve ser de confiança. O jornalista tem que ter certeza de que aquela pessoa está falando a verdade (para isso, ele pode pedir provas). Na área de economia, por exemplo, ações do governo podem ser reveladas pelos próprios membros, como no exemplo abaixo:

“O governo brasileiro confirmou nesta quarta-feira que os Estados Unidos formalizaram nesta quarta-feira, 15, o apoio à entrada do País na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De acordo com relato de auxiliares do presidente Jair Bolsonaro e integrantes do Itamaraty ao Broadcast Político, uma carta com o pedido para priorizar o Brasil foi apresentada pelos americanos em reunião do Conselho da OCDE com representantes dos países membros, na manhã de hoje, em Paris.”

A partir das explicações acima, os alunos devem produzir uma redação dissertativa sobre o tema: “O direito ao sigilo da fonte na atividade jornalística.” Se desejarem, podem pesquisar sobre os casos da Vaza Jato e da jornalista Judith Miller, do New York Times, para utilizar como exemplos na redação.

3) Inflação

Para discutir inflação com os alunos, proponha entre os professores de matemática da escola realizar três visitas a supermercados com a classe. Para as visitas, os alunos devem se dividir em grupos de até quatro e cada grupo deve escolher cinco produtos para acompanhar o preço nas três datas diferentes.

Eles devem montar uma planilha no Excel e, nela, acrescentar o preço dos produtos por data.

Após a terceira visita, o professor deve auxiliar os alunos no cálculo da variação de preço entre os períodos. Eles vão perceber que os preços nos supermercados variam e que isso é a tal inflação. É importante colocar que o cálculo da inflação se dá de maneira parecida com o exercício que eles fizeram, a partir dos índices de preços do consumidor (IPCA) e, no Brasil, o responsável por esse indicador é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – neste vídeo há uma explicação simples e divertida.

Passar esse tipo de informação para a população, por meio de notícia, não é uma tarefa fácil. Muitas vezes, apenas informar o número do IPCA não diz muito para o leitor, é preciso “traduzir” a informação, ou seja, dar um jeito de mostrar as consequências daquele número na prática – se as compras do mês vão ficar mais caras ou mais baratas, por exemplo. Para os estudantes entenderem isso, peça para eles compararem os seguintes textos: IPCA de janeiro fica em 0,21% e Prato indigesto (com trecho reproduzido abaixo.

“O tradicional prato feito – arroz, feijão, carne, batata e ovo – ficou indigesto. Os preços dos ingredientes pesaram mais no bolso do consumidor nos últimos doze meses, especialmente para a grande massa de desempregados e subempregados. A alta desses preços supera a inflação geral do País, que anda bem comportada e acumula alta de 3,27% em 12 meses até novembro, segundo o IBGE.

O que chama mais atenção foi a disparada recente do preço da carne bovina que bateu o recorde no campo no mês passado. No açougue, houve alta de até 50% nos preços de alguns cortes nas últimas semanas.

(…) A desempregada Ana Daniela Andriani Oliveira, de 26 anos, mãe da Elisa e da Isabel, trocou a carne pelo ovo, que também está subindo. “Eles aproveitam para aumentar preço”, diz ela. O feijão também saiu das refeições da família.”

Outra possibilidade para discutir economia com a sala é abordar os tipos de inflação existentes. Para falar de Inflação de Demanda, por exemplo, o professor pode usar notícias sobre o aumento do preço de álcool gel e máscaras cirúrgicas por conta do coronavírus. No caso da Inflação de custos, o aumento no preço das carnes, por conta da gripe suína na Ásia, é um bom caso.

O Estadão na Escola é parte de uma parceria com o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática dedicado a formar professores e produzir conteúdos sobre o tema. A parceria é coordenada por Daniela Machado e Mariana Mandelli.

Disciplinas envolvidas: Português, Redação, Matemática, Sociologia

Anos em que as habilidades podem ser trabalhadas: ensino médio e fundamental 2

(EF69LP07) Produzir textos em diferentes gêneros, considerando sua adequação ao contexto produção e circulação – os enunciadores envolvidos, os objetivos, o gênero, o suporte, a circulação -, ao modo (escrito ou oral; imagem estática ou em movimento etc.), à variedade linguística e/ou semiótica apropriada a esse contexto, à construção da textualidade relacionada às propriedades textuais e do gênero), utilizando estratégias de planejamento, elaboração, revisão, edição, reescrita/redesign e avaliação de textos, para, com a ajuda do professor e a colaboração dos colegas, corrigir e aprimorar as produções realizadas, fazendo cortes, acréscimos, reformulações, correções de concordância, ortografia, pontuação em textos e editando imagens, arquivos sonoros, fazendo cortes, acréscimos, ajustes, acrescentando/ alterando efeitos, ordenamentos etc.

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

(EM13CHS402) Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade socioeconômica.

(EM13LP39) Usar procedimentos de checagem de fatos noticiados e fotos publicadas (verificar/avaliar veículo, fonte, data e local da publicação, autoria, URL, formatação; comparar diferentes fontes; consultar ferramentas e sites checadores etc.), de forma a combater a proliferação de notícias falsas (fake news).

(EM13CNT302) Comunicar, para públicos variados, em diversos contextos, resultados de análises, pesquisas e/ou experimentos, elaborando e/ou interpretando textos, gráficos, tabelas, símbolos, códigos, sistemas de classificação e equações, por meio de diferentes linguagens, mídias, tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), de modo a participar e/ou promover debates em torno de temas científicos e/ou tecnológicos de relevância sociocultural e ambiental.

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